Ángel Ruiz tem a arte de cativar o grande público com espetáculos que abordam temas e personagens polémicas. O seu magnetismo pessoal e a sua versatilidade para interpretar de maneira realista, num vis-à-vis com os espectadores — ao mesmo tempo que canta e dança —, fazem parte dessa arte.
Ainda nos lembramos do seu MIGUEL DE MOLINA AL DESNUDO; agora, surge com este cabaré que evoca o século XVII espanhol, o chamado Século de Ouro pelo esplendor da literatura teatral e das artes. Segundo se depreende de EL REY DE LA FARÁNDULA, este período esteve intimamente ligado à promoção e ao apoio do rei Filipe IV de Espanha (e III de Portugal), de quem o ator, travestido de diva teatral da época, nos confessa ter sido amante secreto. A partir daí, desfia o relato das intrigas de palácio, das aventuras erótico-festivas do monarca e do seu gosto pelo teatro, pela pintura e pelas artes.
Num tom, por vezes, coscuvilheiro e divertido, ficamos a saber não só pormenores sobre os comediantes e artistas da época e sobre a figura histórica controversa deste monarca, mas também sobre o esplendor do seu império e o seu declínio devido às guerras, à corrupção endémica e à dupla vida das elites do momento — que, porventura, não seriam muito diferentes das de agora.
Entre as delícias e os contrastes no discurso desta diva teatral está a inclusão de excertos do monólogo de Segismundo de La Vida Es Sueño, de Calderón de la Barca, de Laurencia de Fuenteovejuna, de Lope de Vega, e de outras pérolas de referência que muito público consegue reconhecer e até recitar de cor com grande prazer:
“Sueña el rey que es rey, y vive
con este engaño mandando,
disponiendo y gobernando;
y este aplauso que recibe
prestado en el viento escribe,
y en cenizas le convierte
la muerte (¡desdicha fuerte!);
[…]
¿Qué es la vida? Un frenesí.
¿Qué es la vida? Una ilusión,
una sombra, una ficción,
y el mayor bien es pequeño;
que toda la vida es sueño,
y los sueños, sueños son.”
EL REY DE LA FARÁNDULA também, em certo sentido, é como um sonho e uma viagem no tempo. E as personagens, metáfora das pessoas, se calhar, também são isso mesmo: um relato, um sonho, uma ficção.
Entre os artistas citados, inclui o nome de mulheres que foram apagadas da História (com maiúscula), como María Calderón, popularmente conhecida como La Calderona, que foi uma das atrizes e cantoras mais famosas e controversas do Século de Ouro espanhol. Amante de Filipe IV, diz-se que teve com ele o filho bastardo Juan José de Austria, o único reconhecido pelo monarca, embora a nossa diva ironize com o facto de este ser o único dos muitos filhos bastardos atribuídos que não se parecia nada com Filipe IV — e que acabou por “dar cabo” do império do suposto pai.
O duo, interpretado por Ángel Ruiz e Bru Ferri — a diva e a sua acompanhante ao piano —, acorda, depois de quatro séculos silenciado, na noite de 16 de julho de 2026, no Festival de Almada, para nos cantar e contar as suas aventuras com o rei, uma das figuras mais poderosas da época, mas também um erotómano e um promotor e benfeitor sem igual de todas as artes, incluindo o teatro.
Neste duo também brilha enormemente Bru Ferri, a tocar piano, a cantar e a gerar efeitos sonoros surpreendentes para ambientar algumas cenas. Ele interpreta Dixelia, personagem disléxica inventada pelo ator e dramaturgo protagonista do século XVII, em jeito de graça e honra a todas as gralhas e lapsos que os atores costumam cometer. Porque este espetáculo também é uma homenagem e um ato de empoderamento dos artistas.
De facto, depois dos números musicais sobre o “Don Dinero” e das canções de amor, com músicas renascentistas e barrocas em estilo cabaré, a peça termina com uma letra exemplar na qual nos mostra como tudo passa, mas ficam os artistas — numa canção de Enrique Pinti (1939-2022), ator de café-concerto, intitulada em castelhano “Quedan los artistas” (Ficam os artistas). Essa foi também a letra escolhida por Rodrigo Francisco, diretor do Festival de Almada, para a última “Folha Informativa Nº 15” desta 43.ª edição de 2026:
“Passam os anos, passam os governos,
os radicais, os peronistas,
passam os Verões, passam os Invernos:
Ficam os artistas.
Passam as crises, passam as guerras,
passa a imprensa sensacionalista,
as proibições, as listas negras:
Ficam os artistas.
Passa a beleza e a juventude,
os otimistas e os pessimistas,
passam as pestes, passa a saúde:
Ficam os artistas.
Passam os mecenas, passam os censores,
passam hipócritas e moralistas,
tempos piores, tempos melhores:
Ficam os artistas.”
Em resumo, estamos perante uma dupla extraordinária que encarna duas artistas mulheres do século XVII: a pianista e cantora (interpretada por Bru Ferri) e a diva (interpretada pelo ator e criador cénico homossexual do século XVII que, por sua vez, é interpretado pelo portentoso Ángel Ruiz). Uma viagem no tempo que nos interpela, com enorme divertimento, sobre o presente.
Aliás, EL REY DE LA FARÁNDULA conseguiu 126 votos, dos mais de quinhentos emitidos pelos espectadores na última noite do Festival, vencendo assim o Prémio do Público.
(Os meus agradecimentos para Maria José Albarran Alves de Carvalho pela revisão linguística deste artigo.)
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