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EL REY DE LA FARÁNDULA

Tudo passa. Ficam os artistas

Foto: Javier Naval
Foto: Javier Naval

Ángel Ruiz tem a arte de cativar o grande público com espetáculos que abordam temas e personagens polémicas. O seu magnetismo pessoal e a sua versatilidade para interpretar de maneira realista, num vis-à-vis com os espectadores — ao mesmo tempo que canta e dança —, fazem parte dessa arte.

Ainda nos lembramos do seu MIGUEL DE MOLINA AL DESNUDO; agora, surge com este cabaré que evoca o século XVII espanhol, o chamado Século de Ouro pelo esplendor da literatura teatral e das artes. Segundo se depreende de EL REY DE LA FARÁNDULA, este período esteve intimamente ligado à promoção e ao apoio do rei Filipe IV de Espanha (e III de Portugal), de quem o ator, travestido de diva teatral da época, nos confessa ter sido amante secreto. A partir daí, desfia o relato das intrigas de palácio, das aventuras erótico-festivas do monarca e do seu gosto pelo teatro, pela pintura e pelas artes.

Num tom, por vezes, coscuvilheiro e divertido, ficamos a saber não só pormenores sobre os comediantes e artistas da época e sobre a figura histórica controversa deste monarca, mas também sobre o esplendor do seu império e o seu declínio devido às guerras, à corrupção endémica e à dupla vida das elites do momento — que, porventura, não seriam muito diferentes das de agora.

Entre as delícias e os contrastes no discurso desta diva teatral está a inclusão de excertos do monólogo de Segismundo de La Vida Es Sueño, de Calderón de la Barca, de Laurencia de Fuenteovejuna, de Lope de Vega, e de outras pérolas de referência que muito público consegue reconhecer e até recitar de cor com grande prazer:

“Sueña el rey que es rey, y vive

con este engaño mandando,

disponiendo y gobernando;

y este aplauso que recibe

prestado en el viento escribe,

y en cenizas le convierte

la muerte (¡desdicha fuerte!);

[…]

¿Qué es la vida? Un frenesí.

¿Qué es la vida? Una ilusión,

una sombra, una ficción,

y el mayor bien es pequeño;

que toda la vida es sueño,

y los sueños, sueños son.”

EL REY DE LA FARÁNDULA também, em certo sentido, é como um sonho e uma viagem no tempo. E as personagens, metáfora das pessoas, se calhar, também são isso mesmo: um relato, um sonho, uma ficção.

Entre os artistas citados, inclui o nome de mulheres que foram apagadas da História (com maiúscula), como María Calderón, popularmente conhecida como La Calderona, que foi uma das atrizes e cantoras mais famosas e controversas do Século de Ouro espanhol. Amante de Filipe IV, diz-se que teve com ele o filho bastardo Juan José de Austria, o único reconhecido pelo monarca, embora a nossa diva ironize com o facto de este ser o único dos muitos filhos bastardos atribuídos que não se parecia nada com Filipe IV — e que acabou por “dar cabo” do império do suposto pai.

O duo, interpretado por Ángel Ruiz e Bru Ferri — a diva e a sua acompanhante ao piano —, acorda, depois de quatro séculos silenciado, na noite de 16 de julho de 2026, no Festival de Almada, para nos cantar e contar as suas aventuras com o rei, uma das figuras mais poderosas da época, mas também um erotómano e um promotor e benfeitor sem igual de todas as artes, incluindo o teatro.

Neste duo também brilha enormemente Bru Ferri, a tocar piano, a cantar e a gerar efeitos sonoros surpreendentes para ambientar algumas cenas. Ele interpreta Dixelia, personagem disléxica inventada pelo ator e dramaturgo protagonista do século XVII, em jeito de graça e honra a todas as gralhas e lapsos que os atores costumam cometer. Porque este espetáculo também é uma homenagem e um ato de empoderamento dos artistas.

