O drama está além do(s) palco(s), essa parece a grande verdade do teatro simbolista. No palco ficam os ecos e os estertores, as ruínas. Carlos Pimenta oferece-nos uma encenação d’O Fim de António Patrício muito esteticista, de geometrias limpas que transparecem essa mística na qual, como na tragédia, já sabemos o final desde o início.
O peso da tragédia voa com as asas da lírica, numa interpretação próxima do recitativo dessas personagens que não parecem mimese de pessoas reais, mas de entidades supra-humanas.
O hieratismo dos quadros, musicalizado pelas falas primorosas, pelas disposições das personagens no espaço, pela luz e pelas atmosferas, junto da alegoria da Nação representada por aquela derradeira rainha doida e desmemoriada, situam-nos no ângulo entre a contemplação e a comoção.
O elenco interpreta em coesão absoluta com a estética. Há na atuação o ritual e a gravidade de quem defronta poderes superiores. As invasões e os novos jeitos de colonização atuais ecoam neste poema cénico.
A preocupação rapsódica substitui a ocupação (ação) dramática, e a lírica cintila no halo (mais do que na presença) da Rainha Velha, que nos maravilha pela interpretação de Emília Silvestre.
Assim sendo, O Fim aparecesse-nos no palco como um poema em que as reminiscências arcaicas e o tom decadentista adquirem dimensões deslumbrantes. A beleza do delicado e do inútil são aqui potência implícita face à invasão e à barbárie, face às imposições.
Assistir à extinção de um mundo, em cujas figuras, edifícios e rituais se cifrava a identidade e o ser de um povo, substituído pela força, deixa-nos perplexos.
Não se trata, agora, de uma reivindicação nem de uma denúncia, a partir da queda da derradeira monarquia portuguesa. Não é Monarquia face à República. Trata-se, melhor, de assistir ao ritual de uma extinção. Trata-se de contemplar o declínio, pegando numa história que hoje funciona quase como uma lenda fantástica, que encerra algumas essências do ser português. Um sistema que se apaga enquanto aparece a figura alegórica do Desconhecido.
Tudo, em O Fim, se opõe e contrasta com o frenesim atual de produção e consumo compulsivo de bens materiais, com os tempos de velocidade e de barulho. O conflito não é dramático ou interior, não está na peça teatral entre as personagens, mas entre ela e o mundo atual. E aí nós somos participantes.
(Os meus agradecimentos para Maria José Albarran Alves de Carvalho pela revisão linguística deste artigo.)
- O Fim - 08/04/2026
- Sincronizar a diversidade através da dança - 23/03/2026
- A Colónia - 15/03/2026



