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Movimento não ego centrado e libertador

‘Mycelium’ de Christos Papadopoulos & Ballet de l’Opéra de Lyon

Foto: Hisae Aihara
Foto: Hisae Aihara

Pergunto-me se olhar para a natureza pode ser importante para nós? Já não por causa de aprender qualquer coisa concreta e diretamente útil, mas por abrir a nossa perceção, e relaxar as nossas inquietações pessoais, políticas, económicas etc. Olhar, por exemplo, o movimento das folhas de uma árvore mexidas pelo vento, ou o vaivém das ondas do mar, ou os círculos concêntricos dos pingos numa poça…. Ficar presos desse baloiçar rítmico da matéria, que nos pode libertar, por uns momentos, do ser tão humanos, ou mesmo tão desumanos. Observar e experimentar como o movimento obsessivo de elementos da natureza, além de nós, podem fulminar as nossas próprias obsessões.

Porém, às vezes, não é fácil olhar além de nós para outros elementos com os quais partilhamos o ecossistema que nos sustem, porque, tal qual explicava Aristóteles na sua Retórica, a empatia só se ativa por semelhança. As pessoas olham para as pessoas e tendem a estabelecer cumplicidade com as pessoas, não com as folhas das árvores, nem com as ondas do mar, nem com as pedras dos caminhos. Assim sendo, é fantástico quando são outras pessoas, os artistas, quem, de repente, evoca ou invoca esses outros “seres” animados ou inanimados da natureza, que partilham connosco o ecossistema em que vivemos. As bailarinas e os bailarinos têm a ductilidade, a plasticidade e a musicalidade necessárias para incorporar e encarnar essoutros “seres” não humanos, de tal maneira que nos facilitam a identificação com eles. Através doutras pessoas, seres semelhantes a nós que, portanto, atraem a nossa atenção, e através da sua arte, neste caso a dança, podemos identificar-nos ou, se calhar, fixar-nos e sentir-nos seduzidos por essoutros “seres” não humanos. Desta maneira é-nos permitido expandir a nossa perceção e libertar-nos das nossas obsessões. Um exercício, sem dúvida, muito importante para relativizar a nossa importância no Planeta.

Tudo isto e muito mais do que isto, foi o que achei em Mycelium do coreógrafo grego Christos Papadopoulos, junto do Ballet de L’Opéra de Lyon, que esteve programado com duas das suas criações no Teatro Municipal do Porto, a outra foi My Fierce Ignorant Step, com a sua própria companhia de dança. Anteriormente, eu tinha visto dele Opus, 12 de outubro de 2019 no Centro Cultural Vila Flor de Guimarães, e Elvedon na 37ª Mostra Internacional de Teatro de Ribadavia (Ourense), 23 de julho de 2021. Então, se não erro nos cálculos, Mycelium é a terceira proposta que vejo de Christos Papadopoulos e a primeira realizada com um “ensemble” que não é a sua própria companhia de dança.

Mantendo a coesão estética e poética das outras produções, Mycelium é uma peça hipnótica, por obra e graça da repetição de motivos cinéticos, a despregar uma energia centrífuga que nos mantem numa vigília onírica e alucinada.

Foi incrível a imersão produzida pela repetição desses motivos cinéticos, inspirados nos movimentos orgânicos e naturais de uma comunidade de fungos, multiplicada pelos vinte elementos que integram o elenco, até ao ponto em que a soma da energia do grupo e o seu olhar continuo para a frente, para o horizonte da plateia em que nos encontramos, faz com que desapareçam. Noutras palavras, o movimento dos corpos, intensificado pelas repetições e pela incidência da música e do jogo da luz, faz com que as pessoas, bailarinas e bailarinos, desapareçam confundidos numa espécie de membrana cinética, fantasiados em movimento puro. O antropomorfismo e a hegemonia do humano cedem o seu lugar à evolução demorada e intensa do movimento e à potência subtil e delicada do grupo. Desaparecem as individualidades, desaparecem os egos e o egocentrismo e, então, surge a representação não psicológica nem ideológica dos movimentos inescrutáveis do “mycelium”, organismos naturais articulados por volta de uma estrutura de fungos.

