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SAUDAÇÕES

Ionescamente divertidos e inquietos

Foto: Rui Mateus
Foto: Rui Mateus

A Companhia de Teatro de Almada saúda-nos ou, se preferirem, cumprimenta-nos, revelando no laboratório fotográfico do teatro — e com uma precisão que nem a fotografia alcança — aquelas dinâmicas e tendências nocivas em que o ser humano acaba por cair. Para isso, utiliza três peças breves de Ionesco (Saudações, O Novo Inquilino e Delírio a Dois), nas quais, tal como na fotografia analógica, temos o negativo, o processo de revelação e o de positivação: a luz entra pela lente e atinge o filme. Quando a cena é muito clara, o filme recebe muita luz; quando é escura, recebe pouca. Porém, estas três peças de Ionesco, na encenação de Álvaro Correia, fazem o inverso: quando a situação é escura e até absurda, o teatro ilumina-a e dá-lhe sentido, para que o palco seja um dispositivo de revelação e de positivação.

Correia traz-nos uma visão mais do que realista do que somos. Aliás, há uma estilização teatral com um tom que nos pode lembrar a obra pictórica de René Magritte: elementos figurativos reconhecíveis em contextos com os quais acabam por estabelecer relações desassossegadoras.

André Pardal, Bruno Soares Nogueira, Carla Bolito, Pedro Walter e Teresa Gafeira movem-se nessa estilização de geometrias certeiras, imprimindo todo o sentido da atualidade às personagens e às situações estranhas em que atuam, quase como um subtexto. Desta maneira, conseguem o grande mérito de escapar ao lugar-comum e ao estereótipo do “absurdo”. Posso afirmar, portanto, que é a primeira vez que vejo a dramaturgia de Eugène Ionesco encenada sem que as atrizes e os atores façam absurdezas ou recorram a atitudes, gestos e ações sem sentido nenhum. Há tanto sentido na interpretação — embora utilizem essa fina estilização, com um pouco de exagero, mas sem nunca atingir o grotesco — quanto a inquietação que produzem os diálogos e situações que Ionesco compôs.

Assim sendo, O Novo Inquilino fala-nos, com todo o sentido, de como nos enterramos na acumulação de bens materiais — toda essa mobília que nos afoga e que pode ser a metáfora de tantas cargas e pesos escolhidos. Já Delírio a Dois nos fala da estupidez, da dificuldade em nos entendermos e do egoísmo face a conflitos tais como uma guerra, dando o exemplo desse casal que até discute se as tartarugas são da mesma família que as lesmas e os caracóis enquanto, fora do apartamento, decorre uma guerra. Ou não será esta guerra mais do que o reflexo amplificado da incompreensão estúpida desse casal?

Por fim, Saudações, a mais breve de todas (tal como é assinalado na folha de sala), é uma espécie de sketch que a encenação reparte em três variações — no início, no intermezzo e no final — para abordar os cumprimentos que dão título ao espetáculo. Nelas, nesse ato de saudar o outro, podemos descobrir a estrutura e a geometria nuas das relações humanas. Uma música, a dessas saudações, que também nos é revelada de uma maneira muito lúdica e quase de cabaré, e que acaba com uma cadência perfeita: “E nós? Estamos maravilhosamente bem, estamos ionescamente bem!”. Humor, mas sobretudo, para mim, um universo muito inquietante.

(Os meus agradecimentos para Maria José Albarran Alves de Carvalho pela revisão linguística deste artigo.)

Afonso Becerra
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SAUDAÇÕES

Texto: Eugène Ionesco

Tradução: Golgona Anghel

Encenação: Álvaro Correia

Intérpretes: André Pardal, Bruno Soares Nogueira, Carla Bolito, Pedro Walter e Teresa Gafeira

Cenografia e figurinos: Sérgio Loureiro

Desenho de luz: Guilherme Frazão

Música e Desenho de som: Daniel Mendrico

Produção: Ana Miffon, Elison Vinícius

Contra-regra: Daniel Fernandes, Renata Cruz

Companhia de Teatro de Almada

 

43º Festival de Almada. Sala Experimental do Teatro Municipal Joaquim Benite, 7 de julho de 2026.

Afonso Becerra

Afonso Becerra

Director da erregueté | Revista Galega de Teatro. Pertence ao seu Consello de Redacción desde o 2006. Doutor en Artes Escénicas pola Universitat Autònoma de Barcelona. Titulado Superior en Dirección escénica e dramaturxia polo Institut del Teatre de Barcelona. Titulado en Interpretación polo ITAE de Asturies. Dramaturgo e director de escena. Exerce a docencia en dramaturxia e escrita dramática na ESAD de Galiza desde o ano 2005. É colaborador, entre outras publicacións, de revistas de cultura e artes performativas como 'ARTEZBLAI', 'Primer Acto', 'Danza en escena', 'Tempos Novos', 'Grial'. Entre setembro de 2019 e xuño de 2021 foi colaborador especialista en artes escénicas da CRTVG, no programa 'ZIGZAG' da TVG. Desde setembro de 2022 é colaborador semanal sobre artes escénicas do 'DIARIO CULTURAL' da RADIO GALEGA.
Premio Álvaro Cunqueiro da Xunta de Galicia en 2001. Premio María Casares á Mellor Adaptación teatral en 2016. Premio de Honra do Festival de Teatro Galego, FETEGA, do Carballiño (Ourense) en 2020. Premio Internacional de Xornalismo Carlos Porto 2024, de prensa especializada, do Festival de Almada, organizado pola Câmara Municipal de Almada, do que tamén recibira unha Mención Honrosa en 2020.

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