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Ansioliticamente Falando

Entre as pessoas de hoje e as personagens de A Gaivota

©Enric Vives-Rubio
©Enric Vives-Rubio

Os clássicos têm vigência — são clássicos e não caducam — precisamente porque, entre outras virtudes, servem como caixa de ressonância não só para questões fundamentais, mas também para outras que parecem epocais e que, se calhar, não são assim tão explícitas. Eis a eterna busca do sentido da vida e do relato da identidade, por um lado. Eis, por outro, as ansiedades e frustrações surgidas da exploração de pessoas com poder sobre outras, precarizando-as, ou até a autoexploração e a autoexigência, nestes tempos em que o fracasso se tornou inadmissível e tudo tem de ser para ontem, porque o imediatismo nos afoga.

Em Ansioliticamente Falando temos dois atores e três atrizes à procura de si próprios através da encenação de A Gaivota, de Anton Tchékhov.

A primeira, Ansioliticamente Falando, podia ser a irmã contemporânea de Seis Personagens à Procura de Autor, de Luigi Pirandello. Se não à procura de um autor externo, sim da autoria ou da posse de si próprios, neste caso. Porém, Raquel Castro, Sara Inês Gigante, Joana Bernardo, Pedro Baptista e Paulo Pinto não pretendem ser personagens, embora o palco e a ficção os acabem por converter nisso.

O contraste e os reflexos entre as crises presentes em A Gaivota (frustrações pessoais, desmotivação, vidas em falência) e as das gerações atuais que andam entre os 30 e os 40 anos (habitação, precariedade laboral e económica, autoexploração e autoexigência exacerbadas, intolerância ao fracasso, aumento das doenças mentais) revelam-se impressionantes e até cómicos.

O humor surge não só do contraste, mas também da habilidade da situação construída pela dramaturgia de Raquel Castro: um grupo de artistas que se junta para encenar A Gaivota, mas que chega aos ensaios com os seus problemas de ansiedade, causados por diferentes circunstâncias pessoais. É aqui que se revela que o íntimo e o biográfico, dos quais Raquel quer escapar, são ineludíveis e acabam por ter uma repercussão social e política. E é aqui que se revela também que não é assim tão fácil emancipar-se das circunstâncias pessoais problemáticas, e que, se calhar, o teatro não é a salvação nem serve de terapia.

E é aqui, por fim, que descobrimos que o teatro contemporâneo, sem a distância e a pompa literária do clássico, também pode gerar personagens de profundidade insondável e situações de uma atualidade tão envolvida no presente quanto vibrante no que diz respeito à dimensão universal dos conflitos humanos. Quando o teatro contemporâneo brinca e dialoga com clássicos tão reveladores quanto A Gaivota, de Tchékhov, a combustão está garantida.

Em Ansioliticamente Falando diverti-me, mas também fiquei muito impressionado com os conflitos intrapessoais e ainda mais fascinado por estas personagens tão próximas — que podiam ser os meus colegas, os meus alunos, os meus vizinhos, os meus amigos ou o próprio elenco da Razões Pessoais —, mais fascinado e impressionado, até, do que com as personagens e os clássicos do dramaturgo e médico russo Anton Tchékhov.

(Os meus agradecimentos para Maria José Albarran Alves de Carvalho pela revisão linguística deste artigo.)

Afonso Becerra
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Asioliticamente Falando

Texto e Encenação: Raquel Castro

Tradução excertos de A Gaivota de Anton Tchékhov: António Pescada

Intérpretes: Raquel Castro, Sara Inês Gigante, Joana Bernardo, Pedro Baptista, Paulo Pinto

Apoio à criação: Sara Inês Gigante

Apoio à dramaturgia: Pedro Gil

Assistência de encenação: Pedro Russo

Luz: Tiago Coelho

Cenografia: Joana Subtil

Som: Miguel Caldeira

Direção de produção: Ana Gusmão

Produção: Razões Pessoais

Coproduçao: Centro Cultural de Belem, Teatrocine Torres Vedras, Teatro-Cine de Pombal

43º Festival de Almada, Academia Almadense, Auditório Osvaldo Azinheira. Almada, 8 de julho de 2026.

Afonso Becerra

Afonso Becerra

Director da erregueté | Revista Galega de Teatro. Pertence ao seu Consello de Redacción desde o 2006. Doutor en Artes Escénicas pola Universitat Autònoma de Barcelona. Titulado Superior en Dirección escénica e dramaturxia polo Institut del Teatre de Barcelona. Titulado en Interpretación polo ITAE de Asturies. Dramaturgo e director de escena. Exerce a docencia en dramaturxia e escrita dramática na ESAD de Galiza desde o ano 2005. É colaborador, entre outras publicacións, de revistas de cultura e artes performativas como 'ARTEZBLAI', 'Primer Acto', 'Danza en escena', 'Tempos Novos', 'Grial'. Entre setembro de 2019 e xuño de 2021 foi colaborador especialista en artes escénicas da CRTVG, no programa 'ZIGZAG' da TVG. Desde setembro de 2022 é colaborador semanal sobre artes escénicas do 'DIARIO CULTURAL' da RADIO GALEGA.
Premio Álvaro Cunqueiro da Xunta de Galicia en 2001. Premio María Casares á Mellor Adaptación teatral en 2016. Premio de Honra do Festival de Teatro Galego, FETEGA, do Carballiño (Ourense) en 2020. Premio Internacional de Xornalismo Carlos Porto 2024, de prensa especializada, do Festival de Almada, organizado pola Câmara Municipal de Almada, do que tamén recibira unha Mención Honrosa en 2020.

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Teatro Meridional. Happy Days. Foto: Susana Monteiro

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Foto: RezzaMastrella

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