Coisas de criações, pandemias e políticas públicas, por Moncho Rodríguez

Dentro dunha serie de artigos de opinión sobre os efectos da pandemia sobre as artes escénicas en diferentes partes do mundo, Moncho Rodriguez –director de Teatro, dramaturgo e encenador e Director da Feira de Teatro de Bonecos e Formas Animadas– dá a súa opinión a partir da súa experiencia, a cabalo entre Portugal e Brasil. | Texto: Moncho Rodríguez |

 

Estava nas vésperas de embarcar para o Brasil, mais uma vez invadido pela felicidade de estar no Festival Internacional Janeiro de Grandes Espetáculos do Recife, Beatriz e o Peixe Palhaço fazia parte da programação. Desta vez, Paulo de Castro arriscou-se a acolher um espetáculo que nunca tinha visto e não se arrependeu, foi emocionante… Elsa Pinho fez uma interpretação grotowskiana, segundo Ronaldo Correia de Brito, para mim podia ter sido mesmo “monchiana”, mas o que valeu foi a simplicidade da brincante que nos encantou.

Antes de sair de casa, ainda com a mistura dos cheiros das esculturas de papel que ficaram adormecidas na sala, tinha libertado em mim a história de Matilde e Alice, mulheres que decidiram viver juntas os últimos dez anos de suas vidas. Regiane Cunha e Simone Brault aceitaram o desafio de interpretar numa encenação quase que engasgada pela emoção. Sim, há personagens que pressentem quando vão contaminar tudo, basta olhar onde a delicadeza aparenta-se frágil e é mesmo ali onde vai explodir a força da vida com profundo cheiro de saudade…Depois, já não há nada a fazer, é deixar-se naufragar numa incompletude que tudo invade…há personagens que nos trazem naufrágios…

Matilde e Alice é daqueles trabalhos em que as palavras chegam à garganta e passam desgarrando sentimentos, prazeres de emoções desconhecidas, amargas. Quando o espetáculo finda… parece que não finda, já nem sabemos se somos teatro ou invencionices de dramaturgias do que não vivemos…é que quando acaba, olhamos para o futuro lá no horizonte infinito do desassossego e mesmo não querendo, acabamos sendo Matildes ou Alices a engolir a vida e a ruminá-la por dentro…

Antes de sair de casa, Matilde e Alice estiveram por um dia em cena, um só dia… depois, viajei…

Agora tenho um certo arrependimento. Sinto que trouxe as duas personagens para um mundo de isolamentos e lá estão elas, confinadas, sem que possam sair à cena, sem espaço para existir… trancadas, escondidas, emudecidas.. Arre! Como dói criar para o escuro do silêncio… para a ausência das gentes…para o oculto das artes…nada é mais triste do que um teatro vazio. No Brasil, encontrei os artistas aturdidos, inconformados com os silêncios administrativos, impedidos de estarem nas cenas, nos palcos, impedidos de ganhar os seus sustentos… sem nenhuma lei de cultura, sem ministros de cultura, sem dinheiros da cultura… lutando por sobreviverem… a arte não pode sair à rua para pedir ajudas…inventaram-se todos os meios possíveis para dizer ao mundo que ainda resistiam vivos. Lives, Lives e mais Lives , os artistas do Brasil inventaram uma nova forma de “passar o chapéu”, virtual. O ministério de cultura deixou de existir, a secretaria especial da cultura não tem dono, nem rei, nem nada…

Volto para Portugal e depois de 5 meses de pandemia, encontro o problema dos artistas desassistidos pela ausência total de políticas públicas que possam defender necessidades e interesses dos criadores. De pronto, aparece uma ministra sem “graça” a anunciar com toda pompa uma linha de apoio aos… passaram-se 5 meses senhora ministra…
5 meses é muita fome…
O seu Ministério levou 5 meses para criar uma linha emergencial… é realmente isso que veio agora anunciar?
Chama a isso emergência?
Certamente que essa atitude política tem outro nome e bem que merecia ser punida com toda severidade…
5 meses para que o Ministério da Cultura de Portugal apresente um linha emergencial de apoio… nem indo a Fátima a pé.

Voltei a Portugal num avião da air-europa totalmente cheio, sem nenhuma precaução de distâncias entre passageiros, nem sequer os mínimos previsto pelas leis, amontoados seria a palavra mais correta… ao chegarmos ouvimos a voz do comissário anunciar:

– “Por favor atendam as precauções da saúde pública e mantenham às distâncias recomendadas por lei”….

Alguém inverteu os papéis, afinam eles é que são os cómicos?
Os aviões lotados e os teatros com restrições…
Quando determinaram que os teatros podiam abrir porém com apenas 40% da sua capacidade de ocupação, confesso que até pensei que finalmente os governos realizariam um “esforço” para levar público aos teatros… aquele tão anunciado incentivo para a formação de novos públicos…
ou será que o governo que apenas cria estruturas monumentais, arquiteturas espaciais de vanguarda, edifícios com equipamentos moderníssimos, irá agora preocupar-se com a ocupação dos espaços? Não sabem eles que os teatros há muito que sofrem com a ausência de públicos? … é como quem investe em autoestradas mas não produz gasolina…

Quando os senhores dos ministérios da cultura vão entender que políticas públicas para as artes não se restringem a programas de subsídios pontuais? …

Matilde e Alice que me perdoem, eu não sabia que o mundo ia encorujar-se para dentro… que as gentes iam ter medo das pessoas e que uns iam se proteger dos outros… todos pedindo para estarem sós, isolados…higienizados… contaminados pelo medo de estar juntos… fecharam o mundo.

Se eu soubesse, não as tinha criado.

Por favor, que alguém que volte a abrir as portas de um teatro!
Precisamos viver! Precisamos respirar!
Será que ninguém sente falta do meu ofício? Será que ninguém quer sonhar de olho arregalado?

Será que agora se vão realmente criar políticas públicas que atendam as necessidades da classe artística… ou teremos que esperar por novas pandemias…?

Deixar unha resposta