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‘Smashed2’ | 39 Festival de Almada

'Smashed2' de Sean Gandini e Kati Ylä-Hokkala. Foto: Watermans.
'Smashed2' de Sean Gandini e Kati Ylä-Hokkala. Foto: Watermans.

Um refresco frutal

Oitenta laranjas, sete melancias e nove malabaristas ofereceram-nos, no palco grande da Escola D. António da Costa, uma divertida comédia frutal e musical. Smashed2 brinca com o virtuosismo circense dos malabarismos e com o empenho do ser humano em vencer, em atingir o sucesso seja como for. Esta competitividade, esta concorrência, no jogo, na vida profissional, na arte e até na conceção binária de género, entre mulheres e homens, é aqui motivo de humor.

Em palco, sete mulheres e dois homens lutam e divertem-se a tentar provocar, ludicamente, o erro e a queda das laranjas com que fazem virtuosos malabarismos. A simultaneidade e o uníssono malabarístico multiplicam e expandem o efeito estético, num género de coreografia aérea dos objetos, neste caso as laranjas. Desde o início, sem dúvida, ativa-se a expetativa sobre quando é que será o momento em que todas essas frutas explodirão. E essa tensão rítmica vai manter-se até à apoteose, como no final de Bacantes, em que se confirma a expetativa.

Os números circenses ficam muito próximos da dança-teatro, pela qualidade expressiva do movimento e do gesto do elenco. Cada número está banhado num tema musical reconhecível do repertório clássico, a alternar com o music-hall e canções de diferentes estilos e épocas que introduzem o tom da cena.

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As distribuições e deslocamentos no espaço vão dar em composições coreográficas que, em alguns números, parecem evocar figuras grupais modernistas, com um ponto até pictórico. Noutros há uma clara homenagem ao humor na linguagem coreográfica do tanztheatre de Pina Bausch. A mim, no geral, neste sentido, lembrou-me, um bocado, Mazurca Fogo.

A questão mais polémica, se calhar, é a referida ao tratamento das relações e interações entre mulheres e homens. Na primeira parte, as aproximações deles com intenções que poderiam ser consideradas de engatar e de contacto físico direto, enquanto elas fazem malabarismos. Na segunda parte, o empoderamento delas, a exercer um tipo de vingança de género violento. Até o clímax no bacanal final, quando elas lançam os dois homens ao chão e atiram contra eles laranjas e melancias, que explodem entre as suas pernas e braços abertos. Porém, estas ações estão tratadas sob a figura retórica da caricatura e com um tom próximo ao do cartoon. Portanto, o resultado é o riso e a liberação.

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Em Smashed2 (Esmagado 2), o desfrute está garantido para qualquer tipo de público. Crianças, adolescentes e pessoas de todas as idades podem divertir-se e, de facto, assim se constatou. Embora as cenas de violência, neutralizada pela estilização artística, e a extração do dinheiro que levava no bolso um dos homens derrotados, em qualquer videojogo para crianças podemos encontrar muita mais crueldade. Além disto, o foco deste espetáculo está na fascinação circense e na liberação que supõe fazer explodir todo esse colorido frutal.

Após o aplauso, o elenco saiu ao palco, quando o público já estava a abandonar o teatro, para oferecer as peças de fruta que ainda estavam inteiras, porque não foram utilizadas ou ficaram indemnes. E houve pessoas que, adicionalmente ao bom sabor de boca deixado pelo espetáculo, levaram laranjas e melancias.

***

(O meu agradecimento a Célia Guido Mendes pela colaboração na correção linguística.)

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Smashed2 de Sean Gandini e Kati Ylä-Hokkala

Gandini Jugglling (Londres, Inglaterra)

Interpretação: Kati Ylä-Hokkala, Luke Hallgarden, Yu-Hsien Wu, Dulce Duca, Cecilia Zucchetti, Val Jauregui, Frederike Gerstner, Lynn Scott, Sean Gandini

Colaboração na encenação: Ben Duke

Luzes: Guy Dickens

39 Festival de Almada. Palco Grande da Escola D. António da Costa, 6 de julho de 2022.

Afonso Becerra

Afonso Becerra

Director da erregueté | Revista Galega de Teatro. Pertence ao seu Consello de Redacción desde o 2006. Doutor en Artes Escénicas pola Universitat Autònoma de Barcelona. Titulado Superior en Dirección escénica e dramaturxia polo Institut del Teatre de Barcelona. Titulado en Interpretación polo ITAE de Asturies. Dramaturgo e director de escena. Exerce a docencia en dramaturxia e escrita dramática na ESAD de Galiza desde o ano 2005. É colaborador, entre outras publicacións, de revistas de cultura e artes performativas como 'ARTEZBLAI', 'Primer Acto', 'Danza en escena', 'Tempos Novos', 'Grial'. Entre setembro de 2019 e xuño de 2021 foi colaborador especialista en artes escénicas da CRTVG, no programa 'ZIGZAG' da TVG. Desde setembro de 2022 é colaborador semanal sobre artes escénicas do 'DIARIO CULTURAL' da RADIO GALEGA.
Premio Álvaro Cunqueiro da Xunta de Galicia en 2001. Premio María Casares á Mellor Adaptación teatral en 2016. Premio de Honra do Festival de Teatro Galego, FETEGA, do Carballiño (Ourense) en 2020. Mención Honrosa no Premio Internacional de Xornalismo Carlos Porto 2019 do Festival de Almada (Portugal, 2020).

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