Sentamo-nos na imensa bancada do Palco Grande da Escola D. António da Costa e vemos o cenário, que reproduz mimeticamente um apartamento com vistas para a paisagem urbana de Lisboa. O teto é transparente, como se fosse de vidro. Trata-se de um apartamento com um só espaço, em que está a cozinha e a sala, que se transforma em quarto para dormir adaptando-se o sofá central. Na margem direita do espectador, na extra-cena, estaria a casa de banho, não visível, e na margem esquerda a porta de entrada. No fundo não há parede, mas enormes janelas que deixam ver a paisagem citadina.
Este espaço já nos está a dar a convenção ou o pacto de jogo: vamos assistir a uma peça dramática realista, em que as personagens vão enfrentar uns conflitos interpessoais, baseados no amor entre o protagonista e a antagonista e a diferença, no que diz respeito às suas ideologias e valores, também no que diz respeito à diferença geracional. Ele deve andar por volta dos sessenta anos. Ela deve andar por volta dos trinta anos. E ainda comparece também o filho dele, que tem dezoito anos, e que, por causa dos antecedentes (a relação passada entre as personagens), é como se também fosse o filho dela.
Assim sendo, estamos perante um espetáculo que joga, na encenação, com as convenções mais tradicionais e até comerciais do teatro dramático realista, muito próximas da imagem e dos jeitos da realização das novelas televisivas. Nisto não há surpresa, inovação nem riscos artísticos, só simples repetição de uma fórmula de encenar que funciona bem, quando a obra é boa, como acontece neste caso com o texto do prestigioso dramaturgo David Hare, e quando os atores são excelentes, como também é o caso com um brilhantíssimo elenco, formado por Benedita Pereira, Diogo Infante e Tomás Taborda.
O espetáculo corre muito bem. As interpretações concentram a nossa atenção nas dificuldades e conflitos entre a dupla protagonista. A convicção e a verosimilhança da interpretação são máximas, até o ponto de que esquecemos que estamos a ver teatro, e entramos diretamente a experimentar, de uma maneira muito equilibrada entre pensamento e emoção, as questões que esta peça coloca em foco.
Não parece possível que haja uma feliz e fluida relação amorosa, quando não há entendimento no que diz respeito à reconstrução do passado, nem a um horizonte de valores éticos. A lembrança do apaixonamento entre ela e ele, casado e com um filho, quando ela também se dava com a mulher dele, falecida um ano antes, não é a mesma. Ele pretendia que quando a sua mulher descobriu a infidelidade tinha oportunidade para reforçar a relação, até então oculta. Ela, porém, também era amiga da mulher dele e a condição para estarem juntos consistia em que esta não descobrisse o relacionamento extramatrimonial. Isto pode jogar-se tal o conflito das múltiplas caras de um poliedro emocional irresolúvel. Por outro lado, no referente ao horizonte de valores éticos, temos um empresário de sucesso, como uma ideologia neoliberal, capitalista e arrivista, que só se preocupa com o seu bem-estar e os seus negócios. E uma professora jovem que escolhe trabalhar na margem esquerda do Tejo com a população mais marginalizada. Eis a adaptação do texto à realidade sociopolítica portuguesa e de Lisboa.
Em conclusão, ela não prescinde dos princípios e ele também não muda, embora o final da peça seja aberto.
Em consequência, um espetáculo, tipo novela televisiva, com magníficas interpretações e um texto que dá para pensar.
(Os meus agradecimentos para Maria José Albarran Alves de Carvalho pela revisão linguística deste artigo.)
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