Venho dos Festivais Gil Vicente de Teatro Contemporâneo de Guimarães 2026, organizados pela Oficina, com direção artística de Bruno dos Reis, que é o atual diretor do Teatro Oficina. Assisti à segunda semana dos Festivais, de quinta-feira, 11 de junho, até sábado, 13, e pude ver dois espetáculos: TOSHIIB4, de Luísa Guerra (12/06/2026), e TUDO EM AVIGNON E EU AQUI, de Bruno dos Reis (13/06/2026); a performance de David Calão, PELA BOCA MORRE (12/06/2026); e ouvir, passeando, o podcast ESPALHAR FEL, de Mickaël de Oliveira (13/06/2026). Havia ainda outro espetáculo e coprodução para fazer a sua estreia no início desta segunda semana dos Festivais: AFRO SALOYÁ, de Isabél Zuaa (11/06/2026), que não chegou a realizar-se porque a sua criadora, junto da equipa artística, denunciou, perante o público que ali estava para assistir à estreia, um trato racista por parte de elementos da equipa técnica do Centro Cultural Vila Flor (CCVF). Sem dúvida, isto gerou mal-estar e um peso que, de alguma maneira, hipotecou os ânimos no resto do fim de semana. No dia seguinte, A Oficina emitiu este comunicado, assinado pelo seu Presidente Executivo:
“A Oficina lamenta os acontecimentos que levaram ao cancelamento do espetáculo “Afro Saloyà”, da artista Isabél Zuaa, na noite de 11 de junho, no âmbito dos Festivais Gil Vicente. A Oficina não tolera qualquer forma de racismo, sexismo ou assédio e leva muito a sério todas as alegações dessa natureza.
Face à denúncia ontem apresentada pela mesma artista, a direção executiva d’A Oficina instaurou de imediato um processo de averiguação interno e, apesar de não ter sido identificada qualquer atitude, ato ou insinuação de natureza racial, decidiu enviar uma participação ao Ministério Público para que toda a situação possa ser cabalmente investigada, pedindo a maior celeridade possível. A Oficina expressa total empatia e compreensão para com todos aqueles que se sentiram afetados por esta situação, reafirmando o seu compromisso com os valores da igualdade, da inclusão, do respeito mútuo e da dignidade de todas as pessoas.”
Eu fiquei muito chocado, porque venho, desde 2012, a assistir a inúmeros espetáculos no CCVF, de companhias e artistas de todo o mundo, de diferentes procedências, etc., e nunca se passou nada parecido, nem aqui nem em nenhum dos inúmeros teatros que conheço.
O teatro não é só um edifício para a realização de espetáculos, mas um espaço para o cuidado da diversidade e para a celebração da empatia, do colocar-se no lugar do outro. O teatro é o espaço privilegiado e sagrado para, olhos nos olhos — quer através da metáfora das personagens, quer através da realidade vital das pessoas —, com toda a sua complexidade, nos entendermos e ampliarmos os nossos horizontes. Mais ainda nestes Festivais que, desde que os conheço, sempre se caracterizaram por se abrirem à vanguarda, ao risco artístico da experimentação que foge das fórmulas habituais e estandardizadas do teatro mais convencional (aquele chamado de comercial). Mas as pessoas podem errar, podem equivocar-se, pode haver mal-entendidos… Porém, eu acho que sempre deve existir a possibilidade de arranjar, de mudar, de melhorar. Sou otimista e é nessa perspetiva que gostaria de me deter a pensar sobre os dois espetáculos que finalmente pude ver e, se calhar pela sua interpelação quase direta, no podcast de Mickaël de Oliveira.

TOSHIIB4, de Luísa Guerra — uma coprodução d’A Oficina / Centro Cultural Vila Flor, Teatro Nacional D. Maria II, O Espaço do Tempo e Teatro Viriato, e projeto vencedor da 8.ª edição da Bolsa Amélia Rey Colaço
Trata-se de uma proposta de teatro pós-espetacular que transforma o palco no quarto de uma “girl” (as jovens portuguesas da era da globalização e da colonização do inglês são “girls” e hibridizam, numa percentagem elevada, a língua portuguesa com o inglês), onde todas as pessoas são convidadas a descalçar-se e a deitarem-se ou a sentarem-se em almofadas, ficando à vontade.
Somos convidados a abandonar o papel de espectadores, se quisermos, porque elas, as girls, estão sentadas em círculo numa reunião de confiança e intimidade a falar das suas coisas que, por obra deste convite, também podem ser as nossas: a identidade relativizada nos tempos em que a imagem digital pesa tanto quanto a da chamada vida real, as sexualidades dissidentes, a criação e a recriação da pessoa e das relações, e o confronto com as tendências hegemónicas, entre outros temas.
TOSHIIB4 dá-nos liberdade e não nos pretende capturar com efeitos cénicos espetaculares; propõe apenas a partilha num ecrã circular, semelhante à mesa fúcsia em que elas estão reunidas a conversar, a fazer as “nails” ou a brincar com pequenos brinquedos.
