Introdução, desenvolvimento e conclusão ou desenlace é a estrutura com que se constroem histórias e até com que devemos escrever um artigo como este. Mas hoje cabe aqui falar de uma peça, de uma encenação e de uma atuação que não precisam, para nada, desse velho andaime, porque tudo se concentra e rodopia na concretização material, física, muscular e vocal de uma atriz excecional, Mónica Garnel, entre o toque da campainha para acordar e o sinal de final do dia para dormir.
Uma concretização deslocalizada, fora do tempo e mesmo de um espaço reconhecível, com a protagonista, Winnie, enterrada naquele monte cenográfico do qual constitui o cume. E com o seu companheiro, Willie, numa hipotética cova, na base desse mesmo monte, do lado que não é visível para o espectador. Poderia dizer-se que essa montanha, da qual sobressai o torso de Winnie na primeira parte, e já só a cabeça na última, parece um vulcão do qual a lava incandescente poderia ser esta mulher. Se calhar, esta associação surge não só pela energia especial da personagem, mas também pelos seus cabelos longos, loiros e rebeldes, dos quais sai fumo ou pó em determinados momentos, e por aquele chapéu flamígero vermelho, decorado com penas vermelhas, que até ganha a forma de uma labareda tímida, junto da parte do vestido vermelho que ainda podemos ver.
O magnífico rosto de Mónica Garnel é, em si próprio, um teatro de profundo magnetismo. A sua Winnie é a expressão objetiva da coreografia do olhar, das sobrancelhas, dos lábios, dos dentes, das bochechas e até do mais ínfimo músculo facial, conjurando uma subjetividade delicadíssima que também se exprime através das subtis modulações da voz.
O homem, Willie, completa a dupla W & W no mistério geométrico desta peça além da História e das histórias. Ele quase não tem rosto. É uma presença latente e remota, que chega a aparecer de costas a ler o jornal, ou a rastejar de lado, numa dimensão quase anónima, mas fundamental como alegoria do recetor — do ouvinte que está lá para receber o discurso de Winnie. Se calhar, também, para constituir a alegoria dos dois e de que o “um” não faz sentido sem o “outro”. A alegoria do drama que se funda na segunda pessoa e nas relações interpessoais. Porém, Happy Days também está para lá do drama.
Winnie passa o dia agarrada à concretude dos objetos que tem ao lado, a tentar apreender algo deles, na sua observação pormenorizada, com os seus óculos meio sujos, com a sua lupa, num objetivismo próximo do de Alberto Caeiro — num olhar puro, sem interpretações. Aliás, lembra-se de alguém que olhou para ela, um tal Águas ou Sopas, a fazer perguntas, tal como o espectador também poderia colocar essas questões sobre esta mulher enterrada de meio corpo na primeira parte, e até ao pescoço na segunda.
E eu pergunto-me: o que é que mudou na vida atual, no que diz respeito, por exemplo, à primeira encenação que pude ver desta peça, em 1997, no Festival de Sitges, com Natasha Parry e encenada por Peter Brook? Muita coisa mudou: aumentou a ansiedade, encurtaram-se vertiginosamente os tempos na voragem da produção/consumo e do mundo digital. Neste contexto, Mónica Garnel, neste Happy Days, oferece-nos quase um exercício de meditação e de mindfulness, atravessado por uma intensidade existencial que nos interpela sobre muitas coisas que nos afetam. É raro e ao mesmo tempo espantoso que uma metáfora, um poema cénico de arte concreta, seja um exercício de meditação e de mindfulness quando suscita uma tal enormidade de interpretações e leituras.
Porém, o fantástico aqui é que essa densidade não está na superfície nem nos impede o usufruto. Tal e qual como na arte concreta ou na filosofia de Alberto Caeiro, o que é, é — sem necessidade de um princípio, um meio e um fim, sem necessidade de um desenvolvimento e de uma resolução. Eis uma forma dinâmica e teatral de emancipação: a metáfora e as alegorias levadas para o concreto, e libertadas nele. O surgimento da emoção e de uma impressão inefável, sem necessidade de qualquer identificação afetiva com as personagens ou com uma história. Aliás, há o luxo de nos dar o tempo para fixar a nossa atenção, junto de Winnie, no aparentemente simples, na restrição de movimentos e de outras pirotecnias espetaculares. O tempo para tomar conta do tempo e dos pequenos pormenores, do micromundo que sustenta tudo o resto.
(Os meus agradecimentos para Maria José Albarran Alves de Carvalho pela revisão linguística deste artigo.)
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