Chegada a primavera e antes que o tempo continue a correr imparável para onde não sabemos muito bem, quero lembrar a felicidade que se escreve com o movimento dos corpos.
Há um proverbio galego-português que venho aqui impugnar através do bem que nos faz a partilha da dança. Fá-lo-ei recordando, trazendo outra vez ao coração, alguns dos momentos que pude experienciar no GUIdance, o festival internacional de dança contemporânea de Guimarães, que chegou à 15ª edição entre 5 e 14 de fevereiro de 2026.
“Passou o dia, passou a romaria” é esse provérbio popular que significa que, uma vez terminada uma festa, evento ou momento importante, o interesse, a azáfama e as atenções sobre ele também desaparecem. Nego aceitar que tal coisa possa acontecer quando aquilo que nos convocou nos surpreendeu e foi além das nossas expectativas. Mas sobretudo quando os espectáculos oferecidos conseguem, de maneiras subtis, a dificílima sincronização da diversidade.
Dificílima porque isto vai contra os algoritmos que nos separam e polarizam. Dificílima sincronização do diverso, do diferente, do outro, quando tudo se dirige para a confrontação que não abraça a dissensão nem o debate, quando tudo tem que ser como eu quero, como eu gosto, como eu penso: “like” ou “hate”, “likers” ou “haters”. Não gosto deste professor, deixo de respeita-lo, ou peço que me deem outro. Não gosto desta pessoa, nego-lhe a existência. Não gosto desta companhia de dança ou deste tipo de dança, censuro-a. Não coincido com o que tu pensas, não te escuto nem te quero ver diante de mim.
Aceitar e apreciar a diversidade, nos tempos bélicos atuais, é o mais difícil. Porém, é a diversidade a única chave que nos pode abrir a mente e o coração. É a diversidade sinónimo de complexidade. Ela é o fundamento da democracia e não o “apartheid” dos povos, dos grupos fechados, dos correligionários, dos meus, dos do meu gosto… O mais difícil é fazer comunidade no diverso.
Mas, como é que se pode conseguir romper esta deriva perigosa sem dar lições, e sem utilizar as mesmas armas de quem divide, fustiga ou, simplesmente, ignora?
Rui Torrinha, o diretor artístico do Centro Cultural Vila Flor de Guimarães, fá-lo no GUIdance através de uma programação que permite voltar artistas que já são, um bocado, família do festival, da cidade, e da comunidade que se foi formando à sua volta, na qual eu mesmo e muitas pessoas da Galiza e doutros lugares se incluem, artistas como Akram Khan, Marie Chouinard, Olga Roriz, Tânia Carvalho, Joana von Mayer Trindade e Hugo Calhim Cristóvão. Mas também o faz oferecendo espaço para outras vozes diferentes que nunca aqui estiveram, como a galega Janet Novás, ou a proposta que, da Grécia, trouxe Ermira Goro, ambas através da rede europeia Aerowaves.
Quero reproduzir aqui as palavras que Torrinha escreveu para apresentar a 15ª edição do GUIdance, porque penso que merecem muito ser lidas e relidas além da data do festival, porque acho que não devem ficar naquilo de “passou o dia, passou a romaria”:
“A sincronização da diversidade é agora um processo que desafia a nossa evolução e nada melhor do que canalizar essa revolução de diferentes vontades através da dança, e de histórias que podem trazer compreensão aos nossos dias e empatia ao nosso olhar.”
Da mesma maneira, na linha de impugnar a dinâmica do consumo de produtos descartáveis, quero reciclar e, ao mesmo tempo, expandir a experiência, embora seja reduzida a umas poucas palavras, partilhando as primeiras impressões sobre os espectáculos que pude ver naquelas primeiras semanas de fevereiro. Porque passou o dia, mas não passaram os afetos e os efeitos daquela felicidade especial de nos sentirmos na sincronia da diversidade.