O mais curioso, para mim, é o ponto em que este teatro pós-espetacular se toca com o drama realista burguês: devido à quarta parede que instituem ao agirem tal e qual como se não estivéssemos lá, acabam por nos transformar em “voyeurs”. É muito curiosa esta mistura entre uma receção livre, que partilha o espaço do quarto, e, ao mesmo tempo, essa participação voyeurista, tão parecida com a do teatro de Ibsen ou de Edward Albee.
ESPALHAR FEL é o “ódio-walk” de Mickaël de Oliveira que desfrutei uma primeira vez, com espanto e forte impressão, no Festival END (Encontros de Novas Dramaturgias) deste ano, em Aveiro, e que voltei a escutar agora, com o mesmo assombro de sentir que ali, naquele relato “distópico”, se encerram chaves do caminho que parece estar a tomar o presente. Um mundo em que as instituições tomam o controlo absoluto da população. Em nome do seu bem-estar e da democracia, elaboram guias de boas práticas e outros protocolos em que prima o critério quantitativo e o facto de não incomodar uma suposta maioria. Desta forma, as supostas minorias devem adaptar-se, renunciar à diferença; tudo tem de ser amável e sem discordância. Os espetáculos e as obras de arte devem elaborar-se (ou criar-se) para encher os teatros e para que todas as pessoas fiquem contentes; para isso, é necessário afastar-se de metáforas muito elaboradas ou de discursos complexos ou perturbadores. O governo elabora uma listagem de temas adequados que garantam que todas as pessoas fiquem incluídas, que ninguém se sinta ofendido, etc. O mundo perfeito onde uma espécie de eugenesia ideológica e moralizante redunda numa distopia muito próxima do que alguns governos de ultradireita fizeram e continuam a fazer.
Há uma catarse no reconhecimento de que os extremos do politicamente correto e do absolutismo fascista se podem tocar. Se, em nome de Deus, se têm feito atrocidades ao longo da história, também em nome do bem-estar e da doxa do “bem” se podem fazer.
A voz de Mónica Calle é uma mais-valia neste podcast porque, atrás do artifício da narração, bate a verdade que traz arquivada na atitude que pressupõe a sua obra artística.

TUDO EM AVIGNON E EU AQUI, do Teatro Oficina, com encenação e dramaturgia de Bruno dos Reis, encerrou os Festivais Gil Vicente (13/06/26) com uma revisão do que a máquina do teatro pode fazer. A peça é metadiscursiva e metateatral: teatro dentro do teatro na procura de desentranhar ou mesmo brincar com os mecanismos da imaginação ficcionalizadora e como esta constitui uma maneira de concebermos a vida, de ampliar ou estreitar horizontes.
Parece que Bruno pegou na grande máquina do teatro do CCVF e quis explorar as possibilidades máximas para gerar momentos fantásticos e belíssimos: o cavalo branco a passar ao longe por entre os lugares da plateia do Grande Auditório Francisca Abreu, enquanto nós observamos a imagem desde o fundo do palco. Talvez esta tenha sido a cena-chave da peça: tudo real, o cavalo branco e o espaço físico, para que o nosso cérebro percebesse a magia. Isto face à possibilidade de ser o texto, a palavra, sem mais adornos, tal qual no espaço vazio de Peter Brook, a suscitar na nossa imaginação um teatro fantástico. Eis a descrição das didascálias iniciais, enunciadas pela atriz Rebeca Cunha a fazer de si própria, quando explica as possibilidades de realização da cena, ou a descrição do derradeiro concerto de Chalino Sánchez, rei dos “corridos” mexicanos, quando foi assassinado.
Desta maneira, entre dois regimes de projeção ficcional, a ação transita do teatro consciente de si próprio, passa pela quase paródia do Spaghetti Western — brincando com as variações da personagem de Chalino Sánchez e da sua morte —, para estabelecer um paralelismo com a metáfora dos fantasmas que habitam o teatro. Estes fantasmas são todas as personagens que alguma vez existiram sobre as tábuas do palco e as que ficaram presas na literatura dramática e no imaginário coletivo. E acaba numa cena reflexiva em que atores e atrizes deixam a estilização mais convencional da ficção (representação) para se focarem numa apresentação de si próprios, num relato que pretende ser mais veraz do que verosímil, sobre o acidente da atriz vimaranense Rebeca Cunha; sobre o destino de quem é presa da vocação do teatro. Mas qual é a tese da peça? É o teatro um destino? E que papel tem aqui o acidente?
Se calhar aqui, em Guimarães, Cidade Berço de Portugal, com os Festivais Gil Vicente podem passar coisas tão extraordinárias quanto em Avignon, berço do teatro europeu pelo seu prestigiado festival. Porque, onde se ativa a máquina do teatro, tudo é possível.
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