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‘Ningún hombre me llevará a la cumbre’ Releitura queer um ano depois

'Ningún hombre me llevará a la cumbre' de Celeste González
'Ningún hombre me llevará a la cumbre' de Celeste González

A minha leitura mudou mais do que a peça teatral. Há um ano escrevia sobre esta mesma peça com outra perspetiva. Escrevim, acho agora, um artigo desligado da importância a nível pessoal que tivo esta obra em mim. Há um ano via esta obra no Teatro Ensalle de Vigo, e o passado sábado 12 voltei vê-la no Centro Ágora da Corunha dentro do “I Congreso Internacional Corpos, xénero e sexualidade” organizado pola Rede Galega de Estudos Queer. E fum vê-la tendo o dia anterior umha mensagem de Celeste a me dizer que se alegrava de que fosse porque a obra mudara muito, ao qual lhe respondim dous dias depois que muito mais mudou a minha leitura.

O que vimos e sentimos na Corunha foi ante todo um exercício de confiança máximo de Celeste cara o público, algo que nom sentim em tal medida em Vigo. Quiçá tenha a ver isto co contexto no que estavamos (era o público dum congresso queer ao fim e ao cabo), ou quiçá tenha a ver com que estava eu condicionade polas minhas circunstâncias pessoais (há um ano eu ainda nom assinava como Dieh e era “socialmente um homem”); mas, ainda assim, desta vez vim a umha Celeste mais descontraída, umha Celeste que se deu a licença de errar, admitir o erro e corrigi-lo com toda naturalidade.

O contexto da funçom importa, e vaia se importa. E em efeito, quero olhar para esta obra desde umha perspetiva queer. Falava Ana Amigo, numha palestra do congresso, sobre a procura de metodologias bastardas, num intento de desconstruçom dos trabalhos académicos aludindo ao que é ser queer. Falava-nos entom do conhecimento como algo coletivo e de como no seu livro cita conversas informais com amigas, porque nessas conversas também se constrói conhecimento. À entrada e à saída desta obra no Centro Ágora falei com gente sobre esta obra, e dessas conversas xurdiu a necessidade de fazer esta reescrita.

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Quero, ante todo, emendar o que escrevim no primeiro artigo. Esta obra nom se move entre essas dualidades das que falava, isso é a superfície. Esta obra é mais ca isso. Nesta obra Celeste fai o que leva fazendo desde que a conheço: espir-se cima do palco. E desta volta foi quando mais espida a vim.

No início vemos a sua terra queimada. E “sua” neste caso como possessivo de 3ª pessoa do plural, nom do singular, porque ante todo Celeste fala desde o coletivo, desde a comunidade das margens. Nalgum momento no espaço sonoro, enquanto vemos esse vídeo do que já falei no anterior artigo, ouvimos por momentos dous vocativos e à vez o género textual que ouvimos é o duma carta. Os dous vocativos que ouvimos som Celeste e Regina, o qual me leva, agora que conheço a referência, ao livro Regina & Celeste, una correspondencia, de Regina Fiz e Celeste González (que tenho pendente de ler, polo que pido desculpas). Ouvimos entom a correspondência entre estas duas artistas, na que se contam a sua vida e as suas transiçons. Ouvimos as suas viagens ou até anedotas privadas de cama. Ouvimos como Celeste nos conta que lhe pedia a cada homem que passava pola sua cama que lhe figesse umha foto. Nos últimos anos vejo rapazes trans a subir vídeos curtos a redes sociais dizendo a câmara a frase “[x tempo] em testosterona”. O relato de Celeste levou-me ao mesmo: a procura do corpo e a superaçom da imposiçom social sobre os nossos corpos. E disso vai esta obra.

Num momento, Celeste conta-nos como se num grupo de lapas há mais fêmeas que machos, um macho muda de sexo, “transita”, e as suas vizinhas nom vam falando por aí dela, senom que lhes parece bem, seguem a sua vida sem mais. Houvo umha companheira no congresso que dizia querer-lhes berrar algumhas vezes aos cisheteros que calem. Fago minhas as suas palavras, que ao fim e ao acabo é o que está a dizer-nos Celeste: cisheteros, calai!

