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O Fim

Uma luz que se extingue

Foto: José Caldeira - TNSJ
Foto: José Caldeira - TNSJ

O drama está além do(s) palco(s), essa parece a grande verdade do teatro simbolista. No palco ficam os ecos e os estertores, as ruínas. Carlos Pimenta oferece-nos uma encenação d’O Fim de António Patrício muito esteticista, de geometrias limpas que transparecem essa mística na qual, como na tragédia, já sabemos o final desde o início.

O peso da tragédia voa com as asas da lírica, numa interpretação próxima do recitativo dessas personagens que não parecem mimese de pessoas reais, mas de entidades supra-humanas.

O hieratismo dos quadros, musicalizado pelas falas primorosas, pelas disposições das personagens no espaço, pela luz e pelas atmosferas, junto da alegoria da Nação representada por aquela derradeira rainha doida e desmemoriada, situam-nos no ângulo entre a contemplação e a comoção.

O elenco interpreta em coesão absoluta com a estética. Há na atuação o ritual e a gravidade de quem defronta poderes superiores. As invasões e os novos jeitos de colonização atuais ecoam neste poema cénico.

A preocupação rapsódica substitui a ocupação (ação) dramática, e a lírica cintila no halo (mais do que na presença) da Rainha Velha, que nos maravilha pela interpretação de Emília Silvestre.

Assim sendo, O Fim aparecesse-nos no palco como um poema em que as reminiscências arcaicas e o tom decadentista adquirem dimensões deslumbrantes. A beleza do delicado e do inútil são aqui potência implícita face à invasão e à barbárie, face às imposições.

Assistir à extinção de um mundo, em cujas figuras, edifícios e rituais se cifrava a identidade e o ser de um povo, substituído pela força, deixa-nos perplexos.

Não se trata, agora, de uma reivindicação nem de uma denúncia, a partir da queda da derradeira monarquia portuguesa. Não é Monarquia face à República. Trata-se, melhor, de assistir ao ritual de uma extinção. Trata-se de contemplar o declínio, pegando numa história que hoje funciona quase como uma lenda fantástica, que encerra algumas essências do ser português. Um sistema que se apaga enquanto aparece a figura alegórica do Desconhecido.

Tudo, em O Fim, se opõe e contrasta com o frenesim atual de produção e consumo compulsivo de bens materiais, com os tempos de velocidade e de barulho. O conflito não é dramático ou interior, não está na peça teatral entre as personagens, mas entre ela e o mundo atual. E aí nós somos participantes.

(Os meus agradecimentos para Maria José Albarran Alves de Carvalho pela revisão linguística deste artigo.)

Afonso Becerra
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O Fim

Autor: António Patrício

Encenação: Carlos Pimenta

Interpretação: Emília Silvestre (A Rainha Velha), Jorge Pinto (O Duque), Marta Bernardes (A Aia), Pedro Mendoça (O Ministro), António Durães (O Desconhecido), Mário Moutinho (Criado Velho), Daniela Baganha (Criada 1), Daniela Soares (Criada 2), Lara Lima (Criada 3), Jorge Martins (Criado 4), Rui de Noronha Ozório (narração)

Música e desenho de som: Ricardo Pinto

Desenho de luz: Rui Monteiro

Vídeo: João Pedro Fonseca

Figurinos: Bernardo Monteiro

Assistência de encenação: Carolina Viamonte

Coprodução: Ensemble – Sociedade de Actores e Teatro Nacional São João

Teatro Nacional São João do Porto, 15 de fevereiro de 2026.

Afonso Becerra

Afonso Becerra

Director da erregueté | Revista Galega de Teatro. Pertence ao seu Consello de Redacción desde o 2006. Doutor en Artes Escénicas pola Universitat Autònoma de Barcelona. Titulado Superior en Dirección escénica e dramaturxia polo Institut del Teatre de Barcelona. Titulado en Interpretación polo ITAE de Asturies. Dramaturgo e director de escena. Exerce a docencia en dramaturxia e escrita dramática na ESAD de Galiza desde o ano 2005. É colaborador, entre outras publicacións, de revistas de cultura e artes performativas como 'ARTEZBLAI', 'Primer Acto', 'Danza en escena', 'Tempos Novos', 'Grial'. Entre setembro de 2019 e xuño de 2021 foi colaborador especialista en artes escénicas da CRTVG, no programa 'ZIGZAG' da TVG. Desde setembro de 2022 é colaborador semanal sobre artes escénicas do 'DIARIO CULTURAL' da RADIO GALEGA.
Premio Álvaro Cunqueiro da Xunta de Galicia en 2001. Premio María Casares á Mellor Adaptación teatral en 2016. Premio de Honra do Festival de Teatro Galego, FETEGA, do Carballiño (Ourense) en 2020. Premio Internacional de Xornalismo Carlos Porto 2024, de prensa especializada, do Festival de Almada, organizado pola Câmara Municipal de Almada, do que tamén recibira unha Mención Honrosa en 2020.

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