Há algumas estatísticas que estão a assinalar problemas de violência nas aulas, e também nas famílias, por parte de pessoas jovens. Não sabemos se estamos perante uma crise do sistema de valores com os quais se edificaram as democracias ocidentais. Também não sabemos se as estatísticas que anunciam uma alta percentagem de jovens a simpatizar com as ultradireitas e com ideários machistas e fascistas derivam de um desconhecimento da história, ou de uma postura de oposição ao sistema e às instituições porque estão “chateados”. Em qualquer caso, está-se a produzir uma excisão e uma polarização, tal qual potenciam os algoritmos digitais nas redes sociais etc.: estás a favor ou estás contra.
Porém, o conflito não é novo. Já nos 70s Nigel Williams escrevia uma peça, Class Enemy, dando voz a jovens situados nas margens, para os quais a escola não trazia a ajuda do conhecimento que os pudesse libertar do contexto adverso em que se encontravam. Nem todas as famílias, nem todos os bairros ou aldeias, nem todas as circunstâncias são contextos adequados para acompanhar um processo de crescimento ótimo. As sociedades democráticas não acabam de garantir a possibilidade de um futuro melhor para crianças que não se encontram em situações favoráveis. Que papel joga ou deveria jogar aqui o sistema público educacional?
O Teatro Nacional São João, pegou em Class Enemy de Nigel Williams, na encenação de Manuel Tur, para nos colocar perante estas questões.
Foi um elenco excecional na interpretação de seis adolescentes descartados do sistema educacional. Bernardo Gavina, Daniel Silva, Gonçalo Botelho, Lisa Reis, Tiago Araújo e Sérgio Sá Cunha, interpretam com uma verossimilhança e um realismo extraordinários essa turma, que certifica uma fenda insondável. Fazem-no com uma enorme solidez pela fisicalidade, as atitudes, as condutas e a caracterização psicológica das personagens. Mas do que violentos, estão raivosos, porque as circunstâncias todas parecem estar contra eles. O sistema educacional não responde às suas necessidades de saber e de compreensão, porém, dedica-se a classifica-los.
A encenação assume o desafio e o risco de não cair em estereótipos julgadores, nem em preconceitos, mas na possibilidade de compreender. Não constrói um espectáculo de instituto num processo de aprendizagem, mas uma espécie de À espera de Godot.
Aqueles adolescentes estão fechados numa sala de aula, da qual fizeram território, como se fosse o seu castelo e proteção, se calhar, a última esperança. Voltar para a casa ou ir para a rua ainda seria pior, porque implicaria a solidão num ambiente não menos adverso. Então, aí estão, amotinados na sala de aula, entrincheirados como numa guerra, à espera de um novo professor que, de verdade, tenha vontade de trazer-lhes o conhecimento que procuram.
Por enquanto, numa dinâmica de necessidade e de rejeição, estão juntos, brincam, interpelam-se, ameaçam-se, atacam, defendem, tentam relatarem-se e, sem quere-lo, descobrem-se quando brincam, a fazer o simulacro de dar uma aula cada um deles. Seis aulas que revelam tanto pelo que sabem do tema escolhido: o sexo, a jardinagem, a cozinha, o racismo exercido, o racismo sofrido, a autodefesa, quanto pelo que não são capazes de articular. Os palavrões, o calão, as ameaças, o discurso interrupto abruptamente, delatam muitos limites que eles desejam transcender. Porém, parece que não há nenhum Godot neste drama social, em forma de docente, realmente envolvido, que acuda na sua ajuda, para perceber e escutar quem são realmente os discentes. Parece que estão sozinhos no mundo, isolados nessa sala de aula que foram desconstruindo e transformando num fiel reflexo do seu incomodo face à ordem estabelecida.
O espectáculo, dirigido pelo jovem encenador Manuel Tur, mantem-nos em tensão durante as quase duas horas. Gere com muita habilidade os ritmos dramáticos, em que os clímax são constituídos pelos momentos mais violentos, de luta física direta, em contraste com momentos em que a amizade, e mesmo a ternura, surgem dos terrenos mais lamacentos e desesperados. A direção de atores e a interpretação do elenco é excelente, até ao ponto do que ouvi a um espectador comentar, no final, que não deviam de ser atores, que deviam ser rapazes que tiveram essa experiência. Até esse extremo resultam verosímeis e críveis as personagens.
Saímos de Class Enemy com o coração um bocado encolhido. E acho que percebemos o desafio.
(Os meus agradecimentos para Maria José Albarran Alves de Carvalho pela revisão linguística deste artigo.)
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