Actor e membro fundador do Teatro Extremo

Fernando Jorge Lopes: “Os problemas na cultura em Portugal não resultam do surto epidémico”

Fernando Jorge Lopes

Falamos con Fernando Jorge Lopes, actor, director artístico e membro fundador de Teatro Extremo. Esta compañía nacida na cidade de Almada en 1994 dirixe os seus espectáculos ás novas xeracións e á familia baixo as coordenadas dun humor crítico e reflexivo. Como compañía residente garante desde 2015 a programación do Teatro-Estúdio António Assunção.

O seu buque insignia é o Sementes – Mostra Internacional de Artes para o Pequeno Público, que dirixe o membro da compañía Rui Cerveira. A erregueté | Revista Galega de Teatro foi convidada ás últimas edicións  do festival e, desgraciadamente, a pandemia rachou esa fruición, no ano en que conmemoraban a 25 edición. Por este motivo queremos saber como afectou o COVID-19 no facer diario das diversas actividades que vén desenvolvendo a compañía neste último ano e tamén avaliar a resposta da administración portuguesa ás vellas esixencias que diferentes colectivos veñen demandando.

No ano 2019 e dentro da 24 edición de Sementes – Mostra Internacional de Artes para o Pequeno Público, falabades con ilusión dun proxecto ambicioso para conmemorar o 25 aniversario. Ese proxecto incluía a participación de compañías nacionais e internacionais que xa foran programadas nalgunha edición do festival. Por outra banda, o Sementes foi adiado do mes de maio a xullo. Que diferencias houbo con respecto ás anteriores edicións?

Sim, é um facto, mas que a situação pandémica veio alterar. A 25ª edição de Sementes – Mostra Internacional de Artes para o Pequeno Público, previamente agendada para maio e junho de 2020, teve de ser adiada para o último fim de semana de julho e primeiro de agosto, teve menos um fim de semana de programação, o que reduziu o número de espectáculos e companhias programadas. Conseguimos trazer três companhias que obedeceram a esse critério, de já terem estado no Sementes. Algumas das que tivemos de cancelar estão previstas para a 26ª edição do Sementes, que decorrerá de 21 de maio a 6 de junho de 2021.

Também tivemos menos parceiros do que nos anos anteriores, parceiros estes que recebem extensões da programação do festival, permitindo conjugar esforços e proporcionar mais apresentações dos espectáculos a cada uma das companhias participantes de cada edição. Em 2020, a 25ª edição do Sementes aconteceu em Almada, coração e sede do festival, na Moita e em Montemor-o-Novo.

“A 26ª edição do Sementes decorrerá de 21 de maio a 6 de junho de 2021”

Para assinalar os 25 anos de festival também estava previsto um livro que a situação atípica que vivíamos impediu a sua conclusão atempada, mas organizámos um encontro/conversa, Semear as Artes na Cidade, em que apresentámos o livro, o qual prevemos lançar em versão digital a 29 de maio de 2021, durante a 26ª edição do festival.

Se a programação foi mais reduzida, não deixou de apostar na qualidade artística dos espectáculos apresentados e de ter o seu carácter internacional, tendo apresentado de Espanha a companhia de Granada niMù Circo e outra de Itália, Trio Trioche.

Foi uma edição diferente de todas as outras, em que as regras de distanciamento e higiene, enfim, as regras para tentar ao máximo salvaguardar a saúde do público, artistas e staff, obrigaram a adaptações mas não afectaram o bom funcionamento dos espectáculos e respectiva fruição por parte do público. O público aderiu, todas as sessões estiveram esgotadas e o festival não deixou de ser a festa da cultura e da família a que estamos todos habituados.

Na edição de 2021, continuamos a festejar os 25 anos do Sementes, com a programação de outras companhias que por cá passaram ao longo destas 25 edições e que deixaram saudades. Já com os nossos habituais parceiros, para além da Câmara Municipal de Almada. Estaremos, pois, também no Seixal, em Sesimbra, Moita e Montemor-o-Novo. Serão 15 companhias de Portugal, Espanha (Arawake e Tanxarina), Itália, Bélgica, Brasil e Canadá.

Dia 29 de maio às 16h00 faremos o lançamento do livro dos 25 anos do Sementes, em formato digital, e tendo como ponto de partida este nosso trabalho de 26 anos aí refletido e a história do teatro em Almada, plasmada no livro de vários autores A Cidade do Teatro, do qual o Fondo Teatral Maria Casares tem um exemplar, iremos realizar uma conversa/debate sobre as perspectivas de futuro deste território que é Almada e que devido ao esforço e criatividade dos artistas almadenses e da edilidade da cidade, ficou conhecida como “A Cidade do Teatro”.

