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LA LETTRE

A comunidade, a família e o teatro

La lettre. Foto: Cristophe Raynaud de Lage
La lettre. Foto: Cristophe Raynaud de Lage

A memória e o carinho pela avó — uma radialista flamenga famosa que queria ser atriz e que adorava A Gaivota, de Anton Tchékhov — guiam o seu neto, Arne de Tremerie. Este jovem, que estudava no Conservatório para ser ator, descobre as cartas da avó e decide preparar connosco alguns excertos da famosa obra, cujo 130.º aniversário da estreia se celebra este ano.

Em diálogo de complementaridade e de contraste com Arne está Olga Mouak, uma jovem intérprete de Orleães que gostaria imenso de assumir o papel de Nina na peça de Tchékhov. Se o ator ficou muito marcado pela avó e pela sua correspondência, já Olga é muito influenciada pela relação com a mãe, que parece não compreender nem valorizar o ofício e a arte da representação. A pedido do colega, a dada altura, a atriz liga à mãe para a questionar — após esta ter cumprimentado simpaticamente toda a plateia — sobre o motivo de nunca lhe perguntar pelo seu trabalho. Era uma pergunta que nunca lhe tinha feito, embora tivesse sofrido em silêncio com essa ausência. É aí que se nos revela como é importante falar e não deixar as inquietações enterradas no nosso íntimo: a mãe acaba por confessar a Olga as suas preocupações, o seu profundo afeto e como acompanha de perto, sem que a filha se aperceba, o seu percurso.

Além disso, Olga, neta de uma camaronesa que ouvia vozes (tal como Joana d’Arc), sempre quis interpretar esta mítica figura na sua cidade natal. Contudo, nunca o conseguiu porque, nas audições, a escolha recaía sempre sobre raparigas brancas e loiras. Por esta via, entram em jogo questões pertinentes sobre o racismo e a predeterminação das pessoas pela sua aparência.

Por outro lado, Arne quer interpretar Konstantin, o dramaturgo de A Gaivota, por afinidade com a personagem e por querer tentar desafiar o destino fatal daquele arquétipo do artista incompreendido, em permanente conflito com o mundo, com a família e consigo mesmo. Talvez por isso queira encenar a peça que Konstantin representava dentro da própria obra de Tchékhov, pedindo a colaboração de Olga e do público. O ator confia na comunidade e na força emancipadora da entreajuda face ao destino trágico.

Milo Rau oferece-nos um espetáculo aparentemente simples, no qual a dupla de atores dialoga e interage connosco de forma muito descontraída. Ambos pertencem a uma geração próxima da de Nina e da de Konstantin, representando a potência de um futuro que, no texto clássico, acaba aniquilado. Arne e Olga, porém, não padecem do isolamento e da crise existencial das figuras tchekhovianas. Apesar da admiração e do carinho que professam por esses entes de ficção e do afeto com que se referem às respetivas famílias, os dois são desmistificadores e práticos nas suas atitudes e ações.

Sabem, de resto, que o mais importante no teatro é a capacidade de brincar e de jogar em comunidade. Por isso mesmo, nunca utilizam a quarta parede e pedem, com enorme simpatia, a colaboração de alguns espectadores para lerem umas poucas falas das personagens de A Gaivota, distribuindo adereços muito básicos: um boné para o intelectual, uma garrafa vazia para o ébrio, um estetoscópio para o médico e uns óculos para o professor. Olga aproxima-se com o microfone dos voluntários que estão na bancada no momento em que é necessária a intervenção pontual desses papéis. Adicionalmente, outro espectador é convidado a subir ao palco para, quando solicitado, mostrar cartazes de cartão escritos à mão com os títulos das cenas.

No final, quase parecia que os espectadores voluntários faziam mais teatro do que os próprios intérpretes, que se mantêm sempre autênticos e longe de qualquer estereótipo ou cliché. Este contraste entre o público a assumir papéis e os atores a representarem-se a si próprios numa ação pós-dramática é um dos aspetos mais deliciosos e conseguidos da proposta.

Com esta distribuição simples e com as divertidas explicações que nos dão, vamos descobrindo que, entre as histórias pessoais e as situações do clássico de Tchékhov, há reflexos muito produtivos e sugestivos, que dão que pensar e comovem em momentos específicos. Acima de tudo, o que mais nos surpreende é a frescura, o humor e a leveza que talvez nunca tivéssemos imaginado associados a A Gaivota e à sua carga trágica e existencial.

Como resultado, La lettre afirma-se como um espetáculo pós-dramático cativante, que cruza memórias e reflete sobre o que molda a nossa personalidade — fá-lo de forma acessível e direta, mas sem nunca perder a transcendência e a luz que emanam quando acontece o melhor teatro.

(Os meus agradecimentos para Maria José Albarran Alves de Carvalho pela revisão linguística deste artigo.)

Afonso Becerra
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LA LETTRE

Criação e encenação: Milo Rau

Texto: Milo Rau e equipa

Interpretação: Olga Mouak e Arne de Tremerie

Vozes: Anne Alvaro, Isabelle Huppert, Jocelyne Monier e Marijke Pinoy

Dramaturgia: Giacomo Bisordi

Assistência de encenação: Giacomo Bisordi, Edward Fortes

Cenografia, som, luz, figurinos e adereços: Milo Rau e Giacomo Bisordi

Produção: Festival d’Avignon

43.º Festival de Almada. Palco Grande, Escola D. António da Costa. Almada, 10 de julho de 2026.

Afonso Becerra

Afonso Becerra

Director da erregueté | Revista Galega de Teatro. Pertence ao seu Consello de Redacción desde o 2006. Doutor en Artes Escénicas pola Universitat Autònoma de Barcelona. Titulado Superior en Dirección escénica e dramaturxia polo Institut del Teatre de Barcelona. Titulado en Interpretación polo ITAE de Asturies. Dramaturgo e director de escena. Exerce a docencia en dramaturxia e escrita dramática na ESAD de Galiza desde o ano 2005. É colaborador, entre outras publicacións, de revistas de cultura e artes performativas como 'ARTEZBLAI', 'Primer Acto', 'Danza en escena', 'Tempos Novos', 'Grial'. Entre setembro de 2019 e xuño de 2021 foi colaborador especialista en artes escénicas da CRTVG, no programa 'ZIGZAG' da TVG. Desde setembro de 2022 é colaborador semanal sobre artes escénicas do 'DIARIO CULTURAL' da RADIO GALEGA.
Premio Álvaro Cunqueiro da Xunta de Galicia en 2001. Premio María Casares á Mellor Adaptación teatral en 2016. Premio de Honra do Festival de Teatro Galego, FETEGA, do Carballiño (Ourense) en 2020. Premio Internacional de Xornalismo Carlos Porto 2024, de prensa especializada, do Festival de Almada, organizado pola Câmara Municipal de Almada, do que tamén recibira unha Mención Honrosa en 2020.

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