Nada que perder, por Quico Cadaval

Co galo dos catro Premios María Casares obtidos por A cabeza do Dragón (Mellor Vestiario, Mellor Tradución / Adaptación, Mellor Actor Secundario, Mellor Actor Protagonista), especialmente polo premio á mellor tradución / adaptación, recuperamos este artigo de Quico Cadaval, publicado na erregueté nº 90 no que o tradutor e director da obra expón a súa visión sobre o “reto” de traducir a Valle-Inclán ao galego. 

| Texto: Quico Cadaval |
| Foto: Natasha Lelenco |

 

Nada que perder

Moita gente pergunta-me polas dificuldades de traduzir Valle-Inclán ao galego. Nom reparam em que a própria pergunta influi maliciosamente na resposta. Dificuldades? Todas! Aparecem às moreas, como coios no caminho, alimárias, bandoleiros e ventos do deserto que asejam o transporte que é sempre toda traduçom. As dificuldades tenhem tamanhos que nom se podem contornar, nem saltar, nem atravessar. Ninguém pode reproduzir noutra língua a riqueza expressiva, o cuidado rítmico, a nitidez léxica, a aliança clandestina entre a contundência e a cadência, a sempre secreta e labiríntica ligaçom entre os conceitos e as palavras que os designam, que Valle-Inclán pratica no seu crioulo estupendo e retorto, tiránico e hospitaleiro… Considerando as dificuldades polas que tanto me perguntam devemos concluir que traduzir Valle-Inclán é tarefa impossível. Esta é umha característica que o arousám partilha com outros autores intransportáveis como Shakespeare, De Filippo ou Chekhov, que também nom toleram ser transladados, sem graves perdas, a outros idiomas como, por exemplo, o francês ou o espanhol. Esta impossibilidade nom deve desanimar-nos, podemos tentar sempre porque nom haverá surpresas: o fracasso está garantido.

Se modificarmos a pergunta, modificamos tamém o niilismo da resposta anterior. Se a pergunta fosse: quais som os prazeres ou as riquezas, os achados em definitiva, que aparecem no caminho de traduzir A Cabeça do Dragom para o galego? A resposta vê-se novamente influenciada pola pergunta e torna-se prazerosa e estimulante, duas das principais obrigas da literatura e do teatro. É claro que é possível traduzi-lo e ouvi-lo em galego, como já aconteceu felizmente com Shakespeare, De Filippo ou Chekhov, que se manifestárom sempre satisfeitos de como ressoa a sua obra na língua nossa.

Depois de propor a igualdade de direitos translativos de Valle-Inclán com qualquer dos grandes autores citados, para ser objecto de manipulaçom, traiçom, sequestro e entrega a umha língua que nom é a original, podo continuar a relatar a aventura de levar A Cabeça do Dragom para o outro lado do rio que separa o espanhol do galego.

Hai peças de teatro que se verificam num universo falado concreto e identificável. Por exemplo, no “Ernest” de Oscar Wilde é convencionalmente aceitado que todas as suas personagens falam em inglês. Outras obram nom habitam um espaço idiomático concreto, umha língua como recurso do autor para sublinhar o universalismo do tema e do conflito, sem estorvá-lo com ornamentos geo-históricos ou étnicos. Exemplos disto som O homem-almofada de McDonagh ou A revolta de Jenaro Marinhas. Embora fossem escritas originalmente em inglês e em galego, respectivamente, nom sabemos em que território acontecem os dramas e nom é importante saber que língua falariam as personagens, no caso de existirem. Nom nos interessa saber se é umha língua de prestígio ou menorizada, umha forma canónica ou fronteiriça. Estas obras podem-se traduzir evitando a cor local, mesmo a cor social. Ser, por dizê-lo dalgum jeito, neutrais.

Temos um segundo grupo de obras de teatro nas que falam todas as personagens na mesma língua, mas o registo de classe social ou de grupo marginal é importante na trama. O exemplo mais claro é o Pigmalion de Shaw. Nesta peça, a moça protagonista fala um slang de classe baixa, e um generoso cavalheiro empenha-se em convertê-la numha daminha aristocrática, para lhe subir o preço. Traduzir umha peça destas exige o uso de subtilezas na língua final, que nom sempre estám à mao da persoa que traduz ou da comunidade linguística à que vai dirigido o espectáculo teatral.

