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Entre Hamlet e D. João, o Platónov de Peter Stein

PLATÓNOV de Tieffe Teatro - Teatro Menotti Milano. Peter Stein. Foto: Manuela Giusto
PLATÓNOV de Tieffe Teatro - Teatro Menotti Milano. Peter Stein. Foto: Manuela Giusto

Não é assim tão fácil, hoje em dia, poder assistir a uma peça de teatro que dure cinco horas e que não caia em zonas que pareçam de recheio. Não é nada fácil sair de um espetáculo de teatro de cinco horas sem pensar que se podia “contar” o mesmo em menos tempo e que sobravam muitas coisas. Não é nada fácil aguentar cinco horas, desde as 16h até às 21h, sem se aborrecer um só momento e sem pensar noutros assuntos. Por isso, este Platónov de Anton Tchékhov, na tradução e adaptação de Peter Stein e Carlo Bellamio, é um evento excecional. Por um lado, o risco é mais do que evidente, mas, por outro, tratando-se de um mestre consagrado como Stein (1937), com uma experiência de quase seis décadas — e que já tinha feito a encenação de Faust I & II, com uma duração de 21 horas durante a Expo de Hanôver no ano 2000 —, as garantias são altas.

Em todo o caso, trata-se de uma encenação em que a duração total do espetáculo (5 horas com intervalo de 20 min) desafia os tempos cada vez mais breves e rápidos da vida atual, baseada na produção e no consumo acelerados. Aliás, também não é que este Platónov faça do tempo o tema ou o objeto de análise; simplesmente, concede o tempo necessário para que a ação e as personagens que a encarnam alcancem a dimensão, o peso e o valor que merecem para serem críveis, para chegarem a tocar-nos e emocionar-nos, para despertar a nossa compaixão, a nossa simpatia e compreensão, sem fulminar o seu mistério.

Pelo lado do drama, Stein confronta-nos com o aprofundamento existencial através de uma continuidade cumprida e extensa, face à fragmentação e ao retorno rápido promovidos pela tecnologia e pelo mundo digital virtual: as stories e os reels de apenas um minuto das redes sociais, ou as mensagens muito sintéticas através do WhatsApp, etc.

Com esta continuidade cumprida, Stein permite que todas as personagens, até mesmo as que parecem secundárias, se possam desenvolver na sua complexidade e mistério. O elenco é excecional. Por um lado, estão os contrastes dentro de cada personagem, as luzes e as sombras. Por outro lado, está a orquestração dramatúrgica dos contrastes entre as personagens, que oferecem uma galeria bem completa de diferentes atitudes. Aliás, esta encenação também lhes permite ter o tempo necessário para se debruçarem sobre conversas reflexivas, irónicas, azedas, apaixonadas e até filosóficas.

Entre um existencialismo hamletiano, com citações diretas de Shakespeare, e o hedonismo, sedução irresistível e irrefreável de um D. João, Platónov é uma personagem cheia de energia contagiante, atração, espírito lúdico e festivo. A sua excentricidade e o seu carácter jovial, irónico e até cínico em alguns momentos, resultam explosivos nesse contexto onde toda a população se rege por normas e costumes muito restritivos.

Platónov é o ponto fraco de todas as mulheres que estão à sua volta. Há uma espécie de sedução irresistível que, evidentemente, vai além da sua beleza física. Ele é como uma droga que gera dependência. Também os seus amigos ficam presos nessa influência perturbadora. Mas nele não há maldade, nem a vontade de fazer mal a ninguém. Ele mesmo é a primeira vítima de si próprio, do desencanto que lhe pode produzir a vida que leva, da falta de realização pessoal, como se não tivesse sido capaz de estar à altura das suas próprias expectativas.

Nesta versão, agradecemos a ótima gestão rítmica nas tensões dramáticas originadas nos conflitos entre as personagens, e reforçada por interpretações que dão ênfase ao vitalismo e à graça. As atrizes e os atores nunca caem no cliché da desmotivação ou dos sublinhados do dramático como categoria. Ao contrário, imprimem nos seus papéis o nervo e o ritmo ágil e animado da comédia, embora esta possa acabar por ser um disfarce ou uma maneira de tapar o descontentamento e as frustrações. Todos tentam, tal como nós, pôr a melhor cara possível.

O próprio Platónov é o rei da diversão. Só no final sucumbe e acaba por ser castigado porque foi demasiado livre e porque não controlou os seus impulsos, ora por inconsciência, ora pela atenuante do álcool. O facto de querer contentar todas as pessoas e a si próprio, transgredindo alguns dos limites éticos e morais, vai acabar por dar cabo de si. Neste sentido, quase como numa tragédia sem herói, aquele que desafiou os limites acaba por ser castigado.

 

(Os meus agradecimentos para Maria José Albarran Alves de Carvalho pela revisão linguística deste artigo.)

Afonso Becerra

Platónov

Autor: Anton Tchékhov

Encenação: Peter Stein

Intérpretes: Alessandro Averone, Maddalena Crippa, Sergio Basile, Gianluigi Fogacci, Andrea Nicolini, Francesco Santagada, Maria Chiara Centorami, Odette Piscitelli, Alessandro Sampaoli, Emilia Scatigno, Tommaso Garrè, Davide Lorino, Sebastian Gimelli Morosini, Giulio Petushi, Paola Giorgi

Assistência de Encenação: Carlo Bellamio

Adereços: Anna Maria Heinreich

Cenário: Ferdinand Woegerbauer

Luz: Mattia De Pace

Produção: Tieffe Teatro – Teatro Menotti Milano

Coprodução: Fondazione Teatro di Roma, Teatro Stabile di Catania, Teatro Biondo Stabile di Palermo

43º Festival de Almada. Teatro Municipal Joaquim Benite, 6 de julho de 2026.

Afonso Becerra

Afonso Becerra

Director da erregueté | Revista Galega de Teatro. Pertence ao seu Consello de Redacción desde o 2006. Doutor en Artes Escénicas pola Universitat Autònoma de Barcelona. Titulado Superior en Dirección escénica e dramaturxia polo Institut del Teatre de Barcelona. Titulado en Interpretación polo ITAE de Asturies. Dramaturgo e director de escena. Exerce a docencia en dramaturxia e escrita dramática na ESAD de Galiza desde o ano 2005. É colaborador, entre outras publicacións, de revistas de cultura e artes performativas como 'ARTEZBLAI', 'Primer Acto', 'Danza en escena', 'Tempos Novos', 'Grial'. Entre setembro de 2019 e xuño de 2021 foi colaborador especialista en artes escénicas da CRTVG, no programa 'ZIGZAG' da TVG. Desde setembro de 2022 é colaborador semanal sobre artes escénicas do 'DIARIO CULTURAL' da RADIO GALEGA.
Premio Álvaro Cunqueiro da Xunta de Galicia en 2001. Premio María Casares á Mellor Adaptación teatral en 2016. Premio de Honra do Festival de Teatro Galego, FETEGA, do Carballiño (Ourense) en 2020. Premio Internacional de Xornalismo Carlos Porto 2024, de prensa especializada, do Festival de Almada, organizado pola Câmara Municipal de Almada, do que tamén recibira unha Mención Honrosa en 2020.

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