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SÓ MAIS UMA GAIVOTA

O quinto ato de um clássico de quatro como a sua possível quintessência

Só Mais Uma Gaivota. Foto: José Carlos Duarte
Só Mais Uma Gaivota. Foto: José Carlos Duarte

As expectativas e angústias da juventude são alvo de muitas obras artísticas, pois o tema é geracionalmente controverso e, de qualquer modo, pode despertar a empatia de qualquer pessoa que não se tenha esquecido das encruzilhadas da sua própria juventude. Além disso, não sei até que ponto esse suposto período de transição iniciática para a idade adulta se alargou, tornando as tensões relacionadas com os desejos de realização pessoal numa luta constante e sem limite de idade. Não sei. Em todo o caso, nós, profissionais e amadores do teatro, temos as nossas peças fetiche que, tal como A Gaivotade Anton Tchekhov, constituem quase um mito ou uma história exemplar.

Quando o texto não é encenado diretamente, mas utilizado como referência e base de outro texto contemporâneo, a dificuldade pode passar por alcançar a mesma eficácia junto dos espectadores que não conhecem essa referência. O que se passa com o público que não traz consigo essa atração fatal pelo nosso fetiche ou pela nossa referência marcante? Pois bem, o que se passa é que a dramaturgia, a encenação e a interpretação necessitam de nos transmitir esse entusiasmo e espanto, tal como faz Miguel Fragata em Só Mais Uma Gaivota.

Aliás, as peças de Tchekhov “são para deixar na sala de ensaios”, disse-nos o ator, citando Eduardo Coutinho e dando a entender, a meu ver, que a imensa riqueza e complexidade que esta obra suscita no processo de encenação é de tal ordem que se torna impossível para o espetáculo final contê-la e refleti-la na totalidade. Assim sendo, esta teoria serve de álibi perfeito para criar uma outra peça que retrate, precisamente, todo esse mundo intenso e extenso a que dá lugar a experiência de ensaiar um clássico com estas dimensões existenciais — sobretudo quando se trata de jovens, supostamente inexperientes, finalistas do curso de atores de uma Escola Superior, que se estreiam com a montagem de A Gaivota.

Miguel Fragata cruza o relato do processo de encenação do texto de Tchekhov — montagem com a qual terminaram o curso de teatro na ESMAE do Porto, in 2005 — com as histórias de vida dos elementos da turma, desde essa altura até hoje, vinte anos depois, refletindo sobre a distância entre os símbolos que aqueles jovens encontravam por toda a parte (os seus sonhos, desejos, a reivindicação de um “teatro novo”) e a sua realização pessoal e artística posterior.

Para o efeito, recorre a um registo documental, muito sintético e por vezes irónico, que serve para contextualizar os principais acontecimentos nacionais e internacionais que enquadram o arco temporal da peça, recorrendo a excertos de imagens icónicas em fotografia ou vídeo. Utiliza os nomes das personagens tchekhovianas para falar dos antigos colegas de turma, mostrando as coincidências e as divergências, os acasos e as decisões conscientes ao longo de um processo de ensaios que era, simultaneamente, de aprendizagem artística e existencial. Como acaba por dizer a dada altura:

“O teatro é um modo de vida com uma profissão dentro.”

Em palco, Fragata encarna uma seleção de cenas, interpretando ele próprio todas as personagens apenas com alguns traços essenciais, sem artifícios estridentes ou excessivamente teatralizados, mas transmitindo com precisão a atitude e a energia que as caracterizam. Arkádina, a famosa atriz e mãe de Konstantin, surge com um leque vermelho. Konstantin, o jovem dramaturgo que quer revolucionar o teatro, usa uns óculos escuros. Trigorin, o escritor de romances de sucesso e amante de Arkádina, usa uns óculos de leitura. Nina, a jovem filha de um proprietário rural rico, que aspira a ser atriz e é a musa de Konstantin, revela apenas gestos de autoproteção, como o ato de se abraçar a si mesma.

E assim sucessivamente, Fragata vai-nos apresentando as personagens, assinalando uma instalação cenográfica de aves — como se cada uma daquelas pessoas fosse uma delas —, interpretando-as de forma extremamente subtil. O espetáculo começa com as míticas falas do início da peça entre Medvedenko e Masha, que antecipam o tom trágico da obra através do caráter melancólico e existencial de Masha, que sofre por não ser correspondida no seu amor por Konstantin:

“Medvedenko: Porque é que andas sempre vestida de preto? Masha: Estou de luto pela minha vida. Sou infeliz.

Entre as cenas representadas, destacam-se o embate entre a mãe, a atriz consagrada Arkádina, e o filho, Konstantin, o jovem dramaturgo que ambiciona um teatro novo; a cena em que Konstantin, apaixonado por Nina, lhe deixa aos pés a gaivota que acabou de abater (representada fisicamente por três exemplares da tradução portuguesa de A Gaivota, com os quais trabalharam na montagem escolar de 2005, encenada por João Pedro Vaz); e o monólogo final de Nina, um desabafo emocional no qual a personagem reflete sobre a arte, assemelhando-se a um manifesto de sobrevivência.

Mas, talvez a mais bela de todas pelo seu jogo cénico, seja a despedida de Trigorin, o famoso escritor, e Nina, a jovem aspirante a atriz secretamente apaixonada por ele; em cena, Fragata, deitado no chão, toca suavemente na água que cobre a superfície de uma mesa baixa, gerando ondulações que evocam o lago e refletem a luz por toda a instalação cenográfica. É também introduzida a cena do brinde de toda a turma — presumivelmente no dia da estreia —, erguendo um copo de vodka e enunciando os desejos de cada um.