Um terceiro grupo é o das obras que, apesar de estarem escritas numha língua única, evidenciam nas suas situações e argumentos que as personagens falam mais dumha língua. Som as peças como A boda dos moinantes de Synge (gaélico e anglo-irlandês) ou Divinas palavras de Valle-Inclán (galego e espanhol, e latim!). Nestas peças o conflito linguístico é um elemento mais do complexo dramático. Na produçom teatral destas obras propom-se a convençom de que imos ouvir umha língua mas devemos imaginar duas. A dramaturgia linguística é moi delicada, porque qualquer elemento, como o sotaque natural dos intérpretes pode alterar a percepçom da obra.

Valle-Inclán tem peças que podem ser incluídas nos três grupos. Luzes da Boémia, que se fala em espanhol da época do autor, situado na capital de Espanha e com distintos níveis de fala. Cara de Prata, de ambiente galego, voltada para um vago passado, na que se falam duas línguas e que está cheia de palavras nom pertencentes ao espanhol (galegas), incluídas com intençom expressiva, melódica e pictórica. Excluída desses tipos, hai umha outra obra de Valle na que os feitos acontecem num país imaginário, de vaga referência medieval e lendária, na que as personagens falam dum modo literário, nom coloquial, no que a musicalidade das palavras brinca com os seus significados: é A Cabeça do Dragom. Como em qualquer conto maravilhoso, os lugares da açom som os espaços infindos das nossas mentes, e a língua que fala tem esses únicos limites. A Cabeça do Dragom está inspirada ironicamente pola corrente que na literatura espanhola se chamou de “Modernismo”, umha reaçom contra o elogio da fealdade que imperava na cultura burguesa da época. Nela é todo brilhante, luxuoso, musical,e o texto nom foge desta obriga. Aliteraçom, rima interna, cláusulas longas, palavras esdrúxulas, anacronismos e frases enigmáticas som os frutos destes jardins modernistas. Se repassamos comprovaremos que o galego tem todos os instrumentos necessários para provocar essa festa da sensualidade da palavra, talvez com mais recursos que o seco dialecto de Castela.

Traduzir A Cabeça do Dragom tem bem menos problemas que qualquer obra de Valle-Inclán. O galego tem o arsenal cultural que fai falta para realizar o transporte sem perdas fundamentais. Temos umha rica cultura medieval, umha variada cultura do conto popular e umha tradiçom poética que exibiu historicamente a sua variedade e plasticidade rítmica. Para além disso, temos os nossos dialetos do sul, a lusofonia, território no que o galego goza de excelente saúde, para ir pegar recursos da sua literatura simbolista, contemporânea do modernismo espanhol. A obra é percorrida por um latejo profundo que impugna a edulcorada beleza do texto e a puerilidade da fábula.É o fantasma do esperpento, que abrolha a cada tanto, lembrando-nos que já nom é tempo de princesas e dragoes. Expressões populares, vulgares e irónicas das que também tamém está bem fornecida a língua falada na Galiza. É verdade que aparecem, por mor do modernismo, muitas palavras incompreensíveis, jóias raras e velhas. Esparavanes e madreselvas topárom a sua correspondência em alifafes e sivaerveiras, de igual poderio sonoro e que também ninguém sabe o que som, como no original. Os poucos empréstimos do galego que o autor usa para caracterizar o popular, como andorga e tojos, decidimos conservá-los literalmente. E depois, o mais importante, as actrizes e os actores figérom suas as palavras, e com essa vida infundida nelas, parece que foram galegas toda a vida.

Dizem que sempre que se traduz perdem-se cousas importantes (Lost in traslation!) mas poucas vezes se fala das cousas que se atopam. Com A Cabeça do Dragom em galego nom temos nada que perder. E Valle-Inclán, tampouco.

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