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Hotel Paraíso

O engraçado e o desgraçado das ficções

'Hotel Paraíso' de SillySeason, no Teatro Diogo Bernardes de Ponte de Lima. Foto de Vítor Ferreira.

Há duas ideias contrapostas que podem resumir o estado em que se acham muitas pessoas jovens e de meia-idade na Europa. Para não generalizar demasiado, isso é o que se passa, no mínimo, com quem mora na Península Ibérica. Por um lado, a ideia de que somos privilegiados porque, supostamente, temos as necessidades básicas cobertas. Mas, por outro, a constatação de que uma grande parte vive na precariedade e não tem trabalho, ou, se o tem, é explorada e/ou faz um trabalho de que não gosta.

Aliás, os nossos territórios, as nossas cidades, por obra e graça da gentrificação e do turismo, estão a tornar-se numa espécie de parques temáticos. Desta maneira, o conceito “casa” parece que muda para o de “hotel” e, com certeza, o nosso ar, nesse contexto de parque temático, tem de ser alegre, divertido, atraente.

No dia 11 de novembro de 2022 fui à bela Ponte de Lima para ver, no palco do Teatro Diogo Bernardes, os SillySeason, com a sua última produção: Hotel Paraíso.

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Embora na capa da “Agenda”, que publica em papel o Município de Ponte de Lima, apareça uma foto de um delicioso prato de comida, para fazer honra da culinária da cidade como uma das suas mais-valias, para mim foi a programação artística do Diogo Bernardes que fez com que pegasse no carro, desde Vigo até esta vila portuguesa. Eis a demonstração de que nem sempre as capas dos folhetos e as campanhas publicitárias acertam com todas as pessoas.

Hotel Paraíso pode ser também considerado uma ironia, no que diz respeito a essa vida turística e de hotel em que parece que queremos transformar a nossa existência.

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Os SillySeason têm a arte de oferecer-nos em comédia amarga a tragédia, o fatum, da burguesia aparente destes anos vinte: a frustração que gera esse contínuo e exacerbado exercício de ficção que fazemos para nos salvar, embora afinal nos condene. Uma ficção-frivolização que torna em paraíso um mundo de violência, concorrência e precariedades várias.

A estética é muito atraente e colorista. Dão conta dela personagens, muito próximas do elenco que os interpreta, jovens, irrequietos, artistas, a debater-se na construção/desconstrução da imagem que oferecem de si próprios.

Na atual sociedade do “social media” e das relações digitais, a imagem e os relatos breves constroem-nos como seres instáveis e igualmente breves. A imagem, como qualquer outra ficção, afeta-nos. Se calhar, por isso, nas situações teatrais (espetaculares e fora do comum) sempre, e nas dramáticas (de conflito interno) nalgumas ocasiões, observamos as personagens como sendo vítimas da sua própria imagem.

Aliás, lá está, quase como o rei do palco, o ecrã, acompanhado pela câmara de vídeo a duplicar em delírio a imagem, a manipular o foco ou a fazer de espelho que, por vezes, até poderia ser a lagoa em que Narciso se reflete e afoga.

Uma estética que, do mesmo modo, acolhe o desvio do queer, como um caminho que também não vai garantir a exceção nem a salvação. Porque cá não é o amor que está no ar, mas é a crise, fantasiada de ouropéis e gesticulações festivas.

Mas uma sociedade que se constrói e desconstrói como ficção, também é uma sociedade que se questiona e que pensa. Por isso, este Hotel Paraíso oferece-nos momentos de reflexão refulgente.

Sem dúvida, uma peça que produz um riso amargo e que nos faz pensar. Uma provocação que, por vezes, além da ironia e da comicidade de algumas poses, até parece permitir-se o cinismo. Isto acontece, nomeadamente, quando brincam com aquilo que ampara a nossa estabilidade, como podem ser as relações pessoais.

Afinal, o paraíso o que é que é? Um hotel?

Esta é a terceira peça que pude ver dos SillySeason e já nas duas anteriores se podia observar uma coesão estética e temática.

Em 23 de outubro do ano 2020, no Teatro Carlos Alberto do TNSJ, do Porto, foi quando descobri os SillySeason, que estrearam lá a sua última proposta cénica: Folle Époque.

Gostei do espaço cénico, uma espécie de discoteca sob videovigilância, com muitos espelhos nos quais se refletiam não só as imagens da festa, mas também as sombras que cada pessoa traz consigo e, sobretudo, as sombras de um sistema de organização no qual o dinheiro e o comercio são a medida de quase tudo.

Gostei da frescura que emanava do elenco, e dessa ideia dramatúrgica de estabelecer um paralelismo entre os anos 20 e a crise posterior, no século XX, com estes anos 20 do século XXI. A viagem do “crush” ao “crash”.

Porém, achei que o texto, naquelas cenas conversacionais, em muitas ocasiões, era um pouco sofisticado de mais. Ações verbais próximas à sentença ou à máxima, com uma complexidade nas suas formulações que se tornava difícil de perceber no decurso temporal. Além disso, aquelas intervenções verbais delatavam a sua origem escrita, embora as atrizes e atores tentassem produzir o discurso como se fosse espontâneo, facto que gerava uma espécie de artificialidade e distância que, se calhar, não se correspondia com o jogo descontraído que nos mostravam.

