Crítica

Molly Bloom

Imaxe de Maarten Vanden Abeele

E sim eu disse sim eu quero Yes

A revolução feminista ajudou-nos a ver que o privado, e até o íntimo e doméstico, é político. O privado é público. Isto é muito fácil de dizer, mas muito difícil de assumir ou praticar. As normas não escritas do “politicamente correto”, do decoro (que me remete ao burguês) e da discrição, implicam assegurar essa dualidade entre o privado e o público.

Um dos feitos da revolução feminista foi tirar a mulher do âmbito restrito do doméstico e fazer com que ocupasse lugares públicos, na ciência, na política, nos âmbitos académicos e do trabalho. Até nas artes, as mulheres ocupavam um lugar secundário, pensemos, por exemplo, na história do teatro e no escasso rol de encenadoras, no que diz respeito ao cânone de encenadores que marcaram tendência. Um facto está relacionado com o outro.

Neste sentido, a personagem de Molly Bloom, no último capítulo do Ulisses (1922) de James Joyce, intitulado “Penélope”, acomete uma transgressão. Depois de muitas páginas protagonizadas por Leopold Bloom e Stephan Dedalus, afinal é a Molly quem fecha a obra com o seu monólogo interior. A sua voz vai fazer com que os pensamentos mais escondidos fluam e se rebelem.

No 38 Festival de Almada tivemos o grande prazer de desfrutar com Molly Bloom, na encenação da Viviane De Muynck e o Jan Lauwers, da Needcompany.

A atriz belga, de 75 anos, oferece-nos um estar em palco habitado pela longa experiência. Isto traduz-se numa presença muito magnética e cativante. A economia de meios expressivos redunda numa maior intensidade, sem sublinhados.

A Viviane apenas utiliza uma mesa, três cadeiras, uma almofada, uma cigarreira, um isqueiro e um charuto, que não acaba de acender, embora, num momento, o tenha entre os dedos e o leve aos lábios.

A mesa, sonorizada com a aplicação de microfones ocultos, amplifica o som quando a atriz está do outro lado, e também quando tamborila nela com os dedos ou quando dá um murro em cima dela.

Não lembro que a luz mude durante os oitenta minutos do monólogo. É uma luz cálida e intensa sobre o palco e um pouco mais ténue sobre as bancadas do público.

Palco e plateia iluminados para uma experiência entre a Viviane e nós. Um encontro no qual nós parecemos amizades da Molly da Viviane, prestes para acompanhar as suas revelações, que não são nem grandiloquentes nem magníficas. Olhos nos olhos, sem zonas de fingimento nem ocultação.

A atriz entra no palco e dirige-se a nós para cumprimentar e para contar-nos o que vai fazer. “Em oito longas frases sem pontuação, Molly reflete sobre a sua vida e os seus desejos”, ante a complexidade dessas frases, que passam de uma associação a outra, na sucessão de pensamentos muito rápidos. De Muynck e Lauwers, tal qual ela nos explica ao começo, optaram por concentrar-se sobre as observações de Molly no que diz respeito aos homens da sua vida. “Pelo meu próprio bem e também pelo vosso, demos uma direção a esses homens. O primeiro é Leopold Bloom, o seu marido, carácter principal de Ulisses, e eu situei-o à vossa esquerda [aponta para a cadeira desse lado]. Outro é Hugh Blazes Boylan, um homem com quem ela teve sexo nessa mesma manhã, que situarei à vossa direita [aponta para a cadeira desse lado]. Um terceiro homem, muito importante, é o seu primeiro amor, Harry Mulvey, que pertence ao passado e às suas recordações, ele estará algures por aqui [aponta com uma mão para a parte de atrás da cabeça]. E, finalmente, está o Stephan Dedalus, que pertence ao futuro e quem, de facto, representa o profundo desejo de reencontrar uma inocência perdida no passado. E tudo o que diz respeito ao futuro será à frente. O contexto é: Leopold Bloom chegou a casa de noite muito tarde e muito bêbado. Ele está a dormir na cama. Molly não pode dormir e partilha os seus pensamentos connosco…”

