Os clássicos têm vigência — são clássicos e não caducam — precisamente porque, entre outras virtudes, servem como caixa de ressonância não só para questões fundamentais, mas também para outras que parecem epocais e que, se calhar, não são assim tão explícitas. Eis a eterna busca do sentido da vida e do relato da identidade, por um lado. Eis, por outro, as ansiedades e frustrações surgidas da exploração de pessoas com poder sobre outras, precarizando-as, ou até a autoexploração e a autoexigência, nestes tempos em que o fracasso se tornou inadmissível e tudo tem de ser para ontem, porque o imediatismo nos afoga.
Em Ansioliticamente Falando temos dois atores e três atrizes à procura de si próprios através da encenação de A Gaivota, de Anton Tchékhov.
A primeira, Ansioliticamente Falando, podia ser a irmã contemporânea de Seis Personagens à Procura de Autor, de Luigi Pirandello. Se não à procura de um autor externo, sim da autoria ou da posse de si próprios, neste caso. Porém, Raquel Castro, Sara Inês Gigante, Joana Bernardo, Pedro Baptista e Paulo Pinto não pretendem ser personagens, embora o palco e a ficção os acabem por converter nisso.
O contraste e os reflexos entre as crises presentes em A Gaivota (frustrações pessoais, desmotivação, vidas em falência) e as das gerações atuais que andam entre os 30 e os 40 anos (habitação, precariedade laboral e económica, autoexploração e autoexigência exacerbadas, intolerância ao fracasso, aumento das doenças mentais) revelam-se impressionantes e até cómicos.
O humor surge não só do contraste, mas também da habilidade da situação construída pela dramaturgia de Raquel Castro: um grupo de artistas que se junta para encenar A Gaivota, mas que chega aos ensaios com os seus problemas de ansiedade, causados por diferentes circunstâncias pessoais. É aqui que se revela que o íntimo e o biográfico, dos quais Raquel quer escapar, são ineludíveis e acabam por ter uma repercussão social e política. E é aqui que se revela também que não é assim tão fácil emancipar-se das circunstâncias pessoais problemáticas, e que, se calhar, o teatro não é a salvação nem serve de terapia.
E é aqui, por fim, que descobrimos que o teatro contemporâneo, sem a distância e a pompa literária do clássico, também pode gerar personagens de profundidade insondável e situações de uma atualidade tão envolvida no presente quanto vibrante no que diz respeito à dimensão universal dos conflitos humanos. Quando o teatro contemporâneo brinca e dialoga com clássicos tão reveladores quanto A Gaivota, de Tchékhov, a combustão está garantida.
Em Ansioliticamente Falando diverti-me, mas também fiquei muito impressionado com os conflitos intrapessoais e ainda mais fascinado por estas personagens tão próximas — que podiam ser os meus colegas, os meus alunos, os meus vizinhos, os meus amigos ou o próprio elenco da Razões Pessoais —, mais fascinado e impressionado, até, do que com as personagens e os clássicos do dramaturgo e médico russo Anton Tchékhov.
(Os meus agradecimentos para Maria José Albarran Alves de Carvalho pela revisão linguística deste artigo.)
- FRATTO_X - 11/07/2026
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