A memória e o carinho pela avó — uma radialista flamenga famosa que queria ser atriz e que adorava A Gaivota, de Anton Tchékhov — guiam o seu neto, Arne de Tremerie. Este jovem, que estudava no Conservatório para ser ator, descobre as cartas da avó e decide preparar connosco alguns excertos da famosa obra, cujo 130.º aniversário da estreia se celebra este ano.
Em diálogo de complementaridade e de contraste com Arne está Olga Mouak, uma jovem intérprete de Orleães que gostaria imenso de assumir o papel de Nina na peça de Tchékhov. Se o ator ficou muito marcado pela avó e pela sua correspondência, já Olga é muito influenciada pela relação com a mãe, que parece não compreender nem valorizar o ofício e a arte da representação. A pedido do colega, a dada altura, a atriz liga à mãe para a questionar — após esta ter cumprimentado simpaticamente toda a plateia — sobre o motivo de nunca lhe perguntar pelo seu trabalho. Era uma pergunta que nunca lhe tinha feito, embora tivesse sofrido em silêncio com essa ausência. É aí que se nos revela como é importante falar e não deixar as inquietações enterradas no nosso íntimo: a mãe acaba por confessar a Olga as suas preocupações, o seu profundo afeto e como acompanha de perto, sem que a filha se aperceba, o seu percurso.
Além disso, Olga, neta de uma camaronesa que ouvia vozes (tal como Joana d’Arc), sempre quis interpretar esta mítica figura na sua cidade natal. Contudo, nunca o conseguiu porque, nas audições, a escolha recaía sempre sobre raparigas brancas e loiras. Por esta via, entram em jogo questões pertinentes sobre o racismo e a predeterminação das pessoas pela sua aparência.
Por outro lado, Arne quer interpretar Konstantin, o dramaturgo de A Gaivota, por afinidade com a personagem e por querer tentar desafiar o destino fatal daquele arquétipo do artista incompreendido, em permanente conflito com o mundo, com a família e consigo mesmo. Talvez por isso queira encenar a peça que Konstantin representava dentro da própria obra de Tchékhov, pedindo a colaboração de Olga e do público. O ator confia na comunidade e na força emancipadora da entreajuda face ao destino trágico.
Milo Rau oferece-nos um espetáculo aparentemente simples, no qual a dupla de atores dialoga e interage connosco de forma muito descontraída. Ambos pertencem a uma geração próxima da de Nina e da de Konstantin, representando a potência de um futuro que, no texto clássico, acaba aniquilado. Arne e Olga, porém, não padecem do isolamento e da crise existencial das figuras tchekhovianas. Apesar da admiração e do carinho que professam por esses entes de ficção e do afeto com que se referem às respetivas famílias, os dois são desmistificadores e práticos nas suas atitudes e ações.
Sabem, de resto, que o mais importante no teatro é a capacidade de brincar e de jogar em comunidade. Por isso mesmo, nunca utilizam a quarta parede e pedem, com enorme simpatia, a colaboração de alguns espectadores para lerem umas poucas falas das personagens de A Gaivota, distribuindo adereços muito básicos: um boné para o intelectual, uma garrafa vazia para o ébrio, um estetoscópio para o médico e uns óculos para o professor. Olga aproxima-se com o microfone dos voluntários que estão na bancada no momento em que é necessária a intervenção pontual desses papéis. Adicionalmente, outro espectador é convidado a subir ao palco para, quando solicitado, mostrar cartazes de cartão escritos à mão com os títulos das cenas.
No final, quase parecia que os espectadores voluntários faziam mais teatro do que os próprios intérpretes, que se mantêm sempre autênticos e longe de qualquer estereótipo ou cliché. Este contraste entre o público a assumir papéis e os atores a representarem-se a si próprios numa ação pós-dramática é um dos aspetos mais deliciosos e conseguidos da proposta.
Com esta distribuição simples e com as divertidas explicações que nos dão, vamos descobrindo que, entre as histórias pessoais e as situações do clássico de Tchékhov, há reflexos muito produtivos e sugestivos, que dão que pensar e comovem em momentos específicos. Acima de tudo, o que mais nos surpreende é a frescura, o humor e a leveza que talvez nunca tivéssemos imaginado associados a A Gaivota e à sua carga trágica e existencial.
Como resultado, La lettre afirma-se como um espetáculo pós-dramático cativante, que cruza memórias e reflete sobre o que molda a nossa personalidade — fá-lo de forma acessível e direta, mas sem nunca perder a transcendência e a luz que emanam quando acontece o melhor teatro.
(Os meus agradecimentos para Maria José Albarran Alves de Carvalho pela revisão linguística deste artigo.)
- LA LETTRE - 15/07/2026
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