Entre outros proxectos do festival Sementes estaba prevista a estrea de Aiué, un espectáculo festivo a partir de contos e lendas en lingua portuguesa e coa participación de artistas do mundo lusófono que colaboraran nalgunha ocasión con Teatro Extremo ao longo da súa traxectoria.

Integrado nas comemorações do vigésimo quinto aniversário do Teatro Extremo que se extenderam pelo ano de 2019, o espectáculo Aiué realizou-se em setembro desse ano na Casa da Cerca – Centro de Arte Contemporânea, em Almada.

Aiué, palavra emprestada ao português crioulo que tanto pode significar ‘deveras?’, como ‘ora’, ‘enfim’ ou ‘é impossível’, foi usada para título da obra uma vez que a expressão classifica o nosso trabalho nestes anos de actividade, tantas vezes feito sobre o signo da incredulidade, de tão impossíveis que às vezes as tarefas, que nos propomos realizar.

Obra multidisciplinar que sublinhou a ligação do Teatro Extremo ao universo lusófono e à comunidade local, foi inspirado em contos e lendas de língua portuguesa e contou com a participação de artistas desse universo linguístico, mas que devido à escassez de financiamento, ficou, ainda assim, amputado de alguns criadores previstos, como foi o caso dos artistas da Galiza e de outros países irmãos. Essas dificuldades financeiras levaram a que optássemos por integrar criadores quase todos residentes em Portugal sem comprometer o objectivo e singularidade da proposta.

Ao comezo do primeiro confinamento fixestes unha serie de capítulos online sobre a familia Barata. Que supuxo para vós esa experiencia sen público presente?

O confinamento apanhou-nos a todos de surpresa e num primeiro instante a desorientação foi geral. Esta situação, para quem trabalha com um publico ao vivo, como nós, foi ainda mais complicada. Como chegar ao público uma vez que estávamos impossibilitados de abrir o teatro?

Aí lançámos mão de várias ideias e organizámo-nos para o trabalho on-line lançando em várias plataformas digitais não só espectáculos anteriores do Teatro Extremo, mas também outras novas criações como contos para crianças em áudio e vídeo e esses episódios da Família Barata em estado de emergência. Essa sui generis família (que fez parte de um anterior espectáculo do Teatro Extremo chamado Retratos, onde se parodiava a crise financeira de 2008), possui uma funerária e vive de expedientes. Aqui, no meio desta situação, a família tentava ganhar dinheiro com a calamidade desde o negócio das máscaras, passando pelo das vacinas e é claro pelo seu negócio da funerária.

Criar humor com a situação foi uma maneira de desanuviar o receio de que todos padecíamos, ao mesmo tempo que tentámos manter o contacto com o mundo e com os nossos públicos.

Como foi a produción da compañía neste último ano?

Acabados de estrear em março de 2020 o nosso espectáculo Era uma vez… ou lá o que é que é, dirigido pelo clown belga Joseph Collard, o confinamento surgiu a meio da carreira da peça, o que fez com que tivessemos de encerrar a nossa sala de espectáculos e nos virássemos, como vos dissemos na resposta anterior, para o trabalho on-line. Com a reabertura do Teatro e uma vez que já tínhamos compromissos de agenda só foi possível retomar a carreira de Era uma vez… ou lá o que é que é no início de dezembro mas, ainda assim, com uma curta série de espectáculos. 

Com o novo confinamento já este ano, interrompemos uma vez mais o nosso trabalho presencial, quando estávamos a ensaiar um texto do catalão Josep M. Benet i Jornet, já em substituição de uma outra peça que nos tínhamos proposto fazer para o início de 2021 A Relíquia baseada no romance de Eça de Queirós, mas que como era vocacionada também para um público escolar, o que manifestamente era impossível abranger nesta situação, decidimos adiá-la e substitui-la por este Supertudo, ou Supertot no original catalão. Agora esperamos melhores dias para a levar à cena.

“A Cultura não aguenta confinamentos e o comportamento dos organismos responsáveis, governo, municípios, etc, tem sido muito errático e para a imprevisibilidade com que já “normalmente” se confrontam os organismos culturais, é somar confusão em cima de caos”

De que xeito afectou a pandemia na programación do Teatro-Estúdio António Assunção e das demais actividades que se desenvolven neste espazo?

A programação do Teatro-Estúdio António Assunção esteve suspensa entre março e maio de 2020 e encontra-se, novamente, suspensa desde o dia 15 de janeiro deste ano, sem previsão da data de reabertura dos equipamentos culturais.