No palco pude observar como os contrastes entre as diversas sequências, derivadas umas das outras numa continuidade muito fluida, reforçavam o magnetismo e a coesão da peça. Por exemplo, o contraste entre a dispersão dos bailarinos, embora estivessem unidos pelo uníssono dos mesmos motivos cinéticos, face à concentração do grupo num círculo polimorfo muito apertado.

Nesse círculo, só podíamos ver os corpos das bailarinas e dos bailarinos dos lados, por quanto os corpos de quem estava a mexer-se no interior do círculo ficava invisível. Só, por vezes podíamos ver as suas cabeças e as suas caras e ombros, dependendo da posição, em continua evolução do grupo. Porém, o maravilhoso aqui, era que, embora não pudéssemos ver todos os corpos de todos os bailarinos, podíamos sentir a soma crescente da sua energia e das suas auras. De tal jeito que o grupo passava a possuir uma presença muito vibrante e amplificada, embora estivessem concentrados num agrupamento circular apertado.

Através da repetição dos movimentos pouco extensos de pés, ancas, ombros, braços e cabeça, quase sem que nos apercebêssemos, iam-se produzindo deslocamentos pelo espaço abstrato do palco. Um espaço que não remetia para nenhum referente externo concreto.

A coreografia compõe-se de movimentos pequenos, aparentemente simples, executados com uma incrível qualidade, que não são exibicionistas nem de uma dificuldade semelhante aos do bailado clássico ou aos acrobático-circenses que dão tanto nas vistas. Contrariamente, dir-se-ia que se tratava de movimentos fáceis, mas dificílimos na sua articulação rítmica, na sua estruturação temporal e na harmonização de grupo, assim como na resistência necessária para poder executa-los de maneira ininterrompida durante uma hora. Também, na capacidade para manter a suposta neutralidade dos rostos e os olhares fixos no horizonte e na qualidade física para que movimentos pequenos tenham um desenho cheio de precisão, exatidão e fluência.

Referente a isto, acho que podíamos sentir o extraordinário desse trabalho, somado ao extraordinário da paisagem cénica gerada pelo movimento grupal. Noutras palavras, vinte bailarinas/os unidos e diluídos numa paisagem cinética que evocava, do “mycelium” até às ondas do mar ou aos redemoinhos da areia e outros entes que nos passam despercebidos de tão obnubilados que andamos com as nossas guerras, com as nossas ideologias, com os nossos desejos e ambições, com as nossas pressas e urgências.

Mycelium de Papadopoulos tirou-nos de nós mesmos, e acho que nos fez muito bem, para nos encontrarmos no aqui e no agora expansivo e, ao mesmo tempo, concentrado destoutra respiração que forma parte do ser do Planeta. E acho que é bom conectar-nos com isso, embora só seja durante uma hora.

(Os meus agradecimentos para Maria José Albarran Alves de Carvalho pela revisão linguística deste artigo.)

Afonso Becerra

Afonso Becerra

Afonso Becerra

Director da erregueté | Revista Galega de Teatro. Pertence ao seu Consello de Redacción desde o 2006. Doutor en Artes Escénicas pola Universitat Autònoma de Barcelona. Titulado Superior en Dirección escénica e dramaturxia polo Institut del Teatre de Barcelona. Titulado en Interpretación polo ITAE de Asturies. Dramaturgo e director de escena. Exerce a docencia en dramaturxia e escrita dramática na ESAD de Galiza desde o ano 2005. É colaborador, entre outras publicacións, de revistas de cultura e artes performativas como 'ARTEZBLAI', 'Primer Acto', 'Danza en escena', 'Tempos Novos', 'Grial'. Entre setembro de 2019 e xuño de 2021 foi colaborador especialista en artes escénicas da CRTVG, no programa 'ZIGZAG' da TVG. Desde setembro de 2022 é colaborador semanal sobre artes escénicas do 'DIARIO CULTURAL' da RADIO GALEGA.
Premio Álvaro Cunqueiro da Xunta de Galicia en 2001. Premio María Casares á Mellor Adaptación teatral en 2016. Premio de Honra do Festival de Teatro Galego, FETEGA, do Carballiño (Ourense) en 2020. Premio Internacional de Xornalismo Carlos Porto 2024, de prensa especializada, do Festival de Almada, organizado pola Câmara Municipal de Almada, do que tamén recibira unha Mención Honrosa en 2020.

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