Mercedes mais eu | Janet Novás e Mercedes Peón. Teatro Jordão, 6 de fevereiro 2026
Mercedes escuta, através da música, o corpo de Janet. Janet não escuta o corpo, está nele, a partir de uma plenitude para a qual contribui a vibração com a música de Mercedes. A sincronia e as sinergias entre elas são profundas e brilhantes, delicadas e ousadas.
Esta música que escuta o corpo e este corpo que dança para além de uma coreografia pré-estabelecida, a partir da improvisação dramaturgicamente estruturada, devolvem em presença tudo o que o ecossistema de micro-habitats não colonizados nos oferece. Mercedes nasceu na cidade, mas foi para o campo, onde recolheu da terra a base da sua música. Janet nasceu no campo e foi para a cidade, em busca de outros horizontes, mas traz consigo, do lugar onde nasceu, Buraco, freguesia de Atios em O Porrinho, essa mesma vibração.
Onde podem estar encriptados estes arcanos? Nos cânticos, nas notas agudas que elevam a voz da articulação verbal para o “aturuxo” e para vocalizações limiares. No movimento das ancas, sem perder peso, como o arado que lavra a terra, como quando saltamos na festa. Movimentos livres, com a alegria que escapa aos compartimentos estanques do género, das identidades e das administrações ou agências. Nada precisa de ser agenciado perante o vitalismo feliz do movimento enraizado na terra.

Tender Riot | Ana Rita Xavier, Daniel Conant, Madison Pomarico, Andy Pomarico, Jonas Friedlich, Maurícia Barreira Neves e Belisa Branças. Black Box do Centro Internacional das Artes José de Guimarães, 7 de fevereiro 2026
Criação coletiva em que a performance corporal, os objetos (entre a acumulação de detritos e brinquedos), a ação da luz e do som, com distorções e parodias de músicas comerciais, parecem conformar uma paisagem estranha e caótica.
A imaginação corporizada em ação, e a ternura e cuidado nas relações e contactos entre performers, geram o que o próprio título do espectáculo anuncia, numa dinâmica de terno distúrbio. Um distúrbio que não é assustador, embora tenha um tom grotesco e assomem fantasmagorias e monstros.
Embora o ecrã hierarquize e parta, com a sua focalização centralizadora, a horizontalidade transversal e de grupo. Os cuidados e a ternura do comportamento entre as pessoas em palco é, se calhar, a unidade no heterogéneo e no diverso, a sincronia que serve de mote a esta 15ª edição do GUIdance. A sincronia de que necessitamos na (des)ordem mundial para deter a barbárie.

Magnificat + BodyremixRemix | Compagnie Marie Chouinard. Grande Auditório Francisca Abreu do Centro Cultural Vila Flor, 7 de fevereiro 2026
Coreógrafa de renome internacional na história da dança contemporânea volta ao GUIdance com duas peças em que os corpos dançam a música, acrescentando uma teatralidade muito expressiva. Em Magnificat o movimento até pode parecer uma ilustração da música de Bach, a começar com a afinação da orquestra e o aquecimento dos bailarinos, desmaterializados em silhuetas, para passar ao canto bíblico do Magnificat, com onze presenças a dançar a alegria exultante de qualquer coisa que nasce.
A densidade dos cromatismos da luz e os seus contrastes, entre o elenco e o ciclorama de fundo, junto dos corpos seminus com esses chapéus semicirculares doirados, gera uma espécie de comunidade fantástica que desenha a aura da felicidade.
Em BodyremixRemix continua a mesma fruição, mas brincando teatralmente com gadgets e próteses tipo canadianas, bastões de esquis, andarilhos, sapatilhas de pontas e até os próprios passos de ballet. A recriação da peça anterior Bodyremix, neste segundo BodyremixRemix, fica mais próxima do brinquedo humorístico com as especulações artísticas, tomando base nos comentários e execução das Variações Goldberg de Bach pelo genial Glenn Gould. Música e dança como celebrações artificiosas da imaginação, como extensões que ampliam, no extraordinário, a vida.

