O amor e o desamor, a vida e a morte, a juventude e a velhice, a festa alegre e a tristeza vibram nas canções eternas de Jacques Brel. Anne Teresa De Keersmaeker, sem pretender dar nas vistas, com uma dança livre de aparências supérfluas e ligada ao autêntico, constrói, ao lado do jovem Solal Mariotte, uma peça delicada, muito agradável de ver e de sentir.
A relação com os temas musicais e com os momentos de vídeo que os complementam — incluindo o próprio Brel a cantar num dos seus concertos — é de grande subtileza. Keersmaeker também se complementa e completa com Mariotte: ela com a sua verticalidade elegante e aqueles movimentos de torso e braços de uma contagiante fluidez; ele com os movimentos de dança urbana, a trabalhar mais rente ao chão e com muita vertigem nos giros acrobáticos e no uso das pernas.
Ela surge de fato cinzento, nuns momentos com t-shirt preta e noutros com t-shirt branca, dependendo da letra da canção, da pequena história que cada tema encerra e abre ao mesmo tempo, e da emoção que a música e a dança, na sua linguagem abstrata, sabem concitar. Ele, por sua vez, exibe o interior do casaco reversível do fato cinzento com um alegre e primaveril estampado de flores. Num momento ele surge de torso nu, noutro é ela que surge de pernas nuas. Estão sempre numa sinergia muito especial com os temas e com as intensidades narrativas e até dramáticas que estes contêm.
A letra das canções, pequenas histórias à maneira de poemas, está muito presente, surgindo sempre projetada no ecrã de fundo do palco, na margem inferior direita ou na margem inferior esquerda e, nalguns casos, em tamanho maior, a ocupar o centro. Podemos acompanhar o que diz Brel quando canta. Conseguimos ver o microfone no proscénio, ao pé do círculo de luz cenital, tal e qual descobrimos num dos vídeos em que Brel, de fato elegante, interpreta com intensidade vocal e emotiva.
A dança acontece, mas nem sempre dentro do círculo de luz. Em muitas ocasiões, os corpos movem-se fora do foco, entrevistos apenas pelo seu reflexo, numa timidez que não é nada habitual nos palcos nem nos bailarinos. De facto, Anne Teresa, nos primeiros temas, circunda a luz a dançar na sombra, até que o frenesi de “La valse à mille temps” a empurra para dentro dela.
Keersmaeker e Mariotte dançam para nós, claro que sim, mas também dançam para si próprios, consigo mesmos, sem perderem nunca uma espécie de introspeção e de intimidade radiantes. Podemos observar como ouvem as canções de Brel e como se deixam inundar pelos afetos, sem os ilustrar, sem teatralizar, sem exageros; o efeito dessa escuta é o puro movimento corporal e, por vezes, também a voz, articulada em poucas palavras, numa ou noutra interjeição, ou no cantarolar.
Há momentos preciosos, como quando Anne Teresa, em “Ne me quitte pas”, tira o casaco e depois se despe, ficando nua dentro da projeção de vídeo do rosto de Brel, com a boca sensual do cantor colada às suas costas, enquanto move muito subtilmente o torso e as ancas, acabando a ladrar como um cãozinho. A metáfora é brilhante no que diz respeito a esse amante que implora ao seu amor que não o deixe, que não se vá embora.
Há também momentos sobre a morte e as desgraças com “Le plat pays”, dedicado à Bélgica dos seus antepassados, acompanhado por imagens documentais das terríveis inundações nos Países Baixos.
Não podia faltar o tema que rima com o nome da companhia fundada por Anne Teresa: “Rosa”, com a declinação latina do refrão: “Rosa, rosa, rosam / Rosae, rosae, rosa / Rosae, rosae / rosas / Rosarum, rosis, rosis”, numa repetição que entronca naquele “Uma rosa é uma rosa é uma rosa” de Gertrude Stein e com a geometria musical e coreográfica que é tão característica de Keersmaeker. Precisamente aqui surgem citações coreográficas da famosa e já clássica peça Rosas danst Rosas, com a oscilação de braços e as meias torsões da parte superior do corpo numa dinâmica inercial.
Com “Les bourgeois” passam para um tom humorístico, que se constrói a duo com a participação da gestualidade facial e de uma atitude divertida e subtilmente paródica. Tudo isto sem nunca cair em poses que se afastem do ser e do estar das pessoas que dançam, porque aqui, em momento algum, há a intenção de representar personagens externos a Anne Teresa e a Solal, nem de ilustrar ou encenar o que as letras das canções de Brel nos contam.
A velhice surge com “Les vieux” e, de repente, Keersmaeker coloca o casaco na cabeça, como se fosse um capuz ou um agasalho.
O regresso de um antigo amor avassalador e destrutivo faz explodir a dança urbana, com toda a sua força centrífuga, através de Solal Mariotte no tema “Mathilde”.
Com “Ces gens-là”, aproveitam a sonoridade da expressão “on triche”: “Faut vous dire, Monsieur, que chez ces gens-là, on ne vit pas, Monsieur, on ne vit pas… on triche” para brincar com onomatopeias.
Em “Les désespérés” — sobre aqueles que desistiram da vida, as pessoas que caminham sozinhas em direção ao rio, numa referência ao suicídio por afogamento no Sena, em Paris, ou quem desaparece no silêncio da noite —, Anne Teresa e Solal batem com os casacos no chão do proscénio com força. Também, em contraste, podemos vê-los abraçar-se, com ele a carregar o corpo dela tal e qual se leva uma pessoa embriagada ou perdida, em diferentes posições que nada têm a ver com os portés tradicionais do bailado, parecendo alheios a qualquer vontade de exibicionismo.
Em “Le Tango funèbre” aparece o humor negro e sarcástico, em que Brel imagina o seu próprio funeral e, no meio dos falsos lamentos, solta o verso: “Je vous laisse mes os / Je vous laisse mon cuir / Mais je vous dis ‘merde’ / Du fond de mon soupir / Paix au Vietnam!” (Deixo-vos os meus ossos / Deixo-vos a minha pele / Mas digo-vos ‘merda’ / Do fundo do meu suspiro / Paz no Vietname!). Os corpos e as expressões dos bailarinos reagem de uma maneira tal que as poses e as hipocrisias são encaradas e esconjuradas.
No último tema, tal como no primeiro, somos convidados a simplesmente ouvir e, se quisermos, a ler a letra, para que a dança passe a ser feita das nossas próprias lembranças, evocações ou emoções. O derradeiro tema é “Jojo”, dedicado ao seu melhor amigo falecido, num diálogo que recusa a morte, mas que não é veemente nem gritante, sendo antes uma espécie de oração laica à amizade, íntima e contida, tal e qual foi a tónica de Brel de Rosas.
Brel é um duo de dança delicioso, que nos deixa a sensação de estarmos perante um terceto: Anne Teresa, Solal e Jacques. A dança nunca impede a invocação, as memórias e os ecos que estas canções nos sabem trazer.
(Os meus agradecimentos para Maria José Albarran Alves de Carvalho pela revisão linguística deste artigo.)
- LA LETTRE - 15/07/2026
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