Grande parte da programação suspensa de março a maio de 2020 foi concretizada no 2º semestre de 2020, nomeadamente, a actividade própria do Teatro Extremo (temporada da 53ª criação e 25ª edição de Sementes – Mostra Internacional de Artes para o Pequeno Público e o acolhimento de uma exposição, ensaios, estreias e apresentação de espectáculos de coletivos locais, com a limitação de público a 50 por cento, cumprindo as regras sanitárias de distanciamento e higienização.

No entanto, parte da programação suspensa entre março e maio de 2020 ainda não pôde ser reagendada, como concertos no espaço de Café-Teatro no foyer do Teatro (que implica proximidade entre artistas e público) ou a exibição regular de Filminhos à volta do País, uma seleção de cinema de animação dedicada às crianças e às suas famílias, que passou a ser transmitida online, desde abril de 2020. Por outro lado, foi adiada para junho de 2021 a estreia de um espectáculo com a participação de um encenador proveniente de Espanha e foram cancelados duas novas exposições e dois espectáculos previstos acolher em 2020: um projeto que envolvia a participação de jovens estudantes e outro que contava com um numeroso elenco.

Para além de Sementes – Mostra Internacional de Artes para o Pequeno Público, anualmente, o Festival de Almada (julho) e a Mostra de Teatro de Almada (novembro) marcam presença no Teatro-Estúdio António Assunção. Em 2020, o Festival de Almada apresentou um único espectáculo com diversas sessões, face à limitação da lotação da sala. Já o horário de espectáculos da Mostra de Teatro de Almada sofreu alterações de última hora, condicionado pelo recolher obrigatório a partir das 23h.

 

E a actividade pedagóxica que vindes desenvolvendo con crianzas, coa xuventude e coa terceira idade?

A actividade presencial do Serviço Educativo está muito condicionada desde março de 2020.

As oficinas de teatro para crianças dos 3 aos 5 anos a realizar nas instalações dos jardins de infância não puderam ser agendadas no ano letivo 2020/2021. As oficinas de teatros para crianças dos 6 aos 10 anos e uma oficina de teatro para jovens que estavam em curso e foram suspensas em março de 2020 retomaram nos meses de outubro e novembro com limitação de participantes, para interromper, novamente, a partir de 15 de janeiro, sem previsão do calendário de continuidade. A oficina de teatro para jovens em contexto social frágil iniciada em outubro de 2020, com previsão de terminar em meados de janeiro, está para reagendamento quando a situação o permitir. Por outro lado, foram canceladas oficinas para crianças e seniores onde os casos estavam mais elevados.

As oficinas de teatro para seniores (grupo de risco) que decorriam não poderam ainda ser retomadas.

A iniciativa anual Sorriso de Natal, que consta de uma digressão na época natalícia de um espectáculo pelas escolas do Pré-escolar e 1º ciclo do Concelho de Almada, abrangendo 10.000 espetadores, entre crianças, funcionários e docentes, foi realizada on-line em 2020.

“Os problemas na Cultura em Portugal não resultam do surto epidémico. A epidemia apenas os agravou”

Que comportamentos adoptaron as distintas institucións desde o comezo da pandemia?

Os problemas na Cultura em Portugal não resultam do surto epidémico. A epidemia apenas os agravou.

O desinvestimento e o ataque às funções constitucionais do Estado, o abandono de qualquer elemento de serviço público, o esvaziamento da diversidade e destruição do tecido cultural, a mercadorização e mercantilização culturais, a inserção subalterna e de mero consumo no mercado internacional das indústrias culturais, a formação de uma dupla estratificação (elitização e massificação) no acesso à Cultura, em ambos os casos contrária à democratização, tem sido uma constante ao longo destas ultimas décadas.

A Cultura não aguenta confinamentos e o comportamento dos organismos responsáveis, governo, municípios, etc, tem sido muito errático e para a imprevisibilidade com que já “normalmente” se confrontam os organismos culturais, é somar confusão em cima de caos.

Por isso os artistas andam a reclamar que os apoios para a área da cultura não sejam apenas uma mera propaganda e assim como o estado tem acorrido ás empresas de outros sectores (algumas delas que até estão a ganhar ainda mais dinheiro com a pandemia), devia ter em conta a situação de calamidade em que se encontram os agentes culturais, ainda para mais sabendo eles e todos nós da precarização, não só financeira das estruturas, mas também os vínculos de trabalho com que se encontram os profissionais do sector.

Sobre o Concurso ao Programa de Apoio 2018-2021, cambiaron os criterios a seguir polo Ministerio de Cultura/DGArtes para outorgar axudas ás compañías?

A medida tomada pelo Ministério da Cultura/DGArtes para a prorrogação dos apoios para 2022 é um adiar dos problemas, não a sua solução.

