Todas as revoluções num instante, por Jorge Palinhos

O dramaturgo portugués Jorge Palinhos vén de estrear dentro do marco do festival Mondes Possibles o espectáculo My Revolution is Better Than Yours, baixo a dirección de Sanja Mitrovic. Co presente artigo, Palinhos comparte algunhas das claves desta experiencia nacida en 2016 con motivo da efeméride do Maio do 68. Autor con pezas estreadas en diferentes países de Europa e América Latina, Jorge Palinhos ten publicada a obra D’Abalada no número 90 da erregueté.

 

A revolução não é um ato breve, é uma longa marcha pelas instituições, gostava de afirmar o líder estudantil alemão dos anos 60, Rudi Dutschke. E se as verdadeiras revoluções são processos longos, com avanços e recuos, paradoxalmente a sua força está também em não parecerem mais do que um instante -um intenso instante- cuja luz pode guiar através do tempo e do espaço, como aconteceu com aquele breve e longo mês de Maio de 1968.

Foi a memória desse instante de que ainda hoje falamos que serviu de mote para My Revolution is Better Than Yours, um projeto teatral dirigido por Sanja Mitrovic, com dramaturgia minha e de Karel Vanhaesebrouck, e interpretação de Vladimir Aleksić, Jonathan Drillet, Maria Stamenković Herranz e Olga Tsvetkova.

Pretendíamos criar uma obra performativa a propósito da efeméride do Maio de 68, para o Festival Mondes Possibles, a decorrer em Maio de 2018, no teatro de Nanterre-Amandiers, dirigido por Philippe Quesne.

O projeto teve uma longa gestação, desde meados de 2016 até à sua apresentação no início de maio de 2018. Tínhamos consciência de que abordar um assunto já tão representado e discutido era atravessar um campo minado. Para mais numa altura em que se celebra os 50 anos do acontecimento. Além de que o teatro encerra já em si a armadilha de cair na representação, no que esta tem de falso, na evocação, no que esta tem de nostálgico, e na celebração, no que esta tem de pretensamente apolítico.

Era evidente para nós que não queríamos restringir-nos ao passado, mas descobrir o que o Maio de 1968 poderia ainda ser hoje entre as palavras e gestos da nossa existência.

Do mesmo modo, não nos queríamos restringir às imagens de França, mas dar conta dos tantos 68 que houve, que foram de pequenos protestos na Praça Vermelha até aos massacres de estudantes de Tlatelolco, no México.

Durante meses investigámos, discutimos o legado de 68, desde a libertação sexual à evolução da polícia anti-motim, da relação entre os movimentos estudantis e as guerras de libertação africanas, ou a violência política na América Latina. Vimos filmes, lemos diários e testemunhos, consultámos até relatórios da CIA, e fomos tomando consciência de uma série de continuidades e questões que nos interessava explorar.

Em primeiro lugar, a noção de revolução enquanto representação e enquanto símbolo. Nos testemunhos que encontrávamos víamos sempre nos gestos de revolta de 68 a vontade de comungar de uma imagem de revolta: os protestos de Junho de 68 em Belgrado eram a continuação do Maio de 68 em Paris, que eram a continuação do Abril de 68 em Berlim, que eram a continuação do Março de 68 em Varsóvia, que eram a continuação do Janeiro de 68 em Praga, e todos eles eram alguma continuação dos protestos contra a Guerra do Vietname.

E nesse processo de fusão da revolta, percebíamos como esse gesto de revolta era também profundamente teatral -as barricadas de Maio de 68 eram encenações das barricadas da Comuna de Paris, os estudantes de Berlim cantavam músicas de um western spaghetti francês chamado Viva Maria, Daniel Cohn-Bendit, porta-voz dos estudantes de Nanterre, era chamado Dany, o Vermelho, tal como Rudi Dutschke, porta-voz dos estudantes de Berlim, era chamado Rudi, o Vermelho. Os estudantes enchiam as ruas de slogans e panfletos inspirados pela Internacional Situacionista, os opositores da Hungria reuniam-se numa igreja transformada em teatro, os ocupantes do Teatro Odéon faziam discursos políticos com figurinos de Moliére, os opositores russos reuniam-se numa comuna ilegal chamada Yellow Submarine.

Mas apesar da representação, existia também uma revolta real, uma dor real, a de ativistas que se dedicaram de corpo e alma a mudar a sociedade em que viviam, e que por isso se viram presos, torturados ou mortos.

Tal mistura de revolta representada e revolta real ganharam uma surpreendente urgência quando chegámos a Paris em inícios de Abril e encontrámos a cidade em polvorosa contra as medidas economicistas de Emmanuel Macron -transportes em constante greve, universidades encerradas e ocupadas contra a seleção de alunos, luta contra a expulsão de refugiados, etc.. E ao visitarmos algumas dessas universidades deparámos com protestos contra a celebração do Maio de 68, lado a lado com slogans que traziam o Maio de 68 para os nossos dias, para a raiva e a revolta de hoje: “Nós não celebramos, nós continuamos a luta!”

Entre as histórias infindáveis que encontrámos, uma das que mais nos tocou foi o gesto dos estudantes de 1968 de procurarem o outro, o imigrante, e de visitarem os bairros de lata onde portugueses, espanhóis, italianos, magrebinos se amontoavam, fugidos da ditadura ou da guerra, para que também eles fizessem parte da sua revolta. E na busca de encontrarmos o outro dos dias de hoje, convidámos Mohamed Nour Wana, um poeta refugiado da guerra civil da Líbia, para que olhasse os ensaios, olhasse a peça, e partilhasse com o público a sua história, a sua visão do tema, a sua experiência real de viver a revolução contra o Coronel Muammar Kadhafi.

A dramaturgia da peça elaborou-se nesse cruzamento de revoltas, de ficção e de realidade, entre reencenações kitsch do filme Viva Maria, histórias reais de ativistas de vários países europeus e histórias dos próprios intérpretes, numa tentativa de encontrar o lugar precioso da perda e do sonho, da realidade e do mito, da originalidade e da repetição, em que as revoluções acontecem, e no confronto entre a revolução que se deseja e a mudança por que se pode lutar.

A revolução não é um ato breve… Não é, e por isso procurámos acima de tudo que esta peça fosse um ato vertiginoso, refletindo a alegria, exaltação, esperança e sofrimento daqueles tempos, tanto quanto ainda são os sentimentos que experimentamos no nosso intenso agora, este em que nos prometem uma vida sem limites, enquanto cerram discretamente as janelas para o horizonte.

 

Foto: Martin Argyroglo. Dereitos reservados: Stand Up Tall Productions

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