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ISRAEL & MOHAMED

Ajuste de contas com o pai. Um espetáculo de Mohamed El Khatib e Israel Galván

ISRAEL & MOHAMED. Foto: Yohanne Lamoulere
ISRAEL & MOHAMED. Foto: Yohanne Lamoulere

Divertido, emocionante e muito forte — fiquei tocado pela profundidade com que são abordadas as relações paterno-filiais sob a perspetiva da dificuldade e da incompreensão, num verdadeiro ajuste de contas com o pai.

Porém, a peça Israel & Mohamed não se inscreve propriamente na tradição do mito de “matar o pai” — ou talvez sim. Mas o exercício teatral e pós-dramático — guiado pela palavra de El Khatib e pelas conversas gravadas em vídeo, onde os progenitores partilham o que pensam sobre os seus filhos — é muito forte, chocante e, ao mesmo tempo (ao vermos o que os filhos fazem no palco), quase cómico.

Eis o pai muçulmano de Mohamed, natural de Marrocos, que emigrou para França para trabalhar numa fábrica e dar uma vida melhor aos filhos, desejando que estes tivessem um trabalho “comme il faut”; e o bailaor sevilhano, professor de flamenco, que queria que Israel dançasse flamenco “a sério”, como quando ainda estava sob a sua tutela e vencera o Prémio de Córdoba com a Farruca.

Cada pai tem o seu altar em lados opostos do palco, e ali estão os filhos para lhes oferecer as prendas e os símbolos referentes às exigências e projeções paternas, influenciadas pela religião, a autoridade viril, a tradição, a família, etc., que funcionam como contestação e, em simultâneo, como um carinho que não ata nem é cego, mas muito reflexivo e emancipador.

A carta de Mohamed ao pai é impressionante, inserindo-se na melhor tradição de cartas ao pai desde a de Franz Kafka. Nela há sinceridade, dureza na crítica e na denúncia da violência, mas também o exercício de se pôr na pele do pai, de o compreender e de se dirigir a ele sem acrimónia, sem revanchismo, docemente e com carinho. Em certa medida, trata-se de uma demonstração de superação das possíveis feridas ou traumas e também, porque não dizê-lo, de sabedoria.

Israel, com a jilaba dos dias de festa que Mohamed lhe emprestou, dança sobre diferentes texturas, da madeira do “tablao flamenco”, à areia e ao metal, ora com os sapatos de baile, ora com as sapatilhas de pitons do futebol que, quando criança, o pai lhe tinha proibido — para que dançasse —, rasgando-lhe todas as bolas. Cada vez que move os pés, cada vez que move os braços e as mãos, faz-se o milagre da graça e do “duende” e ficamos encantados. Se calhar, é por isso que ficamos com fome de mais baile flamenco iconoclasta e heterodoxo. Não obstante, este espetáculo possui uma dramaturgia que equilibra e harmoniza maravilhosamente os vários registos ou modalidades cénicas que nele florescem.

Por um lado, está o teatro pós-dramático que não esconde o palco nem as pessoas reais que lá estão, mas antes potencia e amplifica alguns aspetos para os transformar em apelos artísticos no ritual da performance. Eis o trabalho com os adereços, investidos de símbolos oferecidos e colocados nos altares que têm as fotos dos pais com moldura, tal qual a de um santo ou de um deus. Israel dança com uma maquete do Paraíso da religião e deposita-a no seu altar; brinca com uma performance vocal incrível, tão musical e lúdica quanto cómica, com um papagaio de brincar, como o que o pai lhe tinha oferecido para ver se, por causa da repetição do animal, o filho deixava de gaguejar; também é divertido e precioso o baile com todas as medalhas ganhas por Israel Galván, enquanto El Khatib vai lendo as atribuições dos prémios correspondentes como num rosário.

Mohamed também vai colocando as oferendas no altar do seu progenitor, sempre acompanhadas de uma pequena história alusiva: a coleção de diferentes edições do Alcorão que, em criança, teve de decorar embora não percebesse patavina; as babuchas que eram uma das armas para lançar a uma criança; o tapete de oração, vindo da Palestina, tão valioso que o pai, para não o estragar, nem se atreveu a usá-lo para rezar (e que acabou por se converter num tapete de exposição, que muito cedo legou ao filho), sobre o qual El Khatib comenta: “Deve ter pensado: com ele não há grande risco”.

