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O BEIJO NO ASFALTO

O espanto e o espantoso em redor de um beijo

Foto: José Caldeira - TNSJ
Foto: José Caldeira - TNSJ

Trata-se de uma montagem teatral espantosa e muito inteligente, na qual o drama trágico de Nelson Rodrigues se atualiza e se confronta, nos seus aspetos mais anacrónicos, com o presente, através de uma epicização brechtiana contemporânea.

O início faz-se com um prólogo em verso sobre o atropelamento e a vítima que, no instante imediatamente anterior à morte, pede um beijo a um “cara” (na expressão brasileira) que chegou antes de todos para lhe amparar a cabeça. O ator desce pela bancada da plateia agitando um jornal na mão — o mesmo que os assistentes de sala nos tinham distribuído à entrada, com uma manchete em letras garrafais: “O Beijo no Asfalto”. Esse primeiro narrador faz-nos a apresentação do elenco e das personagens que vão interpretar, adiantando algumas informações básicas sobre a sua psicologia, enquanto estas assomam pelas laterais do palco e da exuberante e, ao mesmo tempo, geométrica cenografia de José Capela. No final, num epílogo após o desenlace funesto, vemos atores e atrizes — sem sabermos ainda se despidos ou não das suas personagens — a dançar ao som de uma canção interpretada por uma Drag Queen barbuda. Aliás, durante toda a peça, houve também um ator com barba a interpretar personagens femininas, o que gera um contraste muito contemporâneo e queer num contexto de ficção assumidamente machista e misógino.

O elenco brasileiro é extraordinário nos dois níveis de jogo da convenção consciente metateatral utilizada. Por outras palavras, destaca-se a articulação entre os mecanismos de distanciamento — que lançam uma ironia humorística compensatória no que diz respeito à exacerbação das paixões, das situações extremas (tipo telenovela) e dos carateres extremos (a polícia e a imprensa corruptas, violentas, racistas, homofóbicas e misóginas, representadas pelo Delegado Cunha, pelo Investigador Aruba e pelo Repórter Amado Ribeiro, a par do povo coscuvilheiro, preconceituoso e ávido de sangue, representado pelas vizinhas) — e a leitura das didascálias. Esta leitura, que descreve atitudes intensas até ao exagero, ocorre enquanto os atores olham para quem lê as indicações cénicas, avaliando o desafio que o texto lhes lança e tentando executá-lo: ora editando as expressões emocionais e mantendo essa distância ou dupla articulação (como num simulacro), ora interpretando-as de maneira credível.

Assim sendo, o texto é-nos oferecido na íntegra, tal como se assinala na folha de sala. Não conheço a fundo a dramaturgia de Nelson Rodrigues, tendo apenas lido uma ou outra peça, e só me lembro de ter visto uma encenação bombástica de Anjo Negro por Frank Castorf, em 2008, no Festival Internacional de las Artes de Castela e Leão, em Salamanca (na qual o encenador alemão também misturava A Missão de Heiner Müller). Não obstante, a julgar pelo que o texto nos transmite, através da leitura das didascálias e da interpretação dos diálogos, a obra caracteriza-se por um estilo muito enfático, com situações crispadas e carateres extremos e algo planos — com exceção do núcleo das vítimas, talvez como estratégia de compensar a sua desgraça, valorizando-as ao conferir-lhes maior complexidade.

Eis o jovem protagonista negro: Arandir, casado há apenas um ano com a branca Selminha, num amor que vem desde a infância. Foi ele quem deu um beijo na boca ao jovem atropelado mesmo antes de este morrer. Um beijo de compaixão, segundo Arandir, que o próprio moribundo lhe pedira. Mas o Repórter Amado Ribeiro estava lá para aproveitar o sucedido e transformá-lo num ato criminoso: um homem casado, Arandir, que engana a mulher com outro homem, o seu amante, e que acaba por provocar o acidente e a morte deste. A outra testemunha do beijo no asfalto foi o pai de Selminha e de Dália, Aprígio, sogro de Arandir, que também utiliza os factos distorcendo-os, mas que oculta um segredo que só descobriremos no lance patético final da peça. Aliás, nesse núcleo de vítimas temos também Dália, a irmã mais nova de Selminha, que guarda igualmente um segredo. Portanto, Arandir (quase como o anti-herói da dramaturgia expressionista), Selminha, Dália e Aprígio surgem como personagens mais complexos face às forças do mal. Estas últimas são encarnadas sobretudo pela Polícia e pela Imprensa, pelos colegas de trabalho de Arandir, homófobos e violentos, e pelas restantes personagens que configuram uma sociedade asfixiante que alimenta a besta do terror — ora por vocação malévola e instinto predador, ora sob a pressão de chantagens ou por interesses sem escrúpulos.

