Há figuras históricas que, quase de uma maneira inevitável, despertam atração e interesse, quer pelo seu carisma, quer pela dimensão sobre-humana — ou talvez seja melhor dizer sub-humana e monstruosa. Benito Mussolini é, sem dúvida, uma dessas figuras que marcou o devir de uma nação e da história mundial.
Tom Corradini oferece-nos um retrato satírico em que a caricatura serve para pôr em relevo os aspetos mais parodiáveis de Il Duce: por exemplo, o seu transtorno obsessivo-compulsivo com qualquer pormenor à sua volta, o solipsismo dos diálogos consigo próprio para se reafirmar nos seus princípios, e o ensaio de estratégias para convencer toda a gente de maneira assertiva e contundente.
As semelhanças faciais do ator com Mussolini são assustadoras. Destaca-se também a sua capacidade física para se transformar em Winston Churchill, utilizando uma síntese gestual e as mudanças pertinentes na voz e no sotaque de maneira igualmente paródica. Aliás, até faz aparecer o mesmíssimo Adolf Hitler através de uma marioneta de tamanho grande e estética expressionista, num número de ventriloquia muito cómico, embora o diálogo seja, no entanto, terrível.
Corradini, com as suas habilidades de palhaço, reproduz cenas entre Mussolini e outras personagens, algumas pertencentes à esfera familiar e outras à esfera social e política. Transita por diferentes épocas da vida do protagonista, desde a infância até ao dia 24 de julho de 1943, data em que o Grande Conselho do governo fascista italiano se reúne para discutir a deposição de Sua Excelência Benito Mussolini, Chefe de Governo, Duce do Fascismo e Fundador do Império. Assim sendo, pelo palco passam, em transformações rápidas, muito rítmicas e dinâmicas: o seu pai, que era ferreiro e ativista anarquista; a esposa Rachele; uma das suas amantes, muito mais nova do que ele; Winston Churchill; Hitler; entre outros. De resto, também se podem ouvir as palavras autênticas da figura histórica real, tal como nos comentou Corradini no final do espetáculo. Entre as insistências obsessivas da personagem, sobressai o amor à mãe, cujo retrato está em cima da mesa tal qual o de uma Virgem.
Mussolini é um espetáculo histórico-cómico que, nalgumas linhas e sobretudo nas entrelinhas, nos dá a ver as estratégias do populismo e da manipulação por parte de um homem que se erigiu em todo-poderoso. Ele sabia que o povo não quer lógica, nem dúvidas, nem debilidades. Ele sabia que o povo gosta de homens fortes, assertivos e que digam de uma vez aquilo que o povo está à espera de ouvir.
A capacidade de brincar e fazer humor com o terrível, de uma maneira aparentemente simples e com as ferramentas da pantomima e do clown, é muito notória. Também o é a grande mestria para incutir no espetáculo informações e documentação histórica muito complexa que, no entanto, nos é servida de tal maneira que nem nos apercebemos dessa complexidade. Desta forma, podemos desfrutar e rir à vontade, ao mesmo tempo que descobrimos aspetos importantes de uma figura histórica incontornável. Estes aspetos trazem luz sobre atitudes e estratégias que se estão a replicar e a repetir na atualidade, de maneira perigosíssima, em dirigentes supremos de países não muito longínquos.
(Os meus agradecimentos para Maria José Albarran Alves de Carvalho pela revisão linguística deste artigo.)
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