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Há Qualquer Coisa Prestes a Acontecer

O corpo coletivo a nu é uma revolução

Foto: José Caldeira.
Foto: José Caldeira.

A revolução, qualquer que seja, começa no corpo. Isso foi o que me fez sentir e pensar Há Qualquer Coisa Prestes a Acontecer da Cia. Nome Próprio/Victor Hugo Pontes, vista no Teatro Nacional São João do Porto, a 2 de março de 2025. A forma é o conteúdo, portanto as dezanove pessoas nuas a dançar em palco fazem com que os corpos tenham uma presença direta e deixem ver as alterações e as pulsões, enquanto podem recriar imagens e cenas míticas da história da arte, gravadas já no inconsciente coletivo. Por exemplo, os rituais relativos à alegoria da primavera, que são o substrato da Sagraçao da Primavera da coreógrafa alemã Pina Bausch, ou a luta pela liberdade, alegorizada em A Liberdade Guiando o Povo do pintor francês Eugène Delacroix.

Aliás, através da teatralidade que caracteriza as criações coreográficas de Victor Hugo Pontes, podemos ver aqui também, em Há Qualquer Coisa Prestes a Acontecer, uma viagem para a revolução que trouxe a liberdade. Essa aventura parte das relações de movimento mais articulado do duo inicial e dos corpos a arrastarem-se pelo chão, e chega até a libertação e a abertura internacional com “I want to break free” de Queen, cantado a coro por todo o elenco, depois de uma sequência de euforia coletiva em que cada pessoa faz aquilo que mais deseja, em expressão livre e pletórica. Pelo meio assistimos a um encadeamento de quadros/cenas em que a diversidade fisionómica dos membros do elenco conflui em grupos esculturais belíssimos, em acoplamentos e composições de uma criatividade transbordante. Uma sucessão de quadros em que podemos intuir ou adivinhar referências a outras obras de arte (cinema, bailado, pintura etc.), em associação livre também com as catorze hélices, que parecem flores penduradas no palco, que trazem novos ares. Hélice: linha curva traçada sobre um cilindro em revolução. Essa curva traçada sobre a reta da Ditadura fascista. E a primavera que floresceu a 25 de abril de 1974 em Portugal. Catorze hélices para mexer o ar fresco e deslumbrante da primavera/revolução. Catorze hélices para a democracia descolar.

Há Qualquer Coisa Prestes a Acontecer é um só corpo formado por muitos corpos que, na dança, parecem órgãos de um só. Uma comunidade que, na maravilha da dança, volta a trazer e a fazer a revolução, ao mesmo tempo que o íntimo dos corpos nus constitui o social e o universal.

A verdade, a transparência dos corpos nus e a verdade e transparência das relações olhos nos olhos, pele na pele, configuram o conceito principal que alicerça a liberdade. Não temos nada para esconder, estamos nus. A nossa vulnerabilidade é também a nossa força. O corpo é o primeiro país em que se pode sentir a opressão ou a liberdade.  É o lugar da resistência e o ponto de partida para qualquer transformação substantiva. Se escutarmos o corpo, ele, posto a nu, pede sempre liberdade, porque quer estar bom.

Porém, essa possibilidade em potência, que anuncia o verso de “Inquietação”, a canção de José Mário Branco: “Há sempre qualquer coisa que está pra acontecer”, não poderia dar-se sem a união do corpo coletivo, que protagoniza a peça de Victor Hugo Pontes, com toda a sua força cinética e simbólica, com essa sensualidade que sempre nos traz a primavera. Depois de ver o espetáculo até poderíamos achar que a dança é uma forma de inquietação que sempre tem consequências e que, portanto, vai além do objeto artístico decorativo ou para nos entreter de maneira inócua.

Depois de ver Há Qualquer Coisa Prestes a Acontecer dei por mim a pensar naquela frase luminosa, atribuída a Emma Goldman, “Se não puder dançar esta não é a minha revolução”.


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E ainda podemos acrescentar: se não me puder despir, em tudo o que isso tem de metafórico, então esta também não é a minha revolução.

Insistimos em vestir-nos. A lenda de Adão e Eva diz que morávamos nus e felizes no paraíso, mas fomos castigados com um sentimento de vergonha de nós próprios, e então tivemos de nos tapar. Necessitamos de nos agasalhar, mas fazemo-lo porque vai frio. O frio também pode ser uma poderosa metáfora das ditaduras.

Porém, no fundo, todos estamos nus, assim foi como nascemos, nus na nossa similaridade e diferença. A nudez pode ser a máxima expressão de confiança e de liberdade, circunstâncias sem as quais é difícil o bem-estar.

(Os meus agradecimentos para Maria José Albarran Alves de Carvalho pela revisão linguística deste artigo.)

Há Qualquer Coisa Prestes a Acontecer

Direção artística: Victor Hugo Pontes

Elenco: Abel Rojo, Alejandro Fuster, Ana de Oliveira e Silva, Ángela Díaz Quintela, Daniela Cruz, Dinis Duarte, Esmée Aude Capsie, Fabri Gómez, Guilherme Leal, Inês Fertuzinhos, Joana Couto, João Cardoso, José Jalane, Liliana Oliveira, Rémi Bourchany, Rita Alves, Tiago Barreiros, Tomás Fernandes, Valter Fernandes

Cenografia: F. Ribeiro

Direção técnica e desenho de luz: Wilma Moutinho

Música original: João Carlos Pinto

Música gravada: J.S. Bach, C. Debussy

Assistência de direção: Cátia Esteves

Consultoria artística: Madalena Alfaia

Direção de produção: Joana Ventura

Produção executiva: Mariana Lourenço

Produção: Nome Próprio

Coprodução: Centro Cultural de Belém, Centro de Arte de Ovar, Teatro Aveirense, Teatro Nacional São João

Teatro Nacional São João, 2 de março de 2025.

Afonso Becerra

Afonso Becerra

Director da erregueté | Revista Galega de Teatro. Pertence ao seu Consello de Redacción desde o 2006. Doutor en Artes Escénicas pola Universitat Autònoma de Barcelona. Titulado Superior en Dirección escénica e dramaturxia polo Institut del Teatre de Barcelona. Titulado en Interpretación polo ITAE de Asturies. Dramaturgo e director de escena. Exerce a docencia en dramaturxia e escrita dramática na ESAD de Galiza desde o ano 2005. É colaborador, entre outras publicacións, de revistas de cultura e artes performativas como 'ARTEZBLAI', 'Primer Acto', 'Danza en escena', 'Tempos Novos', 'Grial'. Entre setembro de 2019 e xuño de 2021 foi colaborador especialista en artes escénicas da CRTVG, no programa 'ZIGZAG' da TVG. Desde setembro de 2022 é colaborador semanal sobre artes escénicas do 'DIARIO CULTURAL' da RADIO GALEGA.
Premio Álvaro Cunqueiro da Xunta de Galicia en 2001. Premio María Casares á Mellor Adaptación teatral en 2016. Premio de Honra do Festival de Teatro Galego, FETEGA, do Carballiño (Ourense) en 2020. Premio Internacional de Xornalismo Carlos Porto 2024, de prensa especializada, do Festival de Almada, organizado pola Câmara Municipal de Almada, do que tamén recibira unha Mención Honrosa en 2020.

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