Outra estratégia de distanciamento é constituída pelos próprios atores a moverem os cenários não realistas e a observarem, nas últimas cenas, a resolução trágica da história.

A cenografia não é realista nem propicia, portanto, um ilusionismo dramático. Pelo contrário, presta-se a favorecer um jogo teatral ágil, facilitando diferentes composições que nunca ocultam o palco — uma agilidade mais própria da comédia do que do drama, também pelas muitas portas ou painéis que servem para entrar e sair, esconder-se e aparecer. É constituída por diferentes e coloridos painéis móveis, cartazes de néon de lojas e estabelecimentos de uma grande cidade, e telas com desenhos arquitetónicos racionalistas, o que gera outro contraste com a importância dada às paixões exaltadas ou à vigilância sobre as vidas privadas e íntimas das pessoas. Por vezes, a minha sensação era a de uma selva cenográfica na qual tudo é possível.

Se esta história de terror em redor de um beijo abre muitas expectativas dramáticas, o espaço e a cenografia, na sua predominância colorida e bidimensional, parecem colocar a ação no plano da banda desenhada, relativizando e oxigenando aquele peso sentimental e trágico. Daí resulta o malabarismo de conseguir fazer-nos rir em momentos complicados, sem rebaixar a gravidade dos factos.

Em suma, estamos perante um dispositivo impressionante no qual a densidade dramática se equilibra com a nossa capacidade para julgar ou pensar até que ponto os supostos anacronismos referentes à morbidez, à homofobia, ao racismo, à misoginia, à corrupção e a outras violências que surgem na obra não continuam vigentes à nossa volta, ou cada vez mais perto, e quem as alimenta e as permite. Esta montagem de O Beijo no Asfalto parece dizer-nos: o perigo está aí, mas a qualquer momento também pode estar aqui.

(Os meus agradecimentos para Maria José Albarran Alves de Carvalho pela revisão linguística deste artigo.)

Afonso Becerra
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O BEIJO NO ASFALTO

Texto: Nelson Rodrigues

Encenação: Tónan Quito

Interpretação: Allex Miranda, Bárbara Meirelles, Beto Coville, Dai Ida, Gabriel Delfino Marques, Genário Neto, Joyce Souza, Julia Prado, Luciano Luz

Cenografia: José Capela

Desenho de luz: Daniel Worm d’Assumpção

Desenho de som: Francisco Leal

Figurinos: Elisabete Leão

Apoio à dramaturgia: Bernardo Haumont

Assistente de encenação: Paulo Pinto

Apoio vocal: Ana Celeste Ferreira

Produção: Teatro Nacional São João

43.º Festival de Almada. Teatro Municipal Joaquim Benite, Sala Principal. Almada, 14 de julho de 2026.

Afonso Becerra

Afonso Becerra

Director da erregueté | Revista Galega de Teatro. Pertence ao seu Consello de Redacción desde o 2006. Doutor en Artes Escénicas pola Universitat Autònoma de Barcelona. Titulado Superior en Dirección escénica e dramaturxia polo Institut del Teatre de Barcelona. Titulado en Interpretación polo ITAE de Asturies. Dramaturgo e director de escena. Exerce a docencia en dramaturxia e escrita dramática na ESAD de Galiza desde o ano 2005. É colaborador, entre outras publicacións, de revistas de cultura e artes performativas como 'ARTEZBLAI', 'Primer Acto', 'Danza en escena', 'Tempos Novos', 'Grial'. Entre setembro de 2019 e xuño de 2021 foi colaborador especialista en artes escénicas da CRTVG, no programa 'ZIGZAG' da TVG. Desde setembro de 2022 é colaborador semanal sobre artes escénicas do 'DIARIO CULTURAL' da RADIO GALEGA.
Premio Álvaro Cunqueiro da Xunta de Galicia en 2001. Premio María Casares á Mellor Adaptación teatral en 2016. Premio de Honra do Festival de Teatro Galego, FETEGA, do Carballiño (Ourense) en 2020. Premio Internacional de Xornalismo Carlos Porto 2024, de prensa especializada, do Festival de Almada, organizado pola Câmara Municipal de Almada, do que tamén recibira unha Mención Honrosa en 2020.

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