Além do fascínio das histórias cruzadas dos jovens da turma e do impacto que o processo de ensaios e a encenação de A Gaivota tiveram na altura, bem como das expectativas geradas pelo rumo que as suas vidas tomaram, parte da magia do espetáculo reside no carisma de Miguel Fragata. Estamos perante um ator que seduz naturalmente o público, algo que parece inato ou que constitui a estratégia para amplificar a sua presença em palco. E nós, claro, adoramos isso! Porque grande parte do magnetismo do teatro reside, sem dúvida, na sedução exercida por atores como Miguel Fragata, para lá das próprias personagens que interpretam. Creio que o afeto gerado pelo sujeito e pela sua subjetividade é ainda mais importante do que os efeitos produzidos pelo objeto artístico — neste caso, as personagens, o texto e o próprio desenho cénico da peça. Para mim, o caso de Só Mais Uma Gaivota é exemplar a este respeito.

Outro ponto digno de nota é a forma como, nos diálogos, se funde o texto com o subtexto. Antes ou depois das cenas, Fragata comenta e reflete, cruzando situações reais, pessoas e personagens. Isto porque o subtexto era o elemento crucial para os intérpretes e, naturalmente, para os protagonistas da história. Curiosamente, o resumo das relações dentro da ficção tchekhoviana serve-lhe também para explicar as dinâmicas que existiam entre os elementos da turma. E isto levanta a questão da transmissão e do contágio entre a obra artística, os seus (re)criadores e recetores, pois, em última análise, qualquer recetor/intérprete de uma obra de arte é impelido a refazê-la para a poder desfrutar em pleno.

Tudo isto numa dinâmica em que a cenografia — composta principalmente por cortinas, uma vitrina com aves empalhadas, duas mesas (uma delas com água na superfície), um microfone e um leitor de cassetes —, através das transformações operadas pelo próprio ator, confere ao espetáculo um ritmo e uma dimensão estética simbólico-lúdica encantadoras.

No final, Fragata oferece-nos o “quinto ato” de A Gaivota, aquele que não consta no original de Tchekhov e que está reservado ao destino da sua própria turma. Será o quinto ato a quintessência deste espetáculo?

Termina, assim, revelando o que aconteceu vinte anos mais tarde aos seus antigos colegas, avaliando a sua realização pessoal e profissional à luz dos sonhos que alimentavam quando terminaram aquela etapa tão importante. Este quinto ato é a própria vida: surpreendente apenas até certo ponto e, acima de tudo, profundamente credível e reconhecível, dada a proximidade do contexto de possibilidades e conquistas reais.

Só Mais Uma Gaivota também me levou a pensar nos meus próprios colegas de turma, nas voltas que a vida dá e em como, para lá de quaisquer planos e projetos, somos a soma de todas as ficções que fomos habitando e digerindo ao longo do tempo.

(Os meus agradecimentos para Maria José Albarran Alves de Carvalho pela revisão linguística deste artigo.)

Afonso Becerra
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Só Mais Uma Gaivota

Texto: Inês Barahona e Miguel Fragata, com excertos de A Gaivota de Anton Tchékhov, na tradução de Fiama Hasse Pais Brandão

Encenação e interpretação: Miguel Fragata

Música original: Hélder Gonçalves, exceto Love Will Tear Us Apart (Ian Curtis, Peter Hook, Stephen Morris, Bernard Summer), interpretada por Hélder Gonçalves

Cenografia: Fernando Ribeiro

Figurinos: José António Tenente

Desenho de Luz: Rui Monteiro

Desenho de som: Nelson Carvalho

Assistência de encenação e direção de cena: Beatriz Brito

Produção executiva: Luna Rebelo e Sofia Bernardo

Produção: Formiga Atómica

Coprodução: CCB – Centro Cultural de Belém, CAAA – Centro para os Assuntos da Arte e Arquitectura, Centro Cultural de Lagos, RTP – Rádio e Televisão de Portugal, Teatro Municipal de Matosinhos Constantino Nery, Teatro Ribeiro Conceição, Teatro Sá da Bandeira – Santarém e Théâtre du Point du Jour

43.º Festival de Almada. Fórum Municipal Romeu Correia, Auditório Fernando Lopes-Graça. Almada, 13 de julho de 2026.

Afonso Becerra

Afonso Becerra

Director da erregueté | Revista Galega de Teatro. Pertence ao seu Consello de Redacción desde o 2006. Doutor en Artes Escénicas pola Universitat Autònoma de Barcelona. Titulado Superior en Dirección escénica e dramaturxia polo Institut del Teatre de Barcelona. Titulado en Interpretación polo ITAE de Asturies. Dramaturgo e director de escena. Exerce a docencia en dramaturxia e escrita dramática na ESAD de Galiza desde o ano 2005. É colaborador, entre outras publicacións, de revistas de cultura e artes performativas como 'ARTEZBLAI', 'Primer Acto', 'Danza en escena', 'Tempos Novos', 'Grial'. Entre setembro de 2019 e xuño de 2021 foi colaborador especialista en artes escénicas da CRTVG, no programa 'ZIGZAG' da TVG. Desde setembro de 2022 é colaborador semanal sobre artes escénicas do 'DIARIO CULTURAL' da RADIO GALEGA.
Premio Álvaro Cunqueiro da Xunta de Galicia en 2001. Premio María Casares á Mellor Adaptación teatral en 2016. Premio de Honra do Festival de Teatro Galego, FETEGA, do Carballiño (Ourense) en 2020. Premio Internacional de Xornalismo Carlos Porto 2024, de prensa especializada, do Festival de Almada, organizado pola Câmara Municipal de Almada, do que tamén recibira unha Mención Honrosa en 2020.

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La lettre. Foto: Cristophe Raynaud de Lage

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