Não é assim tão fácil, hoje em dia, poder assistir a uma peça de teatro que dure cinco horas e que não caia em zonas que pareçam de recheio. Não é nada fácil sair de um espetáculo de teatro de cinco horas sem pensar que se podia “contar” o mesmo em menos tempo e que sobravam muitas coisas. Não é nada fácil aguentar cinco horas, desde as 16h até às 21h, sem se aborrecer um só momento e sem pensar noutros assuntos. Por isso, este Platónov de Anton Tchékhov, na tradução e adaptação de Peter Stein e Carlo Bellamio, é um evento excecional. Por um lado, o risco é mais do que evidente, mas, por outro, tratando-se de um mestre consagrado como Stein (1937), com uma experiência de quase seis décadas — e que já tinha feito a encenação de Faust I & II, com uma duração de 21 horas durante a Expo de Hanôver no ano 2000 —, as garantias são altas.
Em todo o caso, trata-se de uma encenação em que a duração total do espetáculo (5 horas com intervalo de 20 min) desafia os tempos cada vez mais breves e rápidos da vida atual, baseada na produção e no consumo acelerados. Aliás, também não é que este Platónov faça do tempo o tema ou o objeto de análise; simplesmente, concede o tempo necessário para que a ação e as personagens que a encarnam alcancem a dimensão, o peso e o valor que merecem para serem críveis, para chegarem a tocar-nos e emocionar-nos, para despertar a nossa compaixão, a nossa simpatia e compreensão, sem fulminar o seu mistério.
Pelo lado do drama, Stein confronta-nos com o aprofundamento existencial através de uma continuidade cumprida e extensa, face à fragmentação e ao retorno rápido promovidos pela tecnologia e pelo mundo digital virtual: as stories e os reels de apenas um minuto das redes sociais, ou as mensagens muito sintéticas através do WhatsApp, etc.
Com esta continuidade cumprida, Stein permite que todas as personagens, até mesmo as que parecem secundárias, se possam desenvolver na sua complexidade e mistério. O elenco é excecional. Por um lado, estão os contrastes dentro de cada personagem, as luzes e as sombras. Por outro lado, está a orquestração dramatúrgica dos contrastes entre as personagens, que oferecem uma galeria bem completa de diferentes atitudes. Aliás, esta encenação também lhes permite ter o tempo necessário para se debruçarem sobre conversas reflexivas, irónicas, azedas, apaixonadas e até filosóficas.
Entre um existencialismo hamletiano, com citações diretas de Shakespeare, e o hedonismo, sedução irresistível e irrefreável de um D. João, Platónov é uma personagem cheia de energia contagiante, atração, espírito lúdico e festivo. A sua excentricidade e o seu carácter jovial, irónico e até cínico em alguns momentos, resultam explosivos nesse contexto onde toda a população se rege por normas e costumes muito restritivos.
Platónov é o ponto fraco de todas as mulheres que estão à sua volta. Há uma espécie de sedução irresistível que, evidentemente, vai além da sua beleza física. Ele é como uma droga que gera dependência. Também os seus amigos ficam presos nessa influência perturbadora. Mas nele não há maldade, nem a vontade de fazer mal a ninguém. Ele mesmo é a primeira vítima de si próprio, do desencanto que lhe pode produzir a vida que leva, da falta de realização pessoal, como se não tivesse sido capaz de estar à altura das suas próprias expectativas.
Nesta versão, agradecemos a ótima gestão rítmica nas tensões dramáticas originadas nos conflitos entre as personagens, e reforçada por interpretações que dão ênfase ao vitalismo e à graça. As atrizes e os atores nunca caem no cliché da desmotivação ou dos sublinhados do dramático como categoria. Ao contrário, imprimem nos seus papéis o nervo e o ritmo ágil e animado da comédia, embora esta possa acabar por ser um disfarce ou uma maneira de tapar o descontentamento e as frustrações. Todos tentam, tal como nós, pôr a melhor cara possível.
O próprio Platónov é o rei da diversão. Só no final sucumbe e acaba por ser castigado porque foi demasiado livre e porque não controlou os seus impulsos, ora por inconsciência, ora pela atenuante do álcool. O facto de querer contentar todas as pessoas e a si próprio, transgredindo alguns dos limites éticos e morais, vai acabar por dar cabo de si. Neste sentido, quase como numa tragédia sem herói, aquele que desafiou os limites acaba por ser castigado.
(Os meus agradecimentos para Maria José Albarran Alves de Carvalho pela revisão linguística deste artigo.)
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