De facto, depois dos números musicais sobre o “Don Dinero” e das canções de amor, com músicas renascentistas e barrocas em estilo cabaré, a peça termina com uma letra exemplar na qual nos mostra como tudo passa, mas ficam os artistas — numa canção de Enrique Pinti (1939-2022), ator de café-concerto, intitulada em castelhano “Quedan los artistas” (Ficam os artistas). Essa foi também a letra escolhida por Rodrigo Francisco, diretor do Festival de Almada, para a última “Folha Informativa Nº 15” desta 43.ª edição de 2026:

“Passam os anos, passam os governos,

os radicais, os peronistas,

passam os Verões, passam os Invernos:

Ficam os artistas.

Passam as crises, passam as guerras,

passa a imprensa sensacionalista,

as proibições, as listas negras:

Ficam os artistas.

Passa a beleza e a juventude,

os otimistas e os pessimistas,

passam as pestes, passa a saúde:

Ficam os artistas.

Passam os mecenas, passam os censores,

passam hipócritas e moralistas,

tempos piores, tempos melhores:

Ficam os artistas.”

Em resumo, estamos perante uma dupla extraordinária que encarna duas artistas mulheres do século XVII: a pianista e cantora (interpretada por Bru Ferri) e a diva (interpretada pelo ator e criador cénico homossexual do século XVII que, por sua vez, é interpretado pelo portentoso Ángel Ruiz). Uma viagem no tempo que nos interpela, com enorme divertimento, sobre o presente.

Aliás, EL REY DE LA FARÁNDULA conseguiu 126 votos, dos mais de quinhentos emitidos pelos espectadores na última noite do Festival, vencendo assim o Prémio do Público.

(Os meus agradecimentos para Maria José Albarran Alves de Carvalho pela revisão linguística deste artigo.)

Afonso Becerra
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EL REY DE LA FARÁNDULA

Dramaturgia, encenação e interpretação: Ángel Ruiz

Direção musical e piano: Bru Ferri

Assistente de encenação: Daniel Migueláñez

Figurinos: Almudena Rodríguez Huertas

Desenho de luz: Rodrigo Ortega

Cenografia: Beatriz San Juan, Arantxa López Melero

Som: Kike Mingo

Produção executiva: Rocío Peláez

Direção técnica: Daniel Alcaraz

Direção de produção: Miguel Cuerdo

Produção: La Zona

43º Festival de Almada. Palco Grande, Escola D. António da Costa. Almada, 16 de julho de 2026.

Afonso Becerra

Afonso Becerra

Director da erregueté | Revista Galega de Teatro. Pertence ao seu Consello de Redacción desde o 2006. Doutor en Artes Escénicas pola Universitat Autònoma de Barcelona. Titulado Superior en Dirección escénica e dramaturxia polo Institut del Teatre de Barcelona. Titulado en Interpretación polo ITAE de Asturies. Dramaturgo e director de escena. Exerce a docencia en dramaturxia e escrita dramática na ESAD de Galiza desde o ano 2005. É colaborador, entre outras publicacións, de revistas de cultura e artes performativas como 'ARTEZBLAI', 'Primer Acto', 'Danza en escena', 'Tempos Novos', 'Grial'. Entre setembro de 2019 e xuño de 2021 foi colaborador especialista en artes escénicas da CRTVG, no programa 'ZIGZAG' da TVG. Desde setembro de 2022 é colaborador semanal sobre artes escénicas do 'DIARIO CULTURAL' da RADIO GALEGA.
Premio Álvaro Cunqueiro da Xunta de Galicia en 2001. Premio María Casares á Mellor Adaptación teatral en 2016. Premio de Honra do Festival de Teatro Galego, FETEGA, do Carballiño (Ourense) en 2020. Premio Internacional de Xornalismo Carlos Porto 2024, de prensa especializada, do Festival de Almada, organizado pola Câmara Municipal de Almada, do que tamén recibira unha Mención Honrosa en 2020.

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