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O corpo a vontade e o ser

'La Voluntad de un Cuerpo' da ITZ-Intranzyt Cia. Foto: Vítor Ferreira
'La Voluntad de un Cuerpo' da ITZ-Intranzyt Cia. Foto: Vítor Ferreira

O sábado 15 de novembro foi um dia ideal para fugir de Vigo, sobretudo para quem mora no centro da cidade, transformada num parque temático-turístico do Natal mais estereotipado e populista. Assim sendo, escapei para a bela Ponte de Lima e o seu Teatro Diogo Bernardes, que fez a coprodução de La Voluntad de un Cuerpo com a ITZ-Intranzyt Cia. A segunda parte de um tríptico sobre o Corpo, a Vontade e o Ser coreografada pela cubana Maura Morales, em íntima relação com a música original de Michio Woirdgardt. Uma peça interpretada por um elenco muito jovem, capaz de incutir toda a coragem e a potência requeridas por uma coreografia muito coral, de carácter forte, e de alta impetuosidade e exigência física.

Com predomínio de sequências em uníssono, articuladas em composições muito plásticas visualmente, as cinco bailarinas e os dois bailarinos, com figurinos de um azul elétrico, pareciam cavalos ou guerreiras numa luta que semelha a chave entre o corpo, a vontade e o ser. O ser como construção quase bélica. Os movimentos acrobáticos, as combinações grupais de equilíbrios dificílimos, e as procissões em que pareciam marionetas ou autómatos, conjugavam-se, ora com o frémito musical, ora com a sua ciclogénese explosiva, alternando com breves transições de calma aparente, propiciadas pela palavra reflexiva.

Um espectáculo para o assombro, por causa da complexa substanciação do querer que define à vontade nos corpos, e neste caso, através da dança, a vontade dos corpos.

Sem vontade não há o Ser, como identidade (construção, relato, história, biografia), mas a vontade coloca o corpo no lugar do conflito, da luta e da confrontação. Se calhar porque só queremos aquilo que não temos ou aquilo que temos, mas tememos perde-lo, ou andamos à procura de acrescenta-lo.

O querer, a vontade, igual ao conflito, são as bases do drama, do teatro dramático. A coisa é mais ou menos assim: na vida e no seu espelho artístico do drama não há querer sem temer. Quando queremos algo que nos importa muito, então tememos não o conseguir ou perde-lo. Curiosamente, tal qual nos faz ver e sentir Maura Morales em La Voluntad de un Cuerpo, isso implica pôr o corpo em ação e em interação sem poupar energia, embora seja importante dosifica-la na medida dos objetivos que se pretendem atingir. A sensação dessa batalha da vontade, por via do corpo na arte da dança, pode ser a de uma ação fantástica e desbordante. De facto, a peça da Maura Morales quase parece de ficção científica. Porém, igual à vida, o seu sucesso depende sempre do controlo e da precisão.

Da ITZ – Intranzyt Cia, sediada em Vilanova de Famalicão, com direção artística de Cristina Pereira e Vasco Macide, acho que este é o segundo espectáculo que vejo. Anteriormente, em 29 de abril de 2023, também no Teatro Diogo Bernardes, vi Falling in a Super Jump. Um tríptico composto por: Falling in Horizontal de Ayano Tatekawa, uma exploração de movimento muito elegante sobre a confiança necessária para sair da solidão e relacionar-nos; Supernova de Miguel Esteves, uma fantasia em atmosfera quase de ficção científica, com uma sensualidade ultraterrena; e Jump Up and Get Down de Cristina Pereira e Vasco Macide, a jogar com o contraste revitalizante entre House of Pain e A morte e a donzela de Franz Schubert, com música ao vivo do quarteto de cordas A Piacere.

Afonso Becerra
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Afonso Becerra

Afonso Becerra

Director da erregueté | Revista Galega de Teatro. Pertence ao seu Consello de Redacción desde o 2006. Doutor en Artes Escénicas pola Universitat Autònoma de Barcelona. Titulado Superior en Dirección escénica e dramaturxia polo Institut del Teatre de Barcelona. Titulado en Interpretación polo ITAE de Asturies. Dramaturgo e director de escena. Exerce a docencia en dramaturxia e escrita dramática na ESAD de Galiza desde o ano 2005. É colaborador, entre outras publicacións, de revistas de cultura e artes performativas como 'ARTEZBLAI', 'Primer Acto', 'Danza en escena', 'Tempos Novos', 'Grial'. Entre setembro de 2019 e xuño de 2021 foi colaborador especialista en artes escénicas da CRTVG, no programa 'ZIGZAG' da TVG. Desde setembro de 2022 é colaborador semanal sobre artes escénicas do 'DIARIO CULTURAL' da RADIO GALEGA.
Premio Álvaro Cunqueiro da Xunta de Galicia en 2001. Premio María Casares á Mellor Adaptación teatral en 2016. Premio de Honra do Festival de Teatro Galego, FETEGA, do Carballiño (Ourense) en 2020. Premio Internacional de Xornalismo Carlos Porto 2024, de prensa especializada, do Festival de Almada, organizado pola Câmara Municipal de Almada, do que tamén recibira unha Mención Honrosa en 2020.

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