Humor de aparência ingénua que, por vezes, que nos pode parecer infantil, mas que encerra uma malícia muito positiva e construtiva, no sentido de acabar por ser muito audaciosa e mordaz, mas sempre simpática.
O espetáculo da dupla RezzaMastrella é feito de gags verbais e gestuais maioritariamente assentes na repetição. Esta gera automatismos na expectativa do público, ao mesmo tempo que contribui para um exagero entre a caricatura humana, o grotesco divertido — paradoxalmente querido e com um toque terno — e o absurdo. Aliás, essas repetições, que automatizam a nossa expectativa, também servem para Antonio Rezza introduzir alterações que, pelo contraste, geram um riso que quase nos transforma em crianças, embora os temas tratados sejam problemáticos e controversos: migração, manipulação, abuso de poder, a idiotização da população que olha para a televisão, a família, o matrimónio, a competição entre Santas e Santos, a religião, a pederastia, etc. E nós, todos a rir!
O trabalho físico e vocal, a mudar de voz, a fazer ventriloquia e pantomima, está em diálogo com um dispositivo cénico composto por diferentes teias e panos elásticos. Juntamente com outros elementos e com a luz, os sketches humorísticos cobram uma forma visual inédita, com um toque estilizado para um tipo de abstração que gera estranhamento, contribuindo para essa espécie de fantasia ou absurdo.
Um dos mecanismos cómicos mais simples e eficazes é constituído pelas armadilhas mostradas ao espectador. Ora se apresenta como uma personagem, ora coloca um chapéu e se apresenta como outra, ora muda a voz e se apresenta como mais uma, ora volta à primeira, depois salta para a terceira ou para a segunda; de repente, aparece uma gémea. Ora fala por si próprio, ora fala por outro. Ora faz parecer que o outro é quem fala por ele. E, desta maneira, pondo e tirando adereços simples, ou camuflando-se com as teias flexíveis, fazendo parte de uma cenografia mutante antropomórfica, vai gerando e gerindo diferentes combinatórias. Nelas faz aparecer e desaparecer, tal como num simulacro de mágico, diferentes hipóteses de personagens, com as suas pequenas histórias. Todas elas com os traços básicos de uma caricatura humorística, em situações que acabam por ser uma sucessão de sketches.
Assim sendo, estamos perante um humor tão brincalhão e irreverente quanto naïf e até ridículo. Rezza parece uma criança a gozar connosco, alguém politicamente incorreto que se diverte enquanto nos diverte, fugindo de qualquer sofisticação intelectual ou teatral. Aquilo até não parece sério, até poderia ser uma peça pirilesca.
(Os meus agradecimentos para Maria José Albarran Alves de Carvalho pela revisão linguística deste artigo.)
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