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La Scortecata

La Scortecata
Imaxe do Festival di Spoleto / MLAntonelli-AGF

A beleza da comédia triste

La Scortecata é um espectáculo escrito e encenado por Emma Dante a partir da adaptação livre de O Conto dos Contos de Giambattista Basile. Esteve em palco no Pequeno Auditório do Centro Cultural de Belém (CCB) perante uma plateia muito reduzida nos últimos dias amenos deste outono de 2021.

O CCB é um dos espaços culturais públicos da cidade de Lisboa. Foi construído para ser a sede da primeira presidência de Portugal da União Europeia, e, como nessa altura, também este ano serviu de base para as reuniões e encontros dos dirigentes políticos europeus. O projeto arquitetónico construído até hoje é composto por três blocos: um centro de espectáculos (um Grande Auditório, Pequeno Auditório, Black Box e uma série de salas de ensaios), um centro de congressos ou reuniões e um museu (atualmente ocupado pelo Museu Berardo). O espaço responde a uma larga tradição portuguesa de recordar as viagens transatlânticas dos séculos XVI e XVII com monumentos ao pé do rio. De facto, essa zona ribeirinha foi também a localização da Exposição do Mundo Português na década de 40 do século XX, durante o Estado Novo (e a Segunda Guerra Mundial), e é onde está o Padrão dos Descobrimentos, inaugurado em 1960.

O CCB foi durante muitos anos o espaço cultural com melhores condições técnicas e logísticas da cidade, o que lhe permitiu apresentar espetáculos de grande complexidade vindos da Europa e dos Estados Unidos, que, até àquela altura, não tinham sido apresentados em Portugal. É palco também de festivais importantes, em especial na área da música, como os Dias da Música, procurando como espaço cultural manter um equilíbrio entre a exibição de criadorxs nacionais e artistas reconhecidos de além-fronteiras.

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La Scortecata esteve em cena apenas quatro dias. O espectáculo foi apresentado em dialeto napolitano, “enriquecido com calão, provérbios populares e exclamações” (segundo a folha de sala), e acompanhado de legendas em português. O palco, despojado, tinha apenas duas pequenas cadeiras e um pequeno castelo no centro. As varas dos projetores também faziam parte da cenografia. Não estavam ocultas, mas sim a meia altura, visíveis ao olhar do público, e criando visualmente um quadrado sobre o quadrado do palco do Pequeno Auditório, como se desenhasse um palco dentro de um palco. Ao desligarem e voltar a ligar as luzes, os atores aparecem em palco, como se sempre tivessem lá estado. Este recurso é utilizado em algumas ocasiões para fazer aparecer objetos simples que ajudam na criação de objetos e situações. A imaginação é, na verdade, a grande protagonista desta peça.

A proposta é clássica, quase, quase retro: dois atores interpretam duas mulheres muito velhas, irmãs solteiras que vivem juntas num casebre miserável numa aldeia, em tempos do Renascimento, com príncipes e donzelas. Os atores representam os movimentos estereotipados de duas mulheres muito velhas, arrastam e agudizam a voz. É quase como se estivéssemos perante uma recreação do teatro setecentista. O excelente trabalho físico dos atores ajuda a que a ficção se mantenha ao longo de todo o espectáculo, conduzindo o público através de uma história com momentos paródicos e ridículos e outros de enorme tenrura.

Mas não nos deixemos enganar pela linguagem e pelos modos dos atores, nem pelo aparente despojo do aparato cénico. É um espectáculo visual elegante, que cria imagens de enorme beleza com poucos objetos: um lençol, uma porta, uma faca e uma luz cálida. São essas imagens esteticamente muito cuidadas que criam um espetáculo que nos transporta, por momentos, do teatro ao museu, através da construção de imagens que parecem tiradas de pinturas, em especial na cena final, ao fundo do palco, tenuemente iluminada, trágica e bela, com a faca ao alto, e os corpos derrotados, em claro-escuro.

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La Scortecata é uma comédia triste, uma paródia melancólica sobre oportunidades perdidas, sonhos nunca realizados e nostalgia de uma juventude saudosa que não foi como se sonhava. Uma história de uma sociedade cruel para a mulher, que a faz acreditar que precisa de um príncipe para ser feliz. É um espectáculo de teatro que trouxe para o século XXI um texto antigo, sem ser anacrónico, mas transformando-o em imagens belas e, às vezes, comoventes e cruéis.

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TEXTO, ENCENAÇÃO, CENOGRAFIA E FIGURINOS: Emma Dante

ADAPTAÇÃO LIVRE DE O CONTO DOS CONTOS de Giambattista Basile

INTERPRETAÇÃO: Salvatore D’Onofrio e Carmine Maringola

DESENHO DE LUZ: Cristian Zucaro

TÉCNICO DE LUZ: Gabriele Gugliara

ASSISSTÊNCIA DE ENCENAÇÃO: Manuela Capraro

ASSISTÊNCIA DE PRODUÇÃO: Daniel Gusmano

LEGENDAS: Franco Vena

CO-PRODUÇÃO: Festival di Spoleto 60, Teatro Biondo d Palermo (Italia)

Em colaboração com Atto Único/ Compagnia Sud Costa Occidentale

La Scortecata, de Emma Dante. Pequeno Auditório do Centro Cultural de Belém (CCB). Sábado, 20 de novembro de 2021. 

Marisa F. Falcón

Marisa F. Falcón

Marisa F. Falcón trabalha na produção da Rua das Gaivotas 6 e como freelancer em direção de cena. É licenciada em Teatro-Produção pela Escola Superior de Teatro e Cinema (ESTC)) do Instituto Politécnico de Lisboa onde leccionou durante nove anos. Tem um mestrado em Práticas Culturais para Municípios pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e é doutoranda em Estudos de Cultura na Universidade Católica Portuguesa onde está a escrever uma tese sobre teatro contemporâneo, para a que teve uma bolsa da FCT. Além da atividade docente, foi cocriadora de uma empresa de difusão de dança e teatro e participou em atividades ligadas ao Novo Circo quando morava em Santiago de Compostela.

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