Trata-se de uma montagem teatral espantosa e muito inteligente, na qual o drama trágico de Nelson Rodrigues se atualiza e se confronta, nos seus aspetos mais anacrónicos, com o presente, através de uma epicização brechtiana contemporânea.
O início faz-se com um prólogo em verso sobre o atropelamento e a vítima que, no instante imediatamente anterior à morte, pede um beijo a um “cara” (na expressão brasileira) que chegou antes de todos para lhe amparar a cabeça. O ator desce pela bancada da plateia agitando um jornal na mão — o mesmo que os assistentes de sala nos tinham distribuído à entrada, com uma manchete em letras garrafais: “O Beijo no Asfalto”. Esse primeiro narrador faz-nos a apresentação do elenco e das personagens que vão interpretar, adiantando algumas informações básicas sobre a sua psicologia, enquanto estas assomam pelas laterais do palco e da exuberante e, ao mesmo tempo, geométrica cenografia de José Capela. No final, num epílogo após o desenlace funesto, vemos atores e atrizes — sem sabermos ainda se despidos ou não das suas personagens — a dançar ao som de uma canção interpretada por uma Drag Queen barbuda. Aliás, durante toda a peça, houve também um ator com barba a interpretar personagens femininas, o que gera um contraste muito contemporâneo e queer num contexto de ficção assumidamente machista e misógino.
O elenco brasileiro é extraordinário nos dois níveis de jogo da convenção consciente metateatral utilizada. Por outras palavras, destaca-se a articulação entre os mecanismos de distanciamento — que lançam uma ironia humorística compensatória no que diz respeito à exacerbação das paixões, das situações extremas (tipo telenovela) e dos carateres extremos (a polícia e a imprensa corruptas, violentas, racistas, homofóbicas e misóginas, representadas pelo Delegado Cunha, pelo Investigador Aruba e pelo Repórter Amado Ribeiro, a par do povo coscuvilheiro, preconceituoso e ávido de sangue, representado pelas vizinhas) — e a leitura das didascálias. Esta leitura, que descreve atitudes intensas até ao exagero, ocorre enquanto os atores olham para quem lê as indicações cénicas, avaliando o desafio que o texto lhes lança e tentando executá-lo: ora editando as expressões emocionais e mantendo essa distância ou dupla articulação (como num simulacro), ora interpretando-as de maneira credível.
Assim sendo, o texto é-nos oferecido na íntegra, tal como se assinala na folha de sala. Não conheço a fundo a dramaturgia de Nelson Rodrigues, tendo apenas lido uma ou outra peça, e só me lembro de ter visto uma encenação bombástica de Anjo Negro por Frank Castorf, em 2008, no Festival Internacional de las Artes de Castela e Leão, em Salamanca (na qual o encenador alemão também misturava A Missão de Heiner Müller). Não obstante, a julgar pelo que o texto nos transmite, através da leitura das didascálias e da interpretação dos diálogos, a obra caracteriza-se por um estilo muito enfático, com situações crispadas e carateres extremos e algo planos — com exceção do núcleo das vítimas, talvez como estratégia de compensar a sua desgraça, valorizando-as ao conferir-lhes maior complexidade.
Eis o jovem protagonista negro: Arandir, casado há apenas um ano com a branca Selminha, num amor que vem desde a infância. Foi ele quem deu um beijo na boca ao jovem atropelado mesmo antes de este morrer. Um beijo de compaixão, segundo Arandir, que o próprio moribundo lhe pedira. Mas o Repórter Amado Ribeiro estava lá para aproveitar o sucedido e transformá-lo num ato criminoso: um homem casado, Arandir, que engana a mulher com outro homem, o seu amante, e que acaba por provocar o acidente e a morte deste. A outra testemunha do beijo no asfalto foi o pai de Selminha e de Dália, Aprígio, sogro de Arandir, que também utiliza os factos distorcendo-os, mas que oculta um segredo que só descobriremos no lance patético final da peça. Aliás, nesse núcleo de vítimas temos também Dália, a irmã mais nova de Selminha, que guarda igualmente um segredo. Portanto, Arandir (quase como o anti-herói da dramaturgia expressionista), Selminha, Dália e Aprígio surgem como personagens mais complexos face às forças do mal. Estas últimas são encarnadas sobretudo pela Polícia e pela Imprensa, pelos colegas de trabalho de Arandir, homófobos e violentos, e pelas restantes personagens que configuram uma sociedade asfixiante que alimenta a besta do terror — ora por vocação malévola e instinto predador, ora sob a pressão de chantagens ou por interesses sem escrúpulos.
Outra estratégia de distanciamento é constituída pelos próprios atores a moverem os cenários não realistas e a observarem, nas últimas cenas, a resolução trágica da história.
A cenografia não é realista nem propicia, portanto, um ilusionismo dramático. Pelo contrário, presta-se a favorecer um jogo teatral ágil, facilitando diferentes composições que nunca ocultam o palco — uma agilidade mais própria da comédia do que do drama, também pelas muitas portas ou painéis que servem para entrar e sair, esconder-se e aparecer. É constituída por diferentes e coloridos painéis móveis, cartazes de néon de lojas e estabelecimentos de uma grande cidade, e telas com desenhos arquitetónicos racionalistas, o que gera outro contraste com a importância dada às paixões exaltadas ou à vigilância sobre as vidas privadas e íntimas das pessoas. Por vezes, a minha sensação era a de uma selva cenográfica na qual tudo é possível.
Se esta história de terror em redor de um beijo abre muitas expectativas dramáticas, o espaço e a cenografia, na sua predominância colorida e bidimensional, parecem colocar a ação no plano da banda desenhada, relativizando e oxigenando aquele peso sentimental e trágico. Daí resulta o malabarismo de conseguir fazer-nos rir em momentos complicados, sem rebaixar a gravidade dos factos.
Em suma, estamos perante um dispositivo impressionante no qual a densidade dramática se equilibra com a nossa capacidade para julgar ou pensar até que ponto os supostos anacronismos referentes à morbidez, à homofobia, ao racismo, à misoginia, à corrupção e a outras violências que surgem na obra não continuam vigentes à nossa volta, ou cada vez mais perto, e quem as alimenta e as permite. Esta montagem de O Beijo no Asfalto parece dizer-nos: o perigo está aí, mas a qualquer momento também pode estar aqui.
(Os meus agradecimentos para Maria José Albarran Alves de Carvalho pela revisão linguística deste artigo.)
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