Depois desta introdução, sem nenhuma mudança ostensível, a atriz começa a contar-nos os seus pensamentos, os da Molly, mas como se fossem os seus, os da Viviane. Ela fala para nós. Às vezes dirige-se, com uma leve inflexão do tom da voz a algum destes homens ou reproduz alguma coisa do que eles disseram, apenas com um tom um pouco mais grave na voz. É tudo. Movimenta-se à vontade. Fala de pé, sentada detrás da mesa, apoiada nalguma das cadeiras da esquerda ou da direita, onde se situam esses homens referidos pelo discurso, sentada ou deitada em cima da mesa, utilizando a almofada para estar mais confortável, tira os sapatos, observa os seus pés, acaricia os seus seios e até brinca com os mamilos, tira a cigarreira do bolso do casaco e pega num cigarro que não acaba de acender…

Faz poucas atividades, a principal é contar-nos os seus pensamentos, muitas vezes ligados a momentos com esses homens. A relação íntima com eles e com o contexto, os lugares, os objetos, a climatologia etc., está cheia de sensorialidade, de carnalidade.

O jeito de olhar para nós enquanto nos fala, as leves inflexões da voz e do gesto, são de muita cumplicidade. As emoções são subtis, sem utilizar marcas expressivas denotativas. Para mim foi especialmente fascinante quando nos olhava com uma sorte de malícia e humor ao falar de sexo, com uma naturalidade espantosa. As suas confidências sexuais nunca ficam nem no perverso nem no pornográfico, embora as descrições sejam aprimoradas em detalhes. É a sua atitude experiente e o processo de assunção desses desejos e vivências o que as transforma numa riqueza, que nos descobre a complexidade do íntimo.

Na folha de sala reproduz-se uma entrevista à Viviane De Muynck, realizada por Kasia Tórz em Antuérpia a 9 de julho de 2020. Nela a atriz diz: “Nunca começo por procurar uma personagem. Procuro pensamentos que constituam uma pessoa.”

E sim, com certeza, a Viviane é uma atriz tão maravilhosa que não necessita nenhuma personagem para que a Molly Bloom seja uma pessoa com quem partilhar a sua liberdade. Ela fala-nos diretamente, tal como, às vezes, se dirige aos homens que foram amantes.

Falar de sexo, de sensações, de pequenas coisas da vida, e abrir o pensamento em libertação, constitui um exercício de conversa descontraída. Tudo com luz, nas bancadas e no palco, numa proposta cénica essencial, focada sobre a atriz a despir-se através das palavras da Molly Bloom.

O “E sim eu disse sim eu quero Yes”, acho que não é só a recordação controversa e emocionada do “sim, eu quero” de um casal, mas um sim a aceitar quem somos e o que nos acontece e nos passa a cada momento, porque nem tudo se resume a um plano ou a uma previsão.

Na entrevista aludida, que aparece na folha de sala, Viviane confessa: “As duas coisas mais difíceis para mim na vida são: amarmo-nos e perdoarmo-nos a nós próprios. Aceitar quem somos.” Eis a base. Eis também a demonstração de que o privado, e o aparentemente pequeno, tem repercussões enormes no público.

Ficha artística

Molly Bloom de Viviane De Muynck e Jan Lauwers. Needcompany

Criação e adaptação: Viviane De Muynck e Jan Lauwers
Dramaturgia: Elke Janssens
Assistência e coordenação dramatúrgica: Melissa Thomas
Figurinos: Lot Lemm
Desenho de luz: Ken Hioco – Jan Lauwers
Diretor técnico: Ken Hioco
Produção: Marjolein Demey

38 Festival de Almada. Incrível Almadense. Salão de Festas (Almada), 20 de julho de 2021.

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