Naquela dramaturgia de estética pós-dramática, na qual a festa, a dança, o canto e a própria presença das atrizes e atores pareciam afirmar a realidade cénica do jogo teatral, também não percebi a inserção de pequenas cenas dramáticas, com um nível de ficção notório. Por exemplo, aquela na qual uma das atrizes ameaçava com uma pistola falsa um dos atores. Depois de brincar, passavam à cena da ameaça de morte interpretando-a com realismo, sem ironia. No entanto, sem um contexto dramático, eu não era capaz de entrar nessa convenção. As transições entre os momentos de frivolidade e os momentos de gravidade, por vezes, não funcionavam.

Entre os melhores momentos, os dois temas musicais cantados por Sara Ribeiro e as suas magnéticas intervenções. A Sara Ribeiro é uma atriz portentosa, um fenómeno da natureza! Eu já a conhecia dos seus impressionantes trabalhos com o João Garcia Miguel. Aliás, em Folle Époque, a Cátia Tomé, o Ivo Saraiva e Silva, o Ricardo Teixeira, o Rodolfo Major e a Teresa Coutinho, além da Sara Ribeiro, eram uma equipa muito dedicada e com umas presenças muito apelativas.

No ano seguinte, no dia 2 de setembro de 2021, pude ver Fora de Campo no Theatro Circo de Braga.

Neste caso, a dramaturgia justificava esse estilo interpretativo tão marcante, que realçava o drama, ao estarem, as atrizes e os atores, capturados pelo que demandava o guião para a série televisiva “Fora de Campo”. Para que a série tivesse muitas temporadas, as atrizes e atores teriam de gerar drama e empatia, caso contrário, seriam expulsos para fora do “Fora de Campo”.

A corrida final, de costas para o público, a atingir a parte de trás da cenografia dos “sets” de filmagem, era a apoteose dos dramas representados diante das câmaras. Essa corrida final era o “pós-dramas”, onde a fisicalidade do correr e a presença do fôlego real das atrizes e atores acabava por traçar e avivar a emoção de todos os temas tratados. Naquela corrida final, vista no ecrã, nós, o público, resultávamos ser os perseguidores. Se calhar, o cativeiro dramático a que devem submeter-se as atrizes e atores das séries de televisão é uma boa metáfora das exigências que, noutras relações pessoais, nos impomos, como se houvesse um guião predeterminado.

Assim sendo, o exame destas três peças, do meu ponto de vista, delata uma linha estética e temática bastante coesa. A perspetiva da geração jovem portuguesa que já acabou o período de formação e estudos e está em época laboral e de produção. Uma estética colorista de teor queer, em que homens e mulheres vestem de maneira feminina e nas relações afetivas não há uma olhada “heteropatriarcal”.

Aliás, esse foco em como as pessoas são criadoras da sua imagem, se calhar, sem a consciência e o conhecimento necessários, ou sem acabarem de assumir a responsabilidade para não serem vítimas dessa criação. Um ato que leva à pose, ao jogo das aparências e a um viver hipotecado, e que deriva da grande influência que têm as ficções televisivas, digitais, literárias etc.

E por cima de tudo isto, ou talvez por baixo, as contínuas tentativas de brilhar, de estar bons, de ser felizes, mas com uma espécie de estigma trágico a impedi-lo.

Vamos esperar, então, pelo Rei Édipo que SillySeason nos vai trazer para 2023. Será que, entrando diretamente na tragédia, vamos poder desvendar um novo aspeto desse estigma que vem de longe?

 

(Agradecimentos ao professor Miguel Cupeiro (EOI de Vigo) pelo apoio linguístico para este artigo)

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Hotel Paraíso de SillySeason

Conceção e direção: SillySeason (Cátia Tomé, Ivo Saraiva e Silva, Ricardo Teixeira)

Interpretação: Ana Moreira, Cátia Tomé, Ivo Saraiva e Silva, Paula Erra, Rafael Carvalho, Ricardo Teixeira e Vítor Silva Costa

Vídeo: João Cristóvão Leitão

Música: Ricardo Remédio

Vídeo final: Miguel Leitão

Apoio ao movimento: Rodrigo Teixeira

Iluminação: Paulo Santos

Operação de luz: Ema Brito

Figurinos: Inês Ariana

Produção: Inês Pinto

Teatro Diogo Bernardes. Ponte de Lima, 11 de novembro de 2022.

Afonso Becerra

Afonso Becerra

Director da erregueté | Revista Galega de Teatro. Pertence ao seu Consello de Redacción desde o 2006. Doutor en Artes Escénicas pola Universitat Autònoma de Barcelona. Titulado Superior en Dirección escénica e dramaturxia polo Institut del Teatre de Barcelona. Titulado en Interpretación polo ITAE de Asturies. Dramaturgo e director de escena. Exerce a docencia en dramaturxia e escrita dramática na ESAD de Galiza desde o ano 2005. É colaborador, entre outras publicacións, de revistas de cultura e artes performativas como 'ARTEZBLAI', 'Primer Acto', 'Danza en escena', 'Tempos Novos', 'Grial'. Entre setembro de 2019 e xuño de 2021 foi colaborador especialista en artes escénicas da CRTVG, no programa 'ZIGZAG' da TVG. Desde setembro de 2022 é colaborador semanal sobre artes escénicas do 'DIARIO CULTURAL' da RADIO GALEGA.
Premio Álvaro Cunqueiro da Xunta de Galicia en 2001. Premio María Casares á Mellor Adaptación teatral en 2016. Premio de Honra do Festival de Teatro Galego, FETEGA, do Carballiño (Ourense) en 2020. Mención Honrosa no Premio Internacional de Xornalismo Carlos Porto 2019 do Festival de Almada (Portugal, 2020).

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