Crítica, Crítica danza

Omma

Imaxe de Sophie Carles

Tudo na dança, como na olhada

Tudo na dança, da raiz às pontas dessa árvore que nasce na África. Tudo na dança, da voz ao canto, da desfilada ambígua (para o ritual da vida, para o da morte, para o do amor, para o do trabalho) à movimentação de todas as partes do corpo, numa harmonia que só os animais têm de natural. A arte, afinal, aparece quando o difícil afigura-se fácil, quando o artificio e tudo o que se pensou se dilui numa fluência que nos leva consigo, confiantes e admirados.

Admirar é uma maneira de olhar mais intensa, que também implica um sentimento de consideração e respeito, uma espécie de distância. A distância que suscitam algumas obras de arte, também das chamadas “artes vivas”, como a dança. A distância que, por um lado permite olhar melhor e, por outro lado, permite deixar livre a imaginação e a especulação interpretativa. Esse espaço necessário também para que possa surgir o mito, pois o mito, como história exemplar, intemporal e transcendental, requer de uma distância.

Os oito bailarinos africanos de Omma do Josef Nadj congregam os seus oito fôlegos numa reunião com muita terra e muita raiz. Tanta quanto poderiam até figurar um ajuntamento de deuses dançantes. Mas não são deuses, são homens que gritam, que cantam, que se agitam aos ritmos arcaicos de possíveis rituais. Homens negros de fato preto que despem o seu ser no estar dançante.

Para o bailarino e também coreógrafo Joahn Volmar, que estava entre o público o mesmo dia que eu vi Omma, foi admirável “a presença dos intérpretes durante uma hora em contínuo. A singularidade de cada um dos corpos dentro de um elenco que, sem dúvida, defende estar juntos.” Relativamente ao estilo, eu estava a pensar nalguma coisa que vem da África e que se transparece no movimento. O Joahn comenta-me que há riscos de dança africana, mas aparece nos corpos como memória. Concordamos em que se trata de uma coreografia bem contemporânea.

No entanto, no movimento há algo de arcaico, como se viesse das raízes, se calhar pelos ritmos repetitivos e alguns sons de percussão de instrumentação tradicional, se calhar pela utilização da voz de uma maneira muito musical e sem vontade comunicativa verbal, se calhar por alguns gestos dos braços e as mãos como na execução repetitiva de trabalhos agrícolas, se calhar nessa congregação humana que comunga através da dança…

No que diz respeito ao percurso artístico do Josef Nadj, revela-se muito curiosa esta nova procura, na qual a dança absorve e contém a olhada fotográfica e das artes plásticas que caracteriza a obra do criador húngaro. Tudo parece estar lá contido, nesse quadrado de luz de oito por oito onde dançam os oito bailarinos negros africanos.

Por entre a dança, caracterizada por um movimento muito energético e vitalista, emergem cenas teatrais. Lembro uma sorte de dobre cortejo fúnebre ou, num dos últimos tableaux, o fio vermelho que sai da boca de um dos homens jacentes para a boca do outro e que acaba com uma ressurreição.

Omma é uma peça assente no simples e no essencial, que foge dos artifícios e dos sensacionalismos. Nela, o visível concerta a vibração atrativa do mistério. A nossa olhada fica prendida e admirada.

Omma, em grego antigo significa olho, olhar, o que se vê. Mas na Omma de Josef Nadj o que não se vê está lá, e a sua energia molda os movimentos e, ao mesmo tempo, também a nossa receção, o nosso olhar.

Ficha artística

Omma, de Josef Nadj. Atelier 3+1 (França)

Coreografia e figurinos: Josef Nadj
Interpretação: Djino Alolo Sabin, Timothé Ballo, Abdel Kader Diop, Aipeur Foundou, Bi Jean Ronsard Irié, Jean-Paul Mehansio, Romual Kabore, Boukson Séré
Colaboração artística: Ivan Fatjo
Luz: Rémi Nicolas
Música: Tatsu Aoki & Malachi Favors Maghostut, Peter Brötzmann & Han Bennink, Eureka Brass Band, Jigsaw, Lucas Niggli e Peter Vogel
Régie geral:Sylvain Blocquaux
Régie som: Shoï
Produção e comunicação: Bureau Platô, Séverine Péan e Emilia Petrakis

38º Festival de Almada. Teatro Municipal Joaquim Benite, Almada. 10 de julho de 2021.

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