Tudo o que o corpo pode fazer para se relacionar com o outro é incrível e fascinante. Isso foi o que percebi em Friends of Forsythe, com curadoria de William Forsythe e Rauf ‘Rubberlegz’ Yasit (Estados Unidos).
Uma proposta em que a dança parece esquecer exibicionismos artísticos, embora seja realizada no virtuosismo mais elevado. Mas este virtuosismo consiste em técnicas e estilos diferentes, em cada elemento do elenco, plenamente incorporadas e vibrantes só no fundo dos fundos, para dar total liberdade ao movimento. Técnicas e estilos interiorizados que só deitam alguns ecos ou vestígios, como um perfume ou uma subtil tonalidade que se pode cheirar ou perceber.
Uma proposta que, aliás, também não se justifica por uma vontade temática ou narrativa, como costuma acontecer com muitas peças em que parece que a dança contemporânea pede permissão para existir, pegando num tema, ideia, ou sublimação de uma história, que possa servir para vender e defender o mero facto de dançar. Não! Em Friends of Forsythe a equipa de coreógrafos – integrada por William Forsythe, Rauf ‘Rubberlegz’ Yasit, Matt Luck, Riley Watts, Brigel Gjoka, Aidan Carberry, Jordan Johnson (Ja Collective) – atrevem-se a prescindir de referências externas que apoiem ou justifiquem a dança, além do facto de celebrarem o movimento do corpo, na sua diversidade, para se relacionar com outras pessoas. E isto não é pouco! Isto é mais do que muito!
A peça, caso possamos chamar-lhe peça, parece articular-se ou estruturar-se à volta de encontros entre dois, três, quatro, cinco e até seis bailarinos e uma bailarina. Sendo que os encontros principais ou mais substanciosos são os de dois ou três bailarinos, porque neles se desenvolvem com maior concentração e pureza as estratégias da relação.
Assim sendo os duos e os trios quase parecem, nesse jogo que exalta a ideia de comunicação além das questões informativas e de significado, cenas teatrais sublimadas. Todavia os quartetos, quintetos e sextetos ficam para momentos mais breves, de transição entre os duos e os trios.
Na bailarina e noutro bailarino podemos apreciar posições corporais e certas figuras do ballet. Noutros bailarinos podemos apreciar o estilo das danças urbanas, do hip-hop ou do break-dance, sobretudo no trabalho acrobático e de giros realizados no chão. Noutros observamos outras diferenças. Também são diferentes as fisionomias, os corpos e as aparências do elenco.
Tudo isto está a colocar em foco essa maravilhosa possibilidade que têm os seres humanos para se relacionar e se entender sem palavras, além das nossas diferenças culturais, estéticas e, se calhar, embora mais difíceis, até as ideológicas. Porque, como é sabido, toda estética equivale a uma ética, e esta tem a raiz no mundo das ideias e dos valores.
Nas diferentes “cenas” de Friends of Forsythe, realizadas sobre um quadrado de linóleo branco traçado no chão preto do palco, com o público a três bandas, essa primazia dos duos e dos trios que, como já mencionei, contribui para a concentração nas estratégias de harmonização e relação entre as pessoas através da dança, já foi preparada na introdução ou “proemio”. Enquanto entrávamos na Sala Principal do Teatro Municipal Joaquim Benite, uma dupla de bailarinos estavam, em silêncio, a enredar os seus corpos lentamente, como se não quisessem deixar nenhum vazio entre eles. Devagarinho iam adaptando o corpo de um ao corpo do outro, como num abraço corporal profundo em que quase toda a superfície daquilo que somos se quere encontrar e sentir.
Atar, desatar, enredar os corpos, pontuando as fases do encontro, quase como se fossem frases num diálogo, com pequenas pausas, percussão das palmas das mãos, estalar os dedos… como sinais gestuais que, por vezes, se correspondiam com apagões súbitos da luz.
Houve também, nos duos e trios, a relação a distância, numa escuta que ligava as pessoas dançantes em tensões rítmicas invisíveis, mas percetíveis para o público. Acho que o público esteve, todo o tempo, concentrado e admirado.
Nalgumas passagens, apenas uma música de fundo, que quase nem música parecia, com uns sons agudos sustidos, como uma paisagem sonora em segundo plano. De resto, eram encontros em que a música estava constituída pelo “tempus” do movimento na sua organização fluida e natural (orgânica), pese o extraordinário e a alta qualidade desses movimentos. Também o som das respirações, o fôlego a ritmar o movimento, e algumas percussões básicas corporais e com o chão. Por exemplo, aquela “cena” com os dois bailarinos reclinados no chão, a interagir ao uníssono, mudando de posição individualmente, mas em relação simbiótica, e manipulando, com as mãos, os braços, os ombros e outras partes, a outra pessoa.
Houve “cenas” em que o movimento de cadeira e torso partia ou perturbava as posições de ballet entre a dupla.
Houve “cenas” em que os motivos coreográficos surgiam da marcha, sendo o caminhar o contexto situacional.
Houve “cenas” em que as mãos abertas, de repente, colocadas diante da cara, geravam uma espécie de máscara fascinante, assim, de uma maneira tão aparentemente simples. Porque essa é outra das virtudes deste trabalho, a aparência de simplicidade e de facilidade.
As premissas coreográficas e gestuais de relação e contacto, a partir de diferentes jogos cinéticos de mãos, braços, percussões etc., podem ser percebidas pelo público e até, nalguns momentos, acordar expectativas cinéticas. Assim sendo, dá-se uma espécie de situações de interação que acabam por nos produzir a sensação ou a impressão de que a dança e o movimento são possibilidades ótimas e até muito naturais para nos relacionarmos. É quase como se estivéssemos a presenciar diálogos corporais, ou se quisermos inventar um conceito análogo: diacoreos, sendo “dia”, na sua origem grega, “através”, e sendo “coreo”, também na sua origem grega, “corpo”, deixando o “logos”: “palavra” de lado. Embora o “logos” de “diálogo” também possa ser “lógica”. Em certo sentido, estas interações corporais também respondem a uma lógica do entendimento mais profundo e originário, o dos mamíferos que necessitam do contacto físico para viver bem, para se cuidar, para se querer etc. Em consequência até poderíamos dizer que em Friends of Forsythe estamos perante a conjugação de dia-coreo-logos, através das lógicas dos corpos a mexerem-se.
Friends of Forsythe produz esse prazer: o do encontro e o entendimento através da melhor e única casa que temos: o corpo. Através do que mais verdadeiramente somos: o corpo.
(Os meus agradecimentos para Maria José Albarran Alves de Carvalho pela revisão linguística deste artigo.)
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