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LA MOUETTE de Anton Tchekhov

O futuro em questão?

La Mouette. Foto: Théâtre Studio
La Mouette. Foto: Théâtre Studio

O espetáculo que fechou o 43.º Festival de Almada foi La Mouette (A Gaivota), de Anton Tchekhov, pelo Théâtre Studio (França), na tradução francesa de Elsa Triolet e com encenação de Christian Benedetti. Tratou-se de um fecho muito simbólico no que diz respeito a uma edição do Festival marcada pelo signo tchekhoviano instituído pelas tensões que esta peça abre, relativas a uma revolução que aponta para o fracasso, a afogar-se nos seus próprios meios. A Gaivota, entre outras fragilidades, interpela-nos sobre a impossibilidade de as novas gerações atingirem os seus desejos de realização e sobre as possibilidades de mudar o teatro, sendo este a metáfora do mundo. Trata-se, em parte, de um drama sobre a experiência de vidas malgastadas e de sonhos de futuro esvaziados.

Christian Benedetti oferece-nos uma encenação realista nas interpretações do elenco, sem fazer um exercício de historização, sem levar-nos, como fez Peter Stein em Platónov, a uma recriação histórica da época através da caracterização das personagens e da evocação dos espaços. Porém, a contemporaneidade da versão de Benedetti não se deve apenas ao facto de as personagens vestirem tal e qual veste hoje em dia a classe média europeia, mas também à velocidade da dicção ao tentar reproduzir as ansiedades e os tempos acelerados da era digital e da produção e consumo compulsivos. No entanto, as malas para a viagem – anteriores à época da revolução digital –, assim como outros adereços e a ausência de computadores, telemóveis ou de qualquer outro dispositivo eletrónico dentro da ficção cénica, não apoiariam esta minha teoria sobre a localização temporal atual.

Ainda assim, a encenação foge de qualquer vestígio de declamação e da rendição rítmica à melancolia atribuída à obra do dramaturgo russo, surpreendendo-nos com essa maneira acelerada de dizer as falas, consoante a velocidade despoletada pelas comunicações atuais e a impaciência daí derivada.

Hoje em dia, na velocidade em que vivemos, não somos capazes de respirar profundamente nem de articular frases longas e complexas, habituados à frase curta e sem o tempo necessário para cuidar de nada. Eis um dos sintomas da ansiedade imperante que nos consome e que pode encontrar o correlato paradoxal naqueles tempos demorados e naquelas falas extensas de A Gaivota. Uma contradição bem curiosa!

Apesar do realismo na interpretação das personagens e na assunção das situações dramáticas, Benedetti não mascara o palco nem o próprio jogo teatral. Assim, nas transições entre cenas e atos, podemos ver os próprios atores a deslocar os móveis e adereços e a reconfigurar o espaço. Por um lado, trata-se de um realismo que ativa a convenção da quarta parede; por outro lado, há uma contradição flagrante, porque mantém a luz na plateia como se quisesse abolir a imersão emocional do espectador, como se estivesse à procura de que estejamos muito acordados e cientes da dimensão metafórica (artística) do dispositivo de ficção. Na folha de sala lê-se: “Optei por iluminar a sala. O espectador não é apenas aquele que olha, mas um parceiro que participa na história que está a desenrolar-se, na mesma temporalidade. Não só mudar a forma de fazer, mas tentar mudar a forma de olhar.”

Mas, se calhar, essa pretendida distância ou separação necessária para que as imagens não nos submetam emocionalmente e possamos emancipar-nos delas, extraindo-lhes luz e conhecimento, não acabou por funcionar plenamente na última noite do 43.º Festival de Almada. No Palco Grande da Escola D. António da Costa, a essa intenção chegava em simultâneo o ruído dos ecrãs gigantes a pregoar o penúltimo jogo do Mundial de Futebol. Se calhar, essa mistura de um realismo muito credível na interpretação das personagens, nas situações comprometidas e angustiantes em que se encontram, em contraposição com a velocidade na dicção — que parece retirar importância à gravidade do que lhes acontece —, a luz da sala e os ruídos do espetáculo hegemónico do Mundial de Futebol acabaram por diluir um pouco a potência deste clássico.

Se calhar, até tinha razão Miguel Fragata quando afirmava ironicamente em Só Mais Uma Gaivota, a citar Eduardo Coutinho: “As peças de Tchekhov são para deixar no local de ensaios”. Também acho que dizia tratar-se de uma peça sobre o que não acontece. Do meu ponto de vista, foi, curiosamente, nesta proposta da Formiga Atómica e em Ansioliticamente Falando, da Razões Pessoais de Raquel Castro, onde me encontrei perante a experiência mais parecida com aquilo que sinto que vibra, impressionante, no texto de A Gaivota de Anton Tchekhov. E isso, a mim – e quiçá também a alguns outros espectadores que foram abandonando o teatro na noite de 18 de julho – não me aconteceu com La Mouette do Théâtre Studio.

(Os meus agradecimentos para Maria José Albarran Alves de Carvalho pela revisão linguística deste artigo.)

Afonso Becerra
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LA MOUETTE

Texto: Anton Tchekhov

Tradução: Elsa Triolet

Encenação: Christian Benedetti

Intérpretes: Brigitte Barilley, Christian Benedetti, Leslie Bouchet, Julien Bouanich, Olivia Brunaux, Thomas Chimot, Philippe Crubézy, Daniel Delabesse, Alain Dumas, Florent Masse, Hélène Stadnicki

Adaptação da tradução de Elsa Triolet (versão 1895): Brigitte Barilley e Laurent Huon

Assistência de encenação: Salomé Lemire

Produção: Théâtre Studio

43.º Festival de Almada. Palco Grande, Escola D. António da Costa. Almada, 18 de julho de 2026.

Afonso Becerra

Afonso Becerra

Director da erregueté | Revista Galega de Teatro. Pertence ao seu Consello de Redacción desde o 2006. Doutor en Artes Escénicas pola Universitat Autònoma de Barcelona. Titulado Superior en Dirección escénica e dramaturxia polo Institut del Teatre de Barcelona. Titulado en Interpretación polo ITAE de Asturies. Dramaturgo e director de escena. Exerce a docencia en dramaturxia e escrita dramática na ESAD de Galiza desde o ano 2005. É colaborador, entre outras publicacións, de revistas de cultura e artes performativas como 'ARTEZBLAI', 'Primer Acto', 'Danza en escena', 'Tempos Novos', 'Grial'. Entre setembro de 2019 e xuño de 2021 foi colaborador especialista en artes escénicas da CRTVG, no programa 'ZIGZAG' da TVG. Desde setembro de 2022 é colaborador semanal sobre artes escénicas do 'DIARIO CULTURAL' da RADIO GALEGA.
Premio Álvaro Cunqueiro da Xunta de Galicia en 2001. Premio María Casares á Mellor Adaptación teatral en 2016. Premio de Honra do Festival de Teatro Galego, FETEGA, do Carballiño (Ourense) en 2020. Premio Internacional de Xornalismo Carlos Porto 2024, de prensa especializada, do Festival de Almada, organizado pola Câmara Municipal de Almada, do que tamén recibira unha Mención Honrosa en 2020.

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