Realizouse a Lei Base que demandabades?

De forma nenhuma. Continuamos ao sabor dos ventos e de medidas avulsas. Muitas das quais apenas anunciadas e nem sequer concretizadas.

A Cultura é um pilar da democracia. Exige uma política e uma Lei Base de forte responsabilidade e capacidade de acção pública. Requer a existência de um Ministério da Cultura digno desse nome, invertendo e rectificando a linha de esvaziamento e desresponsabilização da Administração Central. Com a reformulação das suas estruturas e quadros, dotados dos necessários meios orçamentais, técnicos, políticos e humanos, com capacidade e flexibilidade de intervenção tanto nos planos nacional, regional e local como no plano da articulação interministerial de políticas. E garantia do acesso de todos, em todo o território nacional, à experiência da criação e da fruição cultural e artística, com especial enfoque na componente de acesso às formas, meios e instrumentos de criação.

O Serviço Público de Cultura integra e articula acções e estruturas com objectivos e meios de intervenção muito diversificados, preferencialmente de larga amplitude, dotadas da maior autonomia de gestão e criação, e às quais é requerida e atribuída a maior responsabilidade cultural e social. Proporcionará aos trabalhadores da Cultura condições de trabalho e de realização inteiramente diferentes das actualmente existentes.

Hai conciencia de cidadá-comunidade ou é unha utopía?

Aí está uma pergunta de difícil resposta. Durante toda a história de humanidade tem havido fluxos e refluxos, avanços e recuos, tomadas de consciência e abandonos.

Estamos numa altura complexa em que, a par da necessidade sentida pela generalidade das pessoas quanto aos aumentos de escolaridade e nível cultural das populações, se assiste ao recrudescimento de ideias políticas ainda mais radicais e perigosas do que as das chamadas “direitas conservadoras” que sempre olharam com desconfiança para as artes e para o papel dos artistas.

Estas pulsões têm de ser desmontadas e desmistificadas, porque oferecendo respostas simples a problemas complexos, não fazem mais do que mascarar os mecanismos que sempre quiseram e continuam a querer acorrentar e amordaçar as esperanças de um futuro melhor.

Esta e outras batalhas, como a das alterações climáticas e do chamado capitalismo da vigilância (como descreve a socióloga norte-americana Shoshana Zuboff: um projeto global que utiliza as novas tecnologias para modificar os comportamentos humanos e que ameaça transformar a natureza humana no século XXI, do mesmo modo que o capitalismo industrial alterou o mundo natural do século XX), precisam de ser travadas. Cabe aos povos, mas também aos artistas, os quais não se podem colocar à margem deste combate (e há tantos que o fazem), contrariar essas ideias perniciosas carregadas que estão de pulsões de morte, de individualismo exacerbado, de desregulação de todos os contratos socias que têm sido possíveis de alcançar através das lutas progressistas pela dignidade e bem estar das populações humanas.

Quanto à utopia só podemos dizer como Fernando Birri, citado por Eduardo Galeano: “A utopia está lá no horizonte. Se me aproximo dois passos, ela afasta-se dois passos. Caminho dez passos e o horizonte foge dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais a alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: Para que não se deixe de caminhar”.

“Esperamos que rapidamente nos possamos libertar desta caminhada que temos feito online e voltar aos espectáculos ao vivo, porque o teatro, esta arte de carne e osso e vísceras é recíproco e precisa da respiração do público”

Como vedes o futuro das artes escénicas en Portugal a curto e medio prazo?

A proposta há muito exigida do reforço do financiamento com pelo menos 1% do Orçamento do Estado para o sector, a implementação de um plano nacional de emergência para as artes e para a cultura, com a criação de um fundo de apoio social de emergência ao tecido cultural e artístico é a curto prazo absolutamente urgente.

Não é, de facto e infelizmente, o que se perspectiva aqui em Portugal. Soubemos há pouco pelos jornais, que no Plano de Recuperação e Resiliência português (a chamada “bazuca” financeira em resposta à pandemia aprovada pela União Europeia), não está inscrito um cêntimo para o sector cultural.

Portanto muitas nuvens negras emprestam um ar pesado ao nosso horizonte, no entanto é necessário não deixar de caminhar.

Para finalizar, esperamos que rapidamente nos possamos libertar desta caminhada que temos feito online e voltar aos espectáculos ao vivo, porque o teatro, esta arte de carne e osso e vísceras é recíproco e precisa da respiração do público, dos seus risos, das suas lágrimas, dos seus suspiros, que respondam aos dos actores. Neste momento é disso que sentimos mais falta.

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