Estamos em tempos de supostas liberdades, mas também de cancelamentos e de várias formas de censura. Algumas talvez necessárias ou de justiça, outras não passam da aplicação de estratégias muito semelhantes às das censuras históricas, como a da Santa Inquisição ou a das ditaduras ainda bem presentes na memória — a de Salazar em Portugal e a de Franco em Espanha. Mas, nos últimos tempos, o que talvez chame mais a nossa atenção, por nos poder parecer contraditório, é a utilização daquelas estratégias censoras por parte de uma fação do politicamente correto — ora os feminismos, ora os movimentos antirracistas, antifascistas, anti-homofóbicos, transfóbicos, etc.
Nalguns casos, há uma linha muito ténue entre a implementação de medidas para corrigir as desigualdades baseadas no género, na ideologia, na religião, na raça ou nas orientações afetivo-sexuais e as políticas de proibição. Ainda assim, a comparação com as censuras ditatoriais ou com a Santa Inquisição é, de todo o modo, um exagero, porque nos países europeus estes cancelamentos não resultam diretamente em violência física nem em cárcere. Porém, os discursos de ódio, estimulados direta ou indiretamente em publicações nas redes sociais, em declarações de figuras públicas ou com influência social, e também por parte de instituições religiosas influentes, podem incitar e incitam, de facto, à violência contra grupos historicamente vulneráveis, como os migrantes, a comunidade LGBTIQ+, as pessoas racializadas, as mulheres, entre outros.
O tema é complexo e ultrapassa, com certeza, as possibilidades de esclarecimento num artigo que visa apenas refletir sobre um espetáculo como Burn Burn Burn de Os Possessos. Esta companhia pega no romance clássico Fahrenheit 451, de Ray Bradbury, e tenta refletir sobre as censuras e cancelamentos atuais a partir dessa história distópica, em que os livros eram queimados pelos bombeiros. Uma obra literária que é já quase um mito, no qual a liberdade intelectual e de expressão são confrontadas com os perigos da censura, a manipulação dos meios de comunicação de massas e o conformismo acrítico.
Catarina Rôlo Salgueiro e Isabel Costa apresentam-nos uma proposta que conjuga três registos ou modos teatrais em torno de Fahrenheit 451. Por um lado, utilizam um registo próximo do documental ou do narrador brechtiano, com as duas sentadas numa cabine ou estúdio de rádio, na margem direita do palco — creio que são elas mesmas —, a colocar-nos questões controversas sobre que livros e que obras de arte poderíamos considerar suscetíveis de ser censurados, reescritos ou modificados hoje, devido aos seus conteúdos contrários às liberdades ou aos direitos humanos. Colocam a questão de saber se uma obra literária ou artística deve ser rejeitada caso a pessoa que a escreveu ou criou seja um assassino, um criminoso ou alguém reprovável. Por outras palavras, a dependência ou não entre a obra e o autor, e até que ponto o julgamento e a análise da obra devem ser influenciados pela vida do seu autor. Também expõem informações documentadas sobre incêndios propositados de bibliotecas, sobre obras literárias que foram proibidas, etc., desenvolvendo as suas reflexões nesse sentido.
Por outro lado, ocupando a maior parte do palco, temos a cenografia aberta de uma espécie de biblioteca dos anos em que foi escrito Fahrenheit 451 (os anos 50) e, nela, um professor a orientar um grupo de leitura que está a ler em voz alta e, depois, também a refletir sobre este livro. Nessa roda vão-se sucedendo diferentes e conflituosas reações suscitadas pelas interpretações a que a leitura da obra dá lugar.
Por último, haveria ainda os momentos em que a leitura se transforma diretamente na representação de algumas cenas dramáticas da história, com as personagens principais a interagir e com lutas que parecem o simulacro de um filme de ação. Assim sendo, as pessoas do grupo de leitura transformam-se em Guy Montag, no professor Faber, em Mildred Montag, Clarisse McClellan, no Capitão Beatty, etc., e representam as cenas em que os bombeiros vão queimar livros e a consequente rebelião do bombeiro Montag.
Deste modo, o debate teórico exposto por Catarina e Isabel encontra a sua explosão teatral na representação de algumas cenas da história de Fahrenheit 451, à maneira de um exemplo mítico que estabelece um paralelismo muito eloquente. Uma representação não isenta de passagens em que o realismo descamba numa distorção onírica de pesadelo.
Pelo meio da representação também se geram debates entre as personagens do romance teatralizado. Neles entra uma intertextualidade em que surgem excertos de outros livros que supomos serem do gosto das criadoras deste espetáculo — por exemplo, as falas em que se imagina o futuro em As Três Irmãs de Anton Tchékhov, ou as dúvidas do famoso solilóquio de Hamlet, ou a reflexão sobre o poder da palavra decorada e incorporada, que já ninguém pode banir nem fazer desaparecer porque vai guardada no íntimo da pessoa, tal e qual a esplêndida peça By Heart de Tiago Rodrigues.
Em termos de interpretação do elenco, tudo se desenvolve com eficácia, embora as lutas fiquem num ponto, talvez, um pouco estranho. No meu caso, não percebi bem se esses simulacros de combate serviam para dar um contraste cómico ou se eram para ser levados a sério, como um clímax de tensão.
De resto, a dramaturgia e a encenação parecem um pouco descosidas, ou pelo menos foi essa a impressão com que fiquei. Há momentos potentes, mas o que se passa no final com as duas mulheres que estão na cabine ou estúdio de rádio é um exemplo: desaparecem a dada altura, sem motivo percetível, e não voltam. Ora, a estrutura da dramaturgia parecia apontar para um desenvolvimento e encerramento daquilo que se tinha apresentado.
Além disso, em termos de conteúdo, saímos do espetáculo sem descobrir nada de novo ou sem acrescentar qualquer ideia às questões colocadas. Contudo, as perguntas voltaram a ser postas em foco, e são muito pertinentes e necessárias nestes tempos em que pensar que somos livres é um tremendo engano. Uns tempos, os atuais, em que estão a regressar as censuras e até as violências justificadas por discursos de ódio (os agora chamados “haters”). Se calhar, nunca desapareceram.
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