Espetáculo de Honra de 2025, voltou no 43.º Festival de Almada para esgotar a Sala Principal do Teatro Municipal Joaquim Benite e cativar todo o público.
O palco representa os bastidores de um teatro que tem um fantasma muito querido: uma marioneta do tipo Bunraku, manipulada pelos três atores que interpretam os técnicos de palco. Estes surgem sem máscara no início e, depois, com as máscaras de três técnicos que representam tipologias humanas muito marcadas e reconhecíveis: o chefe experiente e mais velho; o sensível que gosta de ler — magrinho, pouco ágil e pouco dado ao trabalho; e o ágil, forte e resolutivo, embora baixo de estatura. Eles são Bob, Bernd e Ivan, três caricaturas em contraste com as dos artistas que passam pelos bastidores para entrar em palco e brilharem perante o público: os músicos da orquestra, os cantores de ópera, a soprano lírica, o tenor galã, as bailarinas do corpo de baile, o coreógrafo efeminado e os atores de comédia que interpretam os Mosqueteiros.
As máscaras acentuam, de maneira muito plástica, as características mais cómicas, ao mesmo tempo que o movimento do corpo e a gestualidade conferem os traços e as atitudes mais definidoras, brincando com o lado mais estereotipado. Mas a conjunção de máscara, teatro físico e síntese compositiva das personagens — geradas com apenas quatro traços e de uma forma muito ágil — renova e refresca os estereótipos. Assim sendo, estes surgem perante nós entre o reconhecimento e a surpresa.
Teatro Delusio mexe com as nossas emoções porque põe em jogo as fragilidades humanas e as atitudes nas quais nos podemos rever.
Na minha opinião, o mais maravilhoso do trabalho artístico da Familie Flöz é o texto e o subtexto — o próprio tecido da obra —, feitos de ternura e compreensão no que diz respeito às personagens que retratam, caricaturam e com as quais brincam. Eles colocam nas suas criações um espelho que, sem fugir ao lado crítico, se edifica sempre sobre a compaixão humana. Um valor implícito, tanto nesta como noutras peças que já lhes conheço, muito necessário nestes tempos de isolamento digital, em que as pessoas se remetem para ecrãs que apenas devolvem imagens superficiais e vazias, ao mesmo tempo que sucumbimos ao poder dos algoritmos e do marketing.
Além disso, não se trata apenas dos retratos ternos e compreensivos, que resultam em personagens muito queridas até nos seus defeitos e falhas mais reprováveis, mas também da paródia de situações em que as relações interpessoais são postas à prova, dando origem a sketches de um humor brilhante que acaba sempre por ser muito construtivo.
A fechar a noite, a casa estava cheia e todo o público entregue, com pessoas de todas as idades a rir e a sorrir. Não é assim tão fácil conseguir tal unanimidade.
(Os meus agradecimentos para Maria José Albarran Alves de Carvalho pela revisão linguística deste artigo.)
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