Crítica, Crítica teatro

Maria Callas: Lettres et mémoires

Imaxe do Festival de Almada

Uma ode mitómana sóbria

Num grande festival não pode faltar algum espetáculo com algum nome famoso e num grande auditório. Se calhar, porque o teatro, além da experiência artística de proximidade, também pode ter alguma coisa de evento social espetacular. Às vezes, até acaba por ser mais espetacular o evento em si próprio, como fenómeno sociológico, com toda a sua aura de marketing e glamour, do que a peça que se apresenta. Eis o caso de Maria Callas. Lettres et mémoires do Tom Volf, com a atriz de cinema Monica Bellucci, quem tinha sido top model de sucesso para marcas de muito prestígio no mundo da haute-couture.

No dia 11 de julho, o Grande Auditório do Centro Cultural de Belém ficava com todos os lugares possíveis ocupados e o público à espera da ressurreição da diva Maria Callas, adorada por muitas pessoas, como é o meu caso. Mas não há ressurreição possível, além de uma evocação ténue e muito distante. Uma distância que, talvez, sirva para a mulher passional e corajosa ficar numa figura quase alegórica da elegância e a ternura, acima das graças e desgraças.

O gancho deste espetáculo é, sem dúvida, a reunião de dois mitos, duas vedetas, Maria Callas e Monica Belluci, também o Tom Volf, diretor de cinema especialista na biografia da Callas. De facto, o Volf é o autor do filme Maria by Callas, estreado em 45 países em 2018, e do livro que leva o mesmo título do espetáculo, Maria Callas. Lettres et mémoires.

Alimentam o mito, e o fetichismo com ele relacionado, a utilização de um vestido que pertenceu à própria Callas, e que, segundo a folha de sala, “permaneceu escondido e em segredo durante mais de 60 anos e que mais ninguém, para além de Callas, jamais usou.” Também o sofá que está no centro do palco, “numa reprodução exata daquele que costumava estar na Avenue Georges Mandel, no apartamento de Paris onde Callas passou os seus últimos 15 anos.” E ainda “um gramofone, com o qual […] costumava ouvir as suas próprias gravações”.

Com estes objetos sagrados e com a leitura de algumas cartas de diferentes épocas, emitidas por uma Monica Bellucci hierática, em posições sedentes e, nalgum momento, também de pé, configura-se esta evocação.

As cartas são confissões amicais e amorosas, portanto, íntimas, e isto implica, na sua leitura, uma espécie de diálogo com o destinatário: Giovanni Battista, quem fora o seu primeiro marido; Elvira de Hidalgo, confidente para os assuntos artísticos e pessoais; o médico Leonidas Lantzounis, o seu padrinho; Aristóteles Onassis, o seu segundo e último marido; e artistas muito conhecidas como a Grace Kelly ou o Pier Paolo Pasolini, entre outras pessoas marcantes na sua vida. Porém, na elocução, Monica Bellucci não se arrisca a introduzir mudanças interpretativas que nos possam dar a ver as diferenças, embora subtis, nas suas atitudes ou emoções no que diz respeito a estes destinatários das suas palavras. Ao não haver nenhuma mudança apreciável na interpretação, também não há uma criação dessas outras personagens ausentes evocadas nas cartas.

Pode parecer uma contradição, mas acho que o Tom Volf, que não é um encenador de teatro, foi inteligente ao não se introduzir em complexidades teatrais e optar por uma espécie de leitura ou recitado dessa seleção de cartas.

Como já apontei, é uma operação hábil juntar dois mitos, o da bela Monica Bellucci e o da “divina” Maria Callas, numa ode cénica para mitómanos. E acho que tem muito mérito fazer isto mesmo com sobriedade e sem pretensões dramáticas nem grandiloquências, sem barroquismos nem concessões sentimentais. Tudo bem feito, a luz, o mar de caligrafias da Callas a movimentar-se no ciclorama do foro, a Bellucci com o elegante vestido da soprano e com pose aristocrática.

Só não gostei da imagem continua de mulher melíflua, tão pouco vigorosa, quase passiva, tanto no tom da dicção, sempre doce e muito suave e feminil, quanto na maneira grácil de reclinar-se no sofá, como abandonada de si mesma.

Entre a elocução das cartas, alguma declaração sobre momentos chave da sua biografia, desde o relato da infância até algum dos fracassos mais marcantes da sua carreira artística, também as suas convicções: “A fé é tudo na vida. Sem fé não se pode existir. Nunca teria feito uma tal carreira se não tivesse tido uma fé absoluta em mim mesma, uma vez que não se pode esperar muito dos outros. […] E nunca esquecer a integridade, a honestidade e a gratidão.”

E também momentos para ouvir, com ela, algumas das árias operáticas nas quais se transmite esse temperamento inigualável da Callas. A Bellucci e o Volf preferem deixar que seja a própria voz da Callas e a música os meios de expressão e transmissão desse temperamento e paixão, antes do que o meio teatral.

La Gioconda de Ponchielli, Suicidio; Norma de Bellini, Casta Diva; La Traviata de Verdi, Amami Alfredo e Addio del passato, são a seleção com a qual podemos ouvir a inconfundível, vibrante e esplendorosa Callas.

É, se calhar, através do canto e da música onde o drama emerge como algo eterno. Entretanto, na peça teatral que vemos em palco fica essa figura, como uma esfinge que, embora nos leia as suas cartas, não vai revelar-nos o seu mistério.

Ficha artística

Maria Callas. Lettres et mémoires de Tom Volf. Les Visiteurs du Soir (França)

Texto e encenação: Tom Volf
Interpretação: Monica Bellucci
Vídeo:Olivier Orly
Luz: Anne Roudiy
Caracterizaçao: Letizia Carnevale

38 Festival de Almada. Centro Cultural de Belém. Grande Auditório (Lisboa), 11 de julho de 2021. 

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