in

A Colónia

Quando a verdade da história atua com, para, entre… nós | ‘A Colónia’ de Marco Martins

'A Colónia' de Marco Martins. Fotos: Centro Cultural Vila Flor.
'A Colónia' de Marco Martins. Fotos: Centro Cultural Vila Flor.

É muito possível que a única maneira de corrigir a repetição ou a variação do horror no presente e no futuro seja conhecer a história. Mas uma coisa é o vazio, a escuridão, outra a informação, e outra, a mais relevante, o conhecimento. Conhecer não é assim tão fácil, porque, em certa medida, requer experiência. Diz um refrão galego que a experiência faz mestres. A experiência dá profundidade àquilo que aprendemos com ela. Por isso o conhecimento está mais perto da experiência do que da informação.

Às vezes, o teatro constitui-se numa experiência que nos serve para conhecer. Eis o caso de A Colónia de Marco Martins. Uma forma espectacular de contar a história da colónia para crianças de presos políticos durante a Ditadura em Portugal, com a intervenção direta do arquivo vivo dos adultos que foram aquelas crianças.

Colaboram com estas pessoas, que tiveram uma infância especialmente difícil, um elenco de atores para ajudar a recuperar as lembranças e as histórias das suas famílias, que sofreram perseguição, tortura e prisão.

Em palco estão presentes os protagonistas desses acontecimentos, a fazer que o próprio espectáculo, a peça teatral, tenha a dimensão real de um evento social e político. Porém, trata-se de um evento político sublimado artisticamente que nos interpela de maneira emotiva e edificante.

Os atores profissionais, que acompanham a atuação destas pessoas que não são atores, têm um efeito multiplicador e amplificador ao assumirem, em determinados momentos, a recriação de algumas cenas biográficas, as vozes e as identidades, sem as suplantarem. Deste jeito, não estamos perante o drama feito da reapropriação vital de pessoas reais reduzidas a personagens teatrais, mas perante um diálogo. Nele encontram-se quem experienciou o lado mais injusto da história, as crianças vítimas de uma Ditadura, após a distância do tempo, e quem se criou na relativa liberdade da democracia, os atores.

Assim sendo, embora os documentos mostrados – cartas, postais, desenhos, fotografias, cartões de cidadão, informes da PIDE etc. –, não estamos perante um documentário, a receber informação em diferentes suportes, nem perante a suplantação do teatro dramático que reduz a ficção a vida. Estamos a encontrarmo-nos com a história, de uma maneira viva, sentindo a verdade nos corpos, nas palavras, no palco.

O dispositivo cenográfico estrutura o palco em duas alturas: na superior temos o salão das muitas casas pelas quais tinham passado os pais dessas crianças, fugindo em anonimato, sem poder permitirem-se a necessária estabilidade; na inferior um espaço branco em que estão adolescentes atuais, desta democracia jovem. Em consequência, encontramos a convivência em palco do passado vivo e do futuro em potência. Um futuro em que se querem ecoar as histórias da repressão fascista, cuja face assustadora volta a assomar, ameaçando o equilíbrio democrático das liberdades e fazendo-nos ver a sua fragilidade.

Memoria histórica que é memoria viva, e que este espectáculo amplifica, numa partilha em que a ética dá forma à estética cénica.

Saímos do teatro conhecendo algo muito valioso. Agora toca a obrar em consequência se não queremos que a barbárie se expanda.

(Os meus agradecimentos para Maria José Albarran Alves de Carvalho pela revisão linguística deste artigo.)

Afonso Becerra
Latest posts by Afonso Becerra (see all)

A Colónia

Direção e dramaturgia: Marco Martins

Elenco: Manuela Canais Rocha, Conceição Lopes, Conceição Matos, Domingos Abrantes, Umberto Candeias, Ola Sequeira Santos, Rita Veloso, Valentina Marcelino, João Pedro Vaz, Sara Carinhas, Ana Vilaça, Rodrigo Tomás, Anderson Ramos, Arthur Lupi, Beatriz Ribeiro, Diana Soares, Inês Paulino, Joaquim Queiroz, Laura Trueb, Leonardo Martins, Lurdes Ferraz, Milena Mavie, Niurka Sacramento, Pedro Conceição

Assistência de encenação e apoio à dramaturgia: Rita Quelhas

Pesquisa e apoio à assistência de encenação: Gaspar Nascimento

Pesquisa Torre do Tombo: Gaspar Nascimento, Joana Pereira Bastos, Mariana Brandão

Música: B-Fachada, João Pimenta Gomes

Desenho de luz: Nuno Meira

Cenografia: Isabel Cordovil, João Romão

Sonoplastia e operação de som: Vítor Santos

Direção técnica: Pedro Moreira

Movimento: Vânia Rovisco e Hugo Marmelada

Manipulação de objetos: Luís Vieira e Rute Ribeiro

Produção executiva: Joana Goldschmidt

Coordenação e direção de produção: Mariana Brandão

Coprodução: Culturgest, Teatro Nacional São João, R.T.P. – Rádio e Televisão de Portugal, Arena Ensemble

Centro Cultural Vila Flor de Guimarães, 28 de fevereiro de 2026.

Afonso Becerra

Afonso Becerra

Director da erregueté | Revista Galega de Teatro. Pertence ao seu Consello de Redacción desde o 2006. Doutor en Artes Escénicas pola Universitat Autònoma de Barcelona. Titulado Superior en Dirección escénica e dramaturxia polo Institut del Teatre de Barcelona. Titulado en Interpretación polo ITAE de Asturies. Dramaturgo e director de escena. Exerce a docencia en dramaturxia e escrita dramática na ESAD de Galiza desde o ano 2005. É colaborador, entre outras publicacións, de revistas de cultura e artes performativas como 'ARTEZBLAI', 'Primer Acto', 'Danza en escena', 'Tempos Novos', 'Grial'. Entre setembro de 2019 e xuño de 2021 foi colaborador especialista en artes escénicas da CRTVG, no programa 'ZIGZAG' da TVG. Desde setembro de 2022 é colaborador semanal sobre artes escénicas do 'DIARIO CULTURAL' da RADIO GALEGA.
Premio Álvaro Cunqueiro da Xunta de Galicia en 2001. Premio María Casares á Mellor Adaptación teatral en 2016. Premio de Honra do Festival de Teatro Galego, FETEGA, do Carballiño (Ourense) en 2020. Premio Internacional de Xornalismo Carlos Porto 2024, de prensa especializada, do Festival de Almada, organizado pola Câmara Municipal de Almada, do que tamén recibira unha Mención Honrosa en 2020.

Deixa unha resposta

O teu enderezo electrónico non se publicará Os campos obrigatorios están marcados con *

Foto: Rubén Prieto.

Talía Teatro estreou ‘Artur Ui, o ovo da serpe’ no Rosalía