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DIALOGUES DANS LE RÊVE

Sortilégio encantatório

Dialogues dans le rêve. Josef Nadj & Ivan Fatjo. 43.º Festival de Almada.
Dialogues dans le rêve. Josef Nadj & Ivan Fatjo. 43.º Festival de Almada.

O universo fantástico desta dupla cruza-se com a poesia da filosofia Zen e faz florescer sobre o palco uma dimensão mitológica e antropológica, tangível, muito sensorial. Conseguem-no através de um trabalho corporal de movimento que parece herdeiro do Kabuki e de uma utilização de braços e mãos muito próxima das danças orientais. Vestem fatos pretos, máscaras brancas, chapéus, a caveira de uma cabeça de cavalo e outros elementos, movendo-se quase sempre em simultâneo, tal como uma ação desdobrada, duplicada e, assim, também amplificada.

No encantamento que esta dança ritual produz, entra também a música de caráter percussivo e pulsional com a ação pictórica — ora projetada e atravessada pela luz, na vertical, de uma espécie de ecrã, ora efetuada com pós e areias diretamente sobre o chão preto, junto das figuras que também emergem da luz.

Os dois atores efetuam uma dança-teatro em que as figuras resultantes estão a meio caminho entre a marioneta e a pessoa humana, numa automanipulação de movimentos articulados e objetualizantes.

Aliás, a performance, na frontalidade visual destas figuras — que remete para manifestações pictóricas e artísticas primigénias —, concita um caráter mágico e transcendental, assente no mistério.

Por outro lado, o início de Dialogues dans le rêve oferece-nos um vídeo em que podemos ver o que parece ser um enxame de insetos voadores e nadadores que constituem uma comunidade numerosíssima. São imensas nuvens desses diminutos animais a mexer asas e antenas no ar e na água de um lago. A sua fisionomia, nesses agrupamentos, transforma-se num vislumbre de fenómeno abstrato. De repente, aqueles diminutos seres ganham a forma de algo enorme e grandioso, e parece que se confabulam na geração de um outro mundo desconhecido e belíssimo.

O eco desses diminutos animais, tão pictóricos quanto os traços desenhados na ação com as partículas de pó e os grãos de areia (ou, quem sabe, de sementes), mantém-se ao longo da peça como um enigma natural ligado ao Planeta e desconhecido para nós.

Aliás, as areias, sementes ou pós, na ação pictórica, também originam, a partir do informe, formas e seres quase antropomórficos. Entidades que não saem da imaginação nem do intelecto, mas do próprio movimento a brincar com a matéria.

Em conjunto, Nadj e Fatjo oficiam um sortilégio cénico de beleza e mistério encantatórios, no qual se pode sentir uma raiz muito profunda que vincula o ser humano aos outros seres e entidades do planeta e do cosmos.

(Os meus agradecimentos para Maria José Albarran Alves de Carvalho pela revisão linguística deste artigo.)

Afonso Becerra
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Dialogues dans le rêve

Encenação: Josef Nadj

Coreografia e interpretação: Josef Nadj e Ivan Fatjo

Direção técnica: Nicolas Sochas

Criação de máscaras: Anaëlle Impe

Produção: Séverine Péan e Mathilde Blatgé

43.º Festival de Almada. Palco Grande, Escola D. António da Costa. Almada, 08 de julho de 2026.

Afonso Becerra

Afonso Becerra

Director da erregueté | Revista Galega de Teatro. Pertence ao seu Consello de Redacción desde o 2006. Doutor en Artes Escénicas pola Universitat Autònoma de Barcelona. Titulado Superior en Dirección escénica e dramaturxia polo Institut del Teatre de Barcelona. Titulado en Interpretación polo ITAE de Asturies. Dramaturgo e director de escena. Exerce a docencia en dramaturxia e escrita dramática na ESAD de Galiza desde o ano 2005. É colaborador, entre outras publicacións, de revistas de cultura e artes performativas como 'ARTEZBLAI', 'Primer Acto', 'Danza en escena', 'Tempos Novos', 'Grial'. Entre setembro de 2019 e xuño de 2021 foi colaborador especialista en artes escénicas da CRTVG, no programa 'ZIGZAG' da TVG. Desde setembro de 2022 é colaborador semanal sobre artes escénicas do 'DIARIO CULTURAL' da RADIO GALEGA.
Premio Álvaro Cunqueiro da Xunta de Galicia en 2001. Premio María Casares á Mellor Adaptación teatral en 2016. Premio de Honra do Festival de Teatro Galego, FETEGA, do Carballiño (Ourense) en 2020. Premio Internacional de Xornalismo Carlos Porto 2024, de prensa especializada, do Festival de Almada, organizado pola Câmara Municipal de Almada, do que tamén recibira unha Mención Honrosa en 2020.

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