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HAPPY DAYS

O teatro confinado no rosto de Mónica Garnel

Teatro Meridional. Happy Days. Foto: Susana Monteiro
eatro Meridional. Happy Days. Foto: Susana Monteiro

Introdução, desenvolvimento e conclusão ou desenlace é a estrutura com que se constroem histórias e até com que devemos escrever um artigo como este. Mas hoje cabe aqui falar de uma peça, de uma encenação e de uma atuação que não precisam, para nada, desse velho andaime, porque tudo se concentra e rodopia na concretização material, física, muscular e vocal de uma atriz excecional, Mónica Garnel, entre o toque da campainha para acordar e o sinal de final do dia para dormir.

Uma concretização deslocalizada, fora do tempo e mesmo de um espaço reconhecível, com a protagonista, Winnie, enterrada naquele monte cenográfico do qual constitui o cume. E com o seu companheiro, Willie, numa hipotética cova, na base desse mesmo monte, do lado que não é visível para o espectador. Poderia dizer-se que essa montanha, da qual sobressai o torso de Winnie na primeira parte, e já só a cabeça na última, parece um vulcão do qual a lava incandescente poderia ser esta mulher. Se calhar, esta associação surge não só pela energia especial da personagem, mas também pelos seus cabelos longos, loiros e rebeldes, dos quais sai fumo ou pó em determinados momentos, e por aquele chapéu flamígero vermelho, decorado com penas vermelhas, que até ganha a forma de uma labareda tímida, junto da parte do vestido vermelho que ainda podemos ver.

O magnífico rosto de Mónica Garnel é, em si próprio, um teatro de profundo magnetismo. A sua Winnie é a expressão objetiva da coreografia do olhar, das sobrancelhas, dos lábios, dos dentes, das bochechas e até do mais ínfimo músculo facial, conjurando uma subjetividade delicadíssima que também se exprime através das subtis modulações da voz.

O homem, Willie, completa a dupla W & W no mistério geométrico desta peça além da História e das histórias. Ele quase não tem rosto. É uma presença latente e remota, que chega a aparecer de costas a ler o jornal, ou a rastejar de lado, numa dimensão quase anónima, mas fundamental como alegoria do recetor — do ouvinte que está lá para receber o discurso de Winnie. Se calhar, também, para constituir a alegoria dos dois e de que o “um” não faz sentido sem o “outro”. A alegoria do drama que se funda na segunda pessoa e nas relações interpessoais. Porém, Happy Days também está para lá do drama.

Winnie passa o dia agarrada à concretude dos objetos que tem ao lado, a tentar apreender algo deles, na sua observação pormenorizada, com os seus óculos meio sujos, com a sua lupa, num objetivismo próximo do de Alberto Caeiro — num olhar puro, sem interpretações. Aliás, lembra-se de alguém que olhou para ela, um tal Águas ou Sopas, a fazer perguntas, tal como o espectador também poderia colocar essas questões sobre esta mulher enterrada de meio corpo na primeira parte, e até ao pescoço na segunda.

E eu pergunto-me: o que é que mudou na vida atual, no que diz respeito, por exemplo, à primeira encenação que pude ver desta peça, em 1997, no Festival de Sitges, com Natasha Parry e encenada por Peter Brook? Muita coisa mudou: aumentou a ansiedade, encurtaram-se vertiginosamente os tempos na voragem da produção/consumo e do mundo digital. Neste contexto, Mónica Garnel, neste Happy Days, oferece-nos quase um exercício de meditação e de mindfulness, atravessado por uma intensidade existencial que nos interpela sobre muitas coisas que nos afetam. É raro e ao mesmo tempo espantoso que uma metáfora, um poema cénico de arte concreta, seja um exercício de meditação e de mindfulness quando suscita uma tal enormidade de interpretações e leituras.

Porém, o fantástico aqui é que essa densidade não está na superfície nem nos impede o usufruto. Tal e qual como na arte concreta ou na filosofia de Alberto Caeiro, o que é, é — sem necessidade de um princípio, um meio e um fim, sem necessidade de um desenvolvimento e de uma resolução. Eis uma forma dinâmica e teatral de emancipação: a metáfora e as alegorias levadas para o concreto, e libertadas nele. O surgimento da emoção e de uma impressão inefável, sem necessidade de qualquer identificação afetiva com as personagens ou com uma história. Aliás, há o luxo de nos dar o tempo para fixar a nossa atenção, junto de Winnie, no aparentemente simples, na restrição de movimentos e de outras pirotecnias espetaculares. O tempo para tomar conta do tempo e dos pequenos pormenores, do micromundo que sustenta tudo o resto.

 

(Os meus agradecimentos para Maria José Albarran Alves de Carvalho pela revisão linguística deste artigo.)

Afonso Becerra
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Happy Days

Texto: Samuel Beckett

Tradução: João Paulo Esteves da Silva

Encenação: Miguel Seabra

Intérpretes: Mónica Garnel, Emanuel Aranda

Espaço Cénico e Figurinos: Hugo F. Matos

Espaço Sonoro: Rui Rebelo

Desenho de Luz: Miguel Seabra

Assistência de Encenação: Telma Meira

Direção de Cena: Marco Fonseca

Direção de Produção: Susana Monteiro

Produção: Teatro Meridional

43º Festival de Almada, Fórum Municipal Romeu Correia, Auditório Fernando Lopes-Graça. Almada, 9 de julho de 2026.

Afonso Becerra

Afonso Becerra

Director da erregueté | Revista Galega de Teatro. Pertence ao seu Consello de Redacción desde o 2006. Doutor en Artes Escénicas pola Universitat Autònoma de Barcelona. Titulado Superior en Dirección escénica e dramaturxia polo Institut del Teatre de Barcelona. Titulado en Interpretación polo ITAE de Asturies. Dramaturgo e director de escena. Exerce a docencia en dramaturxia e escrita dramática na ESAD de Galiza desde o ano 2005. É colaborador, entre outras publicacións, de revistas de cultura e artes performativas como 'ARTEZBLAI', 'Primer Acto', 'Danza en escena', 'Tempos Novos', 'Grial'. Entre setembro de 2019 e xuño de 2021 foi colaborador especialista en artes escénicas da CRTVG, no programa 'ZIGZAG' da TVG. Desde setembro de 2022 é colaborador semanal sobre artes escénicas do 'DIARIO CULTURAL' da RADIO GALEGA.
Premio Álvaro Cunqueiro da Xunta de Galicia en 2001. Premio María Casares á Mellor Adaptación teatral en 2016. Premio de Honra do Festival de Teatro Galego, FETEGA, do Carballiño (Ourense) en 2020. Premio Internacional de Xornalismo Carlos Porto 2024, de prensa especializada, do Festival de Almada, organizado pola Câmara Municipal de Almada, do que tamén recibira unha Mención Honrosa en 2020.

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