É um luxo poder ver um espetáculo como este, de um humor estranho e absurdo, pleno de sentido na sua dimensão mais alegórica, feita de elementos, ações e adereços simbólicos. Trata-se de um humor que se constrói com a musicalização da ação cénica, através de canções e de diálogos entre a voz falada — a meio caminho, às vezes, da não articulação vocal, virada para a performance de uma língua inventada que não age pelo ato locutório, mas que aponta sentidos nos atos ilocutórios e perlocutórios (por outras palavras, no fazer ao dizer e no produzir efeitos e afetos) — e de falas fragmentárias que desafiam, desviam ou pervertem as lógicas quotidianas da comunicação, precisamente para colocar o foco no circo e na comicidade das nossas tentativas de nos entendermos. Nem sequer no topo somos capazes de comunicar.
Aliás, a musicalização passa para o movimento dos corpos, para a sua gestualidade e para as expressões faciais. Os rostos das atrizes e dos atores aqui também são um teatro em si próprios, ora a trabalharem sobre uma neutralidade pretensamente fria e desumana, ora sobre uma deformação mímica quase expressionista.
Assim sendo, encontramo-nos perante uma comunidade formada por seis pessoas anónimas, de idades, fisionomias e até idiomas muito diferentes, que vão entrando naquela casa onde mora, literalmente, o cume de uma montanha (será uma montanha sagrada ou o símbolo do ponto mais alto a que podemos aspirar?). Acedem a esse espaço através de um monta-cargas situado ao fundo dessa casa com uma só divisão, sendo precedidas, surpreendentemente, pela efigie da Mona Lisa, de Leonardo da Vinci, e pelo seu sorriso enigmático. Primeiro surgem com o traje regional tradicional da Suíça ou dos países alpinos; depois, nas diferentes passagens do espetáculo, vão mudando de roupa, transformando-se em personagens que vestem de etiqueta, tal qual numa cimeira de primeiros-ministros ou numa reunião de pessoas ricas; ficam nus, apenas com uma toalha, quando a rocha do cume começa a aquecer e aquilo passa a ser uma sauna; vestem uma espécie de fato-macaco, como se fossem de uma organização espacial ou especial; etc. Finalmente, o cume começa a ter frio e, então, tapam-no com mantas e com peças de roupa, como se fosse uma criança, e cantam-lhe uma canção de embalar.
A dada altura, a ação sonora fez-nos sentir dois helicópteros que passaram muito perto da casa do cume, com grande estrondo, em diferentes momentos, e que acabaram por explodir. Também sentimos outro que faz descer um carregamento de extintores insufláveis para brincar e algo parecido com uma cabeça monstruosa.
Assim sendo, estamos perante ações de rentabilidade simbólica que abrem muitas perguntas sem resposta, semeando um terreno de indeterminação em que a frieza extrema se erige em recurso cómico surpreendente e muito inovador. A frieza, a brincar consigo própria, acaba por alcançar – na exatidão coreográfica, gestual e vocal, no caráter estranho ou paródico das situações apresentadas, e na ritmização da interpretação – o aquecimento caloroso e simpático da comicidade. Mas trata-se de uma comicidade desafiante, tanto na forma, que não condiz com as convenções e maneiras mais habituais da comédia, quanto nesse mistério de não sabermos quem são essas personagens nem o que se passa entre elas. Por outras palavras, a concretização referencial e contextual que a comédia requer é tensionada ao máximo por uma abstração no que diz respeito ao enredo, às situações de ação e às identidades incertas. Tudo é reconhecível e, ao mesmo tempo, estranho. Tudo parece previsível, mas acaba por ser sumamente imprevisível, descabido e até fantástico.
LE SOMMET é um espetáculo OVNI fascinante, de um humor invulgar, único, de equação formalista pormenorizada, em que não só atuam os intérpretes, mas também todos os elementos do próprio espaço cenográfico.
Entre as muitas questões e suspeitas que este humor especial pode suscitar, há uma que a mim me continua a fazer rir. Se calhar, será isto o que nos espera se chegarmos ao cume. Para quem opte por vias mais desassossegadoras e inquietantes, pode perguntar-se por esse presente, futuro e, quiçá, passado, em que a comunidade poderosa, governante, só é capaz de habitar rituais absurdos, palavras-brincadeira, isolada nos seus cumes e cimeiras. Ou nos refúgios de sobrevivência, lá no topo do planeta, face a um mundo em guerra e destruição na sua base.
(Os meus agradecimentos para Maria José Albarran Alves de Carvalho pela revisão linguística deste artigo.)
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