O Sono da Montanha + O Gesto do Falcão | Tânia Carvalho. Grande Auditório Francisca Abreu do Centro Cultural Vila Flor, 12 de fevereiro 2026
A composição da música, da luz, e da dança, nestes dois solos, é muito atmosférica. A qualidade e a textura parecem mais importantes do que a estrutura ou o traço coreográfico. São relevantes os movimentos sustidos e o extraordinário uso dos tempos, ora lento, ora súbito. A musicalidade do movimento é primorosa e o resultado hipnótico. Acho que a utilização das mãos, quase como entidades autónomas e expressionistas, podia ser um dos selos desta poética. Também os movimentos de cabeça e de braços e essa elegância dos falcões. Marta Cerqueira e Bruno Senune dançam com uma exatidão e uma elevação quase místicas. Cerqueira semelha mais neutral e abstrata na expressão do que Senune. Este incorpora a marcha e diferentes gestos, com os braços e com as mãos, ao modo de escudo e proteção à altura da cara.
A alternância e solapamento dos dois solos configuram um mistério atraente e encantador, com um tom fantasmagórico.


Sirens | Ermira Goro. Teatro Jordão, 13 de fevereiro 2026
Chara Kotsali e Adonis Vais surgem numa ambiência cénica em que luz e música geram atmosferas muito densas, como paisagens marítimas ou areais e praias. Porém, estamos perante um cenário abstrato em que emerge o desejo, a sexualidade e a sensualidade, distanciadas pela coreografia de movimentos muito articulados. Assim sendo, as poses sexuais da dupla dançante, ficam fora do erótico estereotipado ou do provocativo e apontam para uma dimensão mais mítica, que cruza o canto tradicional Rebetiko, interpretado por Chara, e o “voguing” dançado por Adonis.
Canto e dança de umas dimensões políticas implícitas que Sirens articula atravessando e diluindo os géneros. Unidade ou igualdade na diversidade.

Quando Vem a Taciturna de Limiar em Limiar O Presente Frágil | Joana von Mayer Trindade e Hugo Calhim Cristóvão. Pequeno Auditório do Centro Cultural Vila Flor, 14 de fevereiro 2026
Nesta nova criação da Nuisis Zobop, a dança parece construir perante os nossos olhos alucinados o mito da Taciturna, uma mulher idosa e sábia, além dos tempos.
Sara Miguelote, Lucía Marrodan, Ethel Desdames e Marta Pieczull não são elas, as pessoas que dançam, mas a configuração/transfiguração de uma entidade múltipla, a dessa Taciturna que, no poema de Paul Celan, vem e poda as tulipas. E que, no poema dancístico-mítico da Nuisis Zobop, chega ao fim, arrebatada de luz, com o frenesim do “The End” dos The Doors no início do espectáculo, e prossegue, e persiste, com o Concerto para violoncelo em Si Menor, op. 104, de Dvorak, interpretado por Jacqueline du Pré, com a música original de Paulo Costa, e com a reverberação final de um silêncio preenchido pela dança.
Não haverá emoções comuns por empatia baseada na identificação, porque as bailarinas estão transfiguradas num além do pessoal, mas haverá a comoção e o assombro perante o desconhecido que nos atinge.

Chotto Desh | Akram Khan Company. Grande Auditório Francisca Abreu do Centro Cultural Vila Flor, 14 de fevereiro 2026
Presenciamos uma viagem autobiográfica, em tom onírico, à infância do miúdo Akram, filho de migrantes do Bangladesh, em Londres, que queria dançar.
O Alter ego de Akram é o prodigioso bailarino filipino Jasper Narvaez. A sua presença e traços étnicos fornecem uma verdade análoga à da fábula biográfica do prestigioso coreógrafo, representada de uma maneira mágica.
A interação com projeções de desenhos em movimento, as duas cadeiras brancas, uma pequena e outra gigante, o teatro de sombras, os diálogos da criança com a mãe e o pai, e do adulto, em viagem pelo Bangladesh, com outro miúdo a trabalhar como operador de “call center”, fazem do espectáculo uma experiência muito dinâmica e surpreendente.
Dança a representar uma história, a de uma criança migrante, de classe baixa trabalhadora, que acaba por cumprir os seus sonhos.
Chotto Desh fechou o 15º GUIdance de Guimarães com o Grande Auditório Francisca Abreu do CCVF lotado, com a certeza de que houve sincronia da diversidade e de um sucesso inequívoco.

(Os meus agradecimentos para Maria José Albarran Alves de Carvalho pela revisão linguística deste artigo.)
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