Nesta nova criação de Joana von Mayer Trindade e Hugo Calhim Cristóvão, da Nuisis Zobop, a dança parece construir perante os nossos olhos alucinados o mito da Taciturna, uma mulher idosa e sábia, além dos tempos.
Sara Miguelote, Lucía Marrodan, Ethel Desdames e Marta Pieczull não são elas, as pessoas que dançam, mas a configuração/transfiguração de uma entidade múltipla, a dessa Taciturna que, no poema de Paul Celan, vem e poda as tulipas. E que, no poema dancístico-mítico da Nuisis Zobop, chega ao fim, arrebatada de luz, com o frenesim do “The End” dos The Doors no início do espectáculo, e prossegue, e persiste, com o Concerto para violoncelo em Si Menor, op. 104, de Dvorak, interpretado por Jacqueline du Pré, com a música original de Paulo Costa, e com a reverberação final de um silêncio preenchido pela dança.
Nesta Taciturna aparecem as deusas da India e aquelas mulheres idosas das aldeias portuguesas e também das galegas. Mulheres sabias que levavam muitas roupas, postas umas acima das outras, evocadas aqui pelos figurinos com várias camadas de aventais estilizados. Mulheres idosas e lutadoras que continuaram a mexer-se e a atuar, além do ego, agarradas à terra, embora tivessem assistido a tempos de privação e de miséria, embora sofressem catástrofes. Eis o dançar quase frenético destas entidades que as evocam, a olhar para nós e além de nós, como horizonte, com a expressão assombrada de quem observa atos terroríficos e catástrofes, tal qual estamos a ver na atualidade, tal qual padeceu o poeta Paul Celan, sobrevivente do Holocausto. Eis a dança a continuar dançando-se apesar de tudo e por causa de tudo.
Tal como para Paul Celan, após Auschwitz, a linguagem ficou como “a única coisa atingível, próxima e segura entre todas as perdas”, parece que para a Nuisis Zobop a dança é esse espaço em que podemos transcender o terror e as misérias, principalmente as provocadas pelo homem. Eis, também, o espaço em que o medo é superado pelo movimento, tal qual o poeta português Al Berto fez em O Medo.
A personagem alegórica da morte flutua nesta peça, mas não é sombria nem triste, é a afirmação de um presente frágil que a ética/estética intensifica e enche de luz. Eis o paradoxo da Taciturna que, aqui, vem pelo limiar para nos extasiar e nos dar prazer.
Eu considerei ver deusas da India devido às composições posturais, àqueles punhos de Marta colocados diante dos olhos como se fossem uma máscara, ou aos olhos de Lucía e de Sara a saírem das suas órbitas, ou às línguas esticadas para fora da boca, e a toda essa frontalidade coreográfica a olhar para nós como horizonte longínquo. Tudo isso me levou para a imagem de uma deusa múltipla e polimorfa como aquelas do oriente, que têm vários braços, pernas e cabeças.
Se damos uma vista de olhos à sinopse da peça, encontramos a ideia de que esta “criação invoca as Mahavydias, deusas ferozes da sabedoria impura que dói e que ri”. Então vamos à net e confirmamos que são as Grandes Sabias, dez poderosas deusas tântricas no Hinduísmo, representando aspetos da Divina Nai (Shakti/Adi Parashakti), da destruição do ego até à oferenda do conhecimento e da abundância, a fazer de guias para quem procura a libertação espiritual.
Desta maneira, Quando Vem a Taciturna de Limiar em Limiar O Presente Frágil poderia basear-se nessas dez energias representadas pelas deusas. E a coreografia poderia ter similares efeitos aos dos rituais e aos das meditações com mantras (palavras sagradas) e “yantras” (diagramas sagrados), para acordar em nós essas energias. De facto, não são só as entidades dançantes, interpretadas pelas bailarinas, a executar o ritual e a coreografia, que podem equivaler a mantras, mas também o pentagrama de triângulos traçados em branco sobre o chão preto do palco, que equivaleria aos “yantras”.
Ora bem, que se passa se a espectadora ou o espectador nada sabem de tudo isto, nem têm nenhum referente ou imagem?
Pois então, o que se passa é uma dança de alta fisicalidade, um êxtase da repetição de motivos cinéticos enigmáticos, metáfora da persistência além das adversidades e até da morte, que desenham um ballet muito intenso. Não haverá emoções comuns por empatia baseada na identificação, porque as bailarinas estão transfiguradas num além do pessoal, mas haverá a comoção e o assombro perante o desconhecido que nos atinge. Aliás, para mim houve o desfrute e a felicidade da energia transbordante na filigrana ígnea da coreografia. Esse texto misterioso que nos trouxe o mito da Taciturna deslumbrante.
(Os meus agradecimentos para Maria José Albarran Alves de Carvalho pela revisão linguística deste artigo.)
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