Crítica

Perfect Match

Imaxe de Alipio Padilha

De viagens e corações

Perfect Match, da companhia Hotel Europa, foi apresentado no CAL, o espaço que é ocupado pela companhia Primeiros Sintomas, no bairro da Graça em Lisboa, como parte da programação do MOMENTO I da 19 ª edição do Festival Temp d’Images de 2021. O MOMENTO II decorreu de 14 de outubro a 7 de novembro.

Temp d’Images (TDI) é um dos festivais ligados às artes performativas que existem na cidade de Lisboa. Com origens francesas, o TDI surgiu inicialmente em 2002, organizado pela Arte e La Ferme du Boisson, com o intuito de incentivar a divulgação de projetos que ligavam as artes performativas às artes visuais. O projeto foi replicado sob o mesmo nome noutros países como na Alemanha, Itália, Hungria, Bélgica, assim como na Turquia e Canadá, criando uma rede internacional. Em Portugal, o TDI foi uma iniciativa de António Câmara Manuel e Irit Batsry. O seu funcionamento em rede permitiu a divulgação e partilha de recursos e espetáculos, o que fortaleceu o seu caráter internacional. Quando a rede desapareceu, o TDI manteve o nome em Lisboa, focando-se agora na criação nacional, em especial, em artistas no início de carreira, sem perder o foco original de divulgação de projetos que promovem a relação entre as artes performativas e as visuais, com destaque para o cinema e o vídeo. A edição de 2021 está dividida em 2 momentos, o Momento I na primavera e o Momento II no outono.

Perfect Match foi apresentado na primavera. A companhia apresentou um espectáculo coral, no qual a música tem grande relevância e as imagens ilustram as narrativas contadas pelos seis performers, homens e mulheres de distintas nacionalidades, que, por diferentes razões, estão, neste momento, a morar em Portugal. “O guião foi construído a partir de testemunhos e das histórias e experiências de vida dos intérpretes, nascidos em países muito diferentes: Brasil, Colômbia, República Checa, França, Grã-Bretanha e Itália”, pode ler-se na brochura do Festival deste Momento I. Assim, as memórias das viagens, da infância, da família, vão dando forma a esta proposta cujo resultado é um espectáculo que se centra no lado humano, com especial ênfase nas relações com o outro, entendendo isto de um modo lato, vizinhança, amores, família, autoridades, etc. Assim, conhecemos as diversas histórias: as das férias à terra da mãe, portuguesa emigrada em França e as longuíssimas viagens de carro; ou daquele namoro que quase, quase, foi casamento; ou daquelas reuniões familiares com foto de grupo e os cheiros da comida a pairar e a criar memórias inesquecíveis. Ou do namorado casado com uma mulher, a pesar da sua homossexualidade, apenas para conseguir um visto e não ser expulso do país porque não é europeu, ou da violência na terra natal, com tiroteios á porta de casa.

O espetáculo problematiza e humaniza a condição de imigrante, do outro, o que é diferente, procurando mostrar as diversas nuances. Tanto é assim que um dos performers, por exemplo, não é estrangeiro, mas sim um português não branco, e por isso, tratado muitas vezes como estrangeiro. Porque o “outro” é quem é diferente da maioria, dos supostos padrões que homogeneízam a sociedade. Assim, o sotaque, a cor de pele, os rasgos, são todos indicadores externos que possibilitam classificar a pessoa.

Perfect Match interpela o público diretamente, procurando a sua cumplicidade através de uma linguagem coloquial e familiar, utilizando músicas, coreografias, narrações na primeira pessoa que mostram a diversidade das situações das pessoas, sem, contudo, fugir a temas mais delicados (como matrimónios para conseguir um visto, racismo, violência das autoridades, etc.). O esquema é simples, cada um/a dos/as performers vai contando uma experiência ligada a Portugal (a viagem, as lembranças, etc.). A estratégia, apesar de ser um bocado repetitiva, consegue prender o interesse do público, através da música, das narrações bem contadas e de um bom uso dos tempos.

No espetáculo também se fala das diferenças entre o que é um imigrante aos olhos do país de acolhimento pois nem todxs xs imigrantes são iguais nem recebidos de igual modo. De facto, e como bem assinalam, existe a diferença entre imigrante e expatriado, uma palavra com uma conotação mais romântica do ato de sair do país próprio. De modo inteligente, e brincando com o próprio cinismo dos países, fazem um jogo, onde se colocam no palco em diversas linhas, do fundo do palco à boca de cena, estando mais perto do público os expatriados e nas últimas filas os imigrantes, dependendo do país mencionado. Por exemplo, se o país mencionado for Alemanha, na boca de cena estão os europeus brancos de países aliados, depois os outros europeus, no fundo os não brancos e não europeus. No caso da Rússia, os gays, independentemente do país, vão para o fundo de palco, assim como não brancos, etc. Mais uma vez, de modo muito simples, conseguem explicar e mostrar como o fenómeno  da migração  é complexo  e  tem fortes  elementos  sociológicos,  económicos e históricos.

O Hotel Europa criou, com este tipo de estratégias narrativas, um espectáculo inteligente e dinâmico que procura a aproximação a um tema complexo e delicado, que muitas vezes é tratado de um modo demasiado simplificado. Ao colocar o foco na pessoa, nas suas circunstâncias, sem esquecer a importância da comunidade que a acolhe, e utilizando a música (uma linguagem quase universal e que nos une) conseguiu um espetáculo sensível e divertido num português com múltiplos sotaques.

Ficha artística

Perfect Match, de Hotel Europa

Criação: André Amálio e Tereza Havlíčková

Com: Edison Otero, Laurence Alliston-Greiner, Lydie Bárbara, Ricardo Cruz, Simone Carugati e Tereza Havlíčková

Cenografia: Hotel Europa

Desenho de Luz e Direção Técnica: Joaquim Madaíl

Produção Executiva: Maria João Santos

Co-produção: FITEI e Temps d’Image

Residências: Armazém 22

Fotografia: Estelle Valente
Agradecimento: New Music School

CAL/PRIMEIROS SINTOMAS, 30 de maio de 2021,  às 19 horas.

(FESTIVAL TEMP D’IMAGES 21)

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