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Nesta funçom, Celeste nom conseguia fazer soar bem as suas lapas no momento em que tinham de soar. Admitiu o erro, voltou-no tentar, voltou-lhe a nom sair bem, e logo, já após os aplausos, voltou-no repetir e saiu-lhe. Isto é dominar o palco, pareceu-me a máxima expressom de sinceridade cénica. E nesse momento no que fai soar as suas lapas pede-lhe ao público que a acompanhe cantando cum retrouso singelo. Ouvim umha vez a a dizer que a interaçom co público era “demagogia”. A própria Celeste vê-se na necessidade de afirmar que nom é este o caso dizendo-nos que nom é a procura do aplauso fácil, senom um exercício de confiança, e é que efetivamente aqui nom cabe o termo “demagogia” tal como no-lo explicava Ana há anos, aqui Celeste está a criar comunidade (e matiço que nom acredito que a própria Ana Vallés aplicasse aqui o termo).

Após a funçom estivem a falar com sobre o falso final, essa dança inspirada, como dixem no anterior artigo, em A consagraçom da primavera de Stravinski e a interpretaçom de Pina Bausch, e o que vou dizer é tirado a partir dessa conversa com Gena. O que nom mencionava nesse artigo era o nome de Nijinsky e, o mais importante, o que significa esta dança. Este ballet representa ante todo um sacrifício, e vê-se na sequência coreográfica que reproduze Celeste. Reproduze esses saltos potentes e logo, cada vez mais, para, mostra-se cansada, farta. É preciso lembrar aqui a de-formaçom de Celeste em vários ballets clássicos ao longo dos anos. Esta sociedade impom-nos um sacrifício nos nossos corpos e estamos fartes. Novamente, cisheteros, calai mil primaveras!

Um dos elementos que mudou na obra neste ano é que agora essa técnica num lado da cena que interage duas vezes com Celeste já nom é a própria técnica do teatro, como viramos em Ensalle, senom que agora vemos que as duas primeiras pessoas que entram em cena, cruzam o palco e se situam na mesa técnica nom som técnicas qualquer nem se movem como tal. Estas duas pessoas tenhem umha certa presença cénica e vestem cumha estética queer, além de que há mais interaçons. Seria bom lembrar aqui, acho eu, que as pessoas encarregadas da técnica som as margens do teatro. Esta obra é umha afirmaçom da margem na que vivemos, e do apoio mútuo em confiança que atopamos na margem a gente que a habitamos.

Outro elemento importante que mudou foi o final. A peça já nom acaba após o momento coreográfico do que falei antes, isso agora é um falso final. Após esse momento fai-se o escuro co corpo de Celeste destroçado, cansado, e a gente aplaude estranhada a pensar que era um final insuficiente, a gente queria mais, e Celeste deu-nos mais. Logo Celeste regressa para realizar outro final, um final bem diferente do anterior, com outra energia. Celeste conduze-nos até umha orgia, remata por fazer dançar ao público. Este ato noutras obras foi tachado de “demagogia” também (até por mim), e por suposto nom é este o caso, nem o era a primeira vez que vim a Celeste em cena (Antes de la metralla de Matarile), que também rematava fazendo dançar ao público. Este final é o final perfeito, melhor que o falso final, porque é o feche do sentimento de pertença à comunidade das margens do público.

A minha leitura mudou porque Celeste é umha dessas pessoas que coa sua arte ajudou a que eu também conseguisse pronunciar a frase de “eu nom som um homem”. Celeste é ante todo umha referente no artístico e no pessoal, e desde aí escrevo isto. Quando acabou a obra só me saíu umha frase: “quero ver a Celeste”, com a conseguinte resposta de Ana Vallés “por supuesto”, levando-me consigo aos camerinos na procura de Celeste. E quando por fim vim a Celeste só me saíu um abraço, nom me saíam as palavras. E isto é o melhor que podo escrever sobre esta obra, melhor que qualquer análise estética.

Sinto nom ser objetive nem fazer umha crítica ajeitada neste artigo, mas nom quero pedir desculpas igualmente. Graças por criar comunidade.

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ê Dieh QS

ê Dieh QS

Ê Dieh QS (esse "ê" é um artigo), pessoa de género incerto. Frequentei as aulas de Dramaturgia na ESADg, embora nunca chegasse a rematar os estudos. Agora frequento aulas de Ciências da Linguagem na UVigo. Escrevo dende a dissidência. Identifico-me e defino-me como dissidente na arte, na língua, no género e na vida.

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