Por outro lado, está o registo documental através das entrevistas com os pais, projetadas em dois ecrãs quadrados que têm a altura de uma pessoa e que estão situados ao lado de cada altar. As declarações sinceras dos progenitores, confessando abertamente a sua deceção com as carreiras e as vidas de Israel e de Mohamed e explicando algumas cenas, suscitam uma emoção poderosa, pela presença e pela escuta dos filhos. O contraste entre a imagem que os pais desenharam e aquela que nós podemos conhecer dá para rir, mas trata-se de um riso que nos afeta, porque conseguimos perceber a profundidade e a dor dessa distância entre seres queridos.

E, ainda por outro lado, está a dança e o movimento dos corpos, de maneiras muito diferentes e singulares, desde o momento inicial em que os dois fazem um aquecimento físico, parecido com o do treino de futebol, até ao número paródico e cómico final, em que imitam El Güito e Mario Maya, em “Bulerías por Soleá”, dois extraordinários bailaoresflamencos que o pai de Israel admira, mas de quem não gosta quando dançavam juntos, muito pegados um ao outro como se fossem um casal e com maneiras de se mover um bocado efeminadas. Pois é assim, com humor, que acaba o espetáculo Israel & Mohamed: a divertirem-se imitando El Güito e Mario Maya e contestando, deste modo, qualquer vestígio de machismo ou homofobia.

Israel & Mohamed é um prodígio de ternura, de amor e de humor, no qual chegamos até a rir-nos do terrível, sempre sublimado por uma arte tão autêntica e profunda que nos deixa muito tocados.

(Os meus agradecimentos para Maria José Albarran Alves de Carvalho pela revisão linguística deste artigo.)

Afonso Becerra
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ISRAEL & MOHAMED

Conceção e interpretação: Mohamed El Khatib e Israel Galván

Coreografia e colaboração artística: Fred Hocké

Som: Pedro León

Direção técnica: Pedro León e Fred Hocké

Vídeo: Zacharie Dutertre, Emmanuel Manzano

Figurinos: Micol Notarianni

Direção de produção: Rosario Gallardo, Gil Paon

Construção do cenário: Pierre Paillès, Géraldine Bessac

Produção: Zirlib e IGalván Company

43.º Festival de Almada. Palco Grande, Escola D. António da Costa. Almada, 14 de julho de 2026.

Afonso Becerra

Afonso Becerra

Director da erregueté | Revista Galega de Teatro. Pertence ao seu Consello de Redacción desde o 2006. Doutor en Artes Escénicas pola Universitat Autònoma de Barcelona. Titulado Superior en Dirección escénica e dramaturxia polo Institut del Teatre de Barcelona. Titulado en Interpretación polo ITAE de Asturies. Dramaturgo e director de escena. Exerce a docencia en dramaturxia e escrita dramática na ESAD de Galiza desde o ano 2005. É colaborador, entre outras publicacións, de revistas de cultura e artes performativas como 'ARTEZBLAI', 'Primer Acto', 'Danza en escena', 'Tempos Novos', 'Grial'. Entre setembro de 2019 e xuño de 2021 foi colaborador especialista en artes escénicas da CRTVG, no programa 'ZIGZAG' da TVG. Desde setembro de 2022 é colaborador semanal sobre artes escénicas do 'DIARIO CULTURAL' da RADIO GALEGA.
Premio Álvaro Cunqueiro da Xunta de Galicia en 2001. Premio María Casares á Mellor Adaptación teatral en 2016. Premio de Honra do Festival de Teatro Galego, FETEGA, do Carballiño (Ourense) en 2020. Premio Internacional de Xornalismo Carlos Porto 2024, de prensa especializada, do Festival de Almada, organizado pola Câmara Municipal de Almada, do que tamén recibira unha Mención